15 novembro 2009

Itty Bitty Titty Committee: feminismo longe dos dramas do armário

Resolvi fazer esse post sobre um filme que não lida nem com se assumir e nem com se assumir para os pais, o que é raro no universo de filmes LGBT. Às vezes parece que só esses dois momentos são importantes na nossa vida. Pensem bem, temos bastantes filmes e séries que lidam com se assumir ou com se assumir para os pais, ou com os dois. Mas quantos trabalhos que retratem lésbicas existem que não tratam nem de uma coisa nem de outra?

Claro que se assumir é um grande marco na vida de toda lésbica, mas nossa vida é mais rica do que sair do armário e quase não vemos esse tipo de representação.


The Itty Bitty Titty Committee (2007) passa longe disso, é um filme sobre feminismo e militância. A personagem principal é jovem, tímida e um pouco ingênua, mas já passou por todas essas crises de assumir. A família dela a apoia e inclusive convida a namorada dela para um casamento na família. O problema de Anna (Melonie Diaz) não está em ser ou não ser lésbica, ou de ser ou não ser lésbica abertamente. O problema dela é a solidão.

Ela começa o filme tendo recém levado um pé na bunda da namorada, que deixa mensagens horrorosas na secretária eletrônica pedindo os cds de volta e proibindo-a de ver as amigas que compartilhavam quando estavam juntas. O trabalho dela é um saco e ela não conseguiu entrar na universidade que queria. Em resumo, está na fossa total.

As coisas mudam quando ela conhece Sadie (Nicole Vicious), uma menina (sempre começa assim né?) que está pichando o lugar onde Anna trabalha, uma clínica de cirurgia plástica. Era tudo que ela precisava, uma bad girl pra apimentar as coisas um pouco. Claro que ajuda um monte a delinquente em questão ser super gostosinha e ter aquele charme que só as bad girls sabem ter (vocês sabem do que eu estou falando, não adianta negar). Não precisou convidar duas vezes para Anna ir para o mau caminho.

Ela se junta a um grupo de feministas radicais chamado "c(i)a", sigla que quer dizer "clits in action", ou "clitóris em ação" em português, que comete variados atos de vandalismo em nome da emancipação da mulher perante a sociedade misógina e opressora. Ela começa a ler textos feministas, pinta o cabelo, picha as paredes do quarto, e se rebela em geral contra o casamento da irmã e contra as práticas do chefe cirurgião plástico. Mas a vida de militante feminista radical é mais do que piquetes e demonstrações, Anna se envolve com a bad girl Sadie e bagunça toda a estrutura interna do grupo (ok, essa parte é bem previsível).


O filme foi dirigido por Jamie Babbit, que já teve outro filme comentado no Oráculo (But I'm a Cheerleader). Na verdade, já naquele post eu havia prometido falar de Itty Bitty Titty Committee (IBTC), então vejam como eu cumpro minhas promessas, ainda que com certa demora. Quem viu o outro filme vai notar a semelhança entre os dois. Como em But I'm a Cheerleader, IBTC não se propõe a ser um filme sério, é uma comédia, uma alegoria da luta feminista numa sociedade que exclui e oprime as mulheres. Como tal, apresenta personagens às vezes caricatos demais e algumas situações bem irreais, mas na minha opinião não perde por isso. É um roteiro não convencional executado de forma irreverente. Minha namorada por outro lado não curtiu tanto, ela achou que os personagens eram muito exagerados e não se relacionou muito com eles.

Eu vejo vários pontos positivos no filme e acho que no fim o saldo é bem satisfatório. Primeiro de todos é o fato ser um filme com lésbicas e para lésbicas, mas sem o drama de sair do armário, como frisei no começo do post. Segundo, acho que o filme consegue ser sobre e para lésbicas mas mesmo assim não se restringir somente a esse nicho. O casal principal é de lésbicas e certamente há várias delas na trama, mas o elenco em geral é bastante diversificado.

Há um transgênero masculino (FTM - Female to Male, ou seja, que nasceu mulher mas tem identidade de gênero masculina), que foi expulso de casa ao contar para os pais. Fora The L Word, esse é o único filme ou seriado que vi que trata de transgêneros masculinos, se alguém souber de outros por favor me fale porque de tudo que vi e li até agora quase não há referência. O personagem Aggie acaba tendo um pequeno affair com Anna no meio do filme, que também chama a atenção porque quase não vemos transgêneros femininos ou masculinos retratados de maneira sexualmente ativa.

Uma das militantes da c(i)a, interpretada pela linda Carly Pope (à direita), é heterossexual e questiona a rigidez das nossas categorias de sexualidade, ela acaba se envolvendo com outra mulher ao longo da trama (Daniela Sea, que faz o transsexual em The L Word). Não fica claro se ela se descobre bissexual, lésbica ou se continua se identificando como hétero mas tendo um caso com uma mulher, de qualquer modo é interessante ver esse tipo de experimentação retratada. A bissexualidade infelizmente ainda é considerada um tabu, mesmo nos filmes e séries que lidam com o assunto de sexualidades.

Também achei legal que a garota com quem ela se envolve tem um passado no exército americano. Ela serviu 18 meses no Iraque e depois foi dispensada do serviço deshonradamente, por ser lésbica. Não sei se vocês estão por dentro dessa questão, mas nos Estados Unidos existe uma política chamada "Don't Ask, Don't Tell", que quer dizer quer gays ou lésbicas podem servir, mas não podem ser abertos quanto à sua homossexualidade. Ou seja, podem dar suas vidas pelo país, mas só se ficarem no armário. O Obama já prometeu abolir essa política, mas ainda não estabeleceu um cronograma disso. É mais um dos absurdos do preconceito, mais uma das nossas lutas.

Por último, eu gostei da variedade de sapas, fora a inclusão de bissexualidade e transsexualidade, o filme ainda mostra lésbicas tantos femmes quanto butches. Apesar de eu, pessoalmente, ser mais parcial às femmes (pronto, disse), adoro quando há uma diversificação dessa estética lésbica nos filmes. Acho que qualquer um que conhece várias sapas e tem amigas de diferentes tipos sabe que o nosso mundo não é feito só de femmes, nem só de butches, nem só de extremos. Acho isso super legal e acredito que existe muito mais fluidez nesse espectro do que se imagina. Bom, eis alguns exemplos dessa variedade:
Eu por exemplo não sei direito onde me encaixo. Sou femme porque gosto de usar vestido e salto num baile, ou sou butch porque adoro usar bermuda e tenho cabelo curto? Sei lá, acho que sou um pouco dos dois e penso que muita gente também transita entre essas categorias. O filme mostra bem essa variadade e mostra como cada uma tem sua beleza. Cada uma pende para um certo lado, mas certamente não há uma rigidez. Nesse sentido achei uma boa evolução de But I'm a Cheerleader, onde cada personagem, homem ou mulher, se encaixava em um rótulo.


Bom, essa é minha sugestão do dia. Fora todas as razões que eu já apontei, ainda tem a trilha sonora, muito boa com bastante som riot grrrl (Bikini Kill, Le Tigre, Team Dresh) e cenas de clubes undergrounds. E, como não poderia deixar de ser, tem também a vantagem de ter várias cenas de nudez e de sexo, que sempre deixam o filme mais interessante... ou não? Vocês me digam.

Enfim, é mais um trabalho da Jamie Babbit, que com certeza é uma diretora pra ficar de olho. O filme foi realizado com apoio da Power Up!, uma produtora cinematográfica sem fins lucrativos que patrocina projetos que tenham lésbicas como tema. Essa mesma organização financiou outro favorito meu, D.E.B.S., da Angela Robinson, mais uma cineasta lésbica, que prometo (ai ai, mais uma promessa) falar um dia aqui no Oráculo. IBTC conta com a participação de Guinevere Turner, atriz que produziou e estreou Go Fish, e com a celesbian Jenny Shimizu, que é famosa por ter tido um caso com Angelina Jolie e com a Madonna.

Como sempre, o filme pode ser achado por aí tranquilamente e as legendas estão disponíveis aqui.

27 julho 2009

"I Can't Think Straight": comédia romântica com diversidade cultural

Eu sei, eu sei. Faz horas que não escrevo. O que eu posso dizer? As coisas nem sempre são como a gente quer... Minha vida está meio complicada. Estou estudando de novo e trabalhando muito, então acaba sobrando pouco tempo para tudo o resto. Por outro lado tenho boas notícias: estou morando com minha namorada numa casa super legal (seria a casa dos nossos sonhos se não fosse pelo aluguel e pelas vizinhas chatas que não gostam de cachorro). Fica no Sul da Ilha, pra quem conhece Floripa, bem pertinho do meu irmão e da mulher dele.

Bom, sinto muita saudade de escrever no blog e dos comentários de vocês, então hoje me empolguei pra compartilhar um filme visto recentemente: I Can't Think Straight (2007).

É um filme sobre uma mulher que está prestes a se casar e acaba conhecendo e se apaixonando por outra mulher. Hmmm, plot velho né? Alguém se lembra de Imagine You & Me? (Sei que ainda não falei desse filme no Oráculo, mas com certeza vocês já ouviram falar). Mas só o enredo é batido, a execução é bem legal e vale a pena conferir.

Primeiro de tudo pela diversidade das personagens. O filme se passa em Londres na sua maior parte, e uma das personagens (Leyla, à esquerda na imagem ao lado) é muçulmana de origem indiana, enquanto que a outra (Tala, à direita) é da Jordânia, de origem palestina e vinda de uma família cristã. Adoro quando a diversidade é realçada em filmes que lidam com questões de gênero e sexualidade. Acho que em muitas aspectos estamos presas ao universo hollywoodiano, e também à sua estética branca e ocidental.

Mas ainda bem que filmes sobre lésbicas ainda não viraram moda em Hollywood (fora raras exceções e os de mau gosto é claro) e têm seu nicho forte no cinema independente, que permite que a diversidade seja retratada com todas as suas cores. Vendo esses filmes eu me dou conta do quanto de beleza existe fora do padrão estético hollywoodiano. Alguém nega isso olhando para essas imagens?

Muito provavelmente o filme deve a sua diversidade à diretora, Shamim Sharif, que é de origem sul-asiática e sul-africana. Ela é responsável por outro filme sobre lésbicas chamado The World Unseen, que pretendo comentar futuramente no Oráculo. Os dois filmes surgiram de romances escritos pela por ela mesma, que ganharam vários prêmios literários e de cinema. Em resumo, ela é uma dessas pessoas que temos sempre que ficar de olho, tal como Angela Robinson e Alison Bechdel.

A trama, como já dei a entender não muito sutilmente, não traz muitas surpresas. Tala está prestes a se casar quando conhece Leyla. As duas começam a trocar olhares e quando percebem já estão na cama. Daí vem a parte da angústia em relação às famílias tradicionais e a invariável escolha entre ficar no armário ou se assumir.

Leyla lida melhor com a situação, e uma vez que descobre o porquê de todos aqueles livros da Sarah Waters e daqueles cds da K.D. Lang ela respira fundo e encara a família. Você pode ver pela foto ao lado o quanto a mãe dela curtiu a ideia (eventualmente, como na maior parte dos casos, ela melhora de postura, e é legal que o pai dela a apóia desde o começo).

Já Tala decide se afastar de Leyla e tenta seguir com o casamento até a véspera do mesmo... tsc tsc. Depois a dor de cotovelo bate forte... mas como toda comédia romântica (sobre e para lésbicas) as duas acabam voltando aos braços uma da outra. E como vale a pena esperar por esse momento...

Achei a química entre as duas muito legal, e não prejudica nada o fato das duas serem lindas de morrer e terem aquele quê de sapas que não é toda atriz que consegue reproduzir. Também gostei da maneira como os dilemas foram enfrentados pelas personagens, com drama mas sem muito drama, se é que isso faz sentido. Sei lá, não é sempre que você quer ver um dilema existencial de duas horas para chorar do começo ao fim... às vezes só quer ver uma história legal entre duas mulheres. Mas eu já assumi antes que adoro comédias românticas então não adianta ficar escondendo isso.

Uma das coisas que chamou a atenção foi a discussão sobre as diferenças religiosas e culturais entre as duas. Apesar das duas virem de famílias tradicionais e conservadoras em seus países de origem, as histórias são diferentes. É interessante ver como a família de origem palestina lida com assuntos referentes a Israel de maneira polêmica no jantar, ao mesmo tempo em que a família indiana discute a fé e dedicação à religião muçulmana. Quando essas duas discussões se encontram, há certo atrito, mas desenvolvido de maneira muito boa pelo roteiro e direção. Como eu já disse, um drama sem muito drama.

Bom, fica a dica então. Pra quem quiser ver o filme, é bem tranquilo de achar pelos caminhos usuais na internet. As legendas em português você pode baixar por aqui.

23 março 2009

"For the Bible Tells Me So": uma cruzada pela verdade na discussão entre homossexualidade e religião

Depois de tanto tempo sem postar (outra hora me explico, mas envolve uma namorada ocupadíssima, um trampo muito estressante, trabalho voluntário que exige horrores de tempo e aulas como caloura na UFSC, sim, de novo) queria me redimir com um post sobre um dos documentários mais marcantes que já vi. For the Bible Tells Me So fala de religião e homossexualidade, e dos inevitáveis (será?) conflitos que advém quando os dois se cruzam.

O filme começa com uma cena clássica da Anita Bryant, uma religiosa fanática que fez campanha contra homossexuais nos anos 70, levando uma tortada na cara (quem viu Milk vai lembrar dela). Isso já é em si só uma amostra de quanto os ânimos se acirram quando a questão religião e homossexualidade começa a ser discutida em qualquer lado da balança. Em seguida vemos e ouvimos vários trechos de sermões e discursos do naipe de "Estamos destruindo o alicerce da sociedade", "Este país está fazendo de tudo para fazer as pessoas acreditarem que é ok ser gay. Quando não é. Por isso Deus destruiu Sodoma e Gomorra e por isso Deus vai destruir este país", misturados com imagens de passeatas por direitos gays e paradas.

Em menos de cinco minutos se vocês forem como eu já estarão chocados com o discurso de ódio que é proferido contra a população LGBT. Eu digo chocado não no sentido de surpresa, porque todos sabemos do que se trata (muitos de nós já sentiram na pele), mas no sentido de não conseguir aceitar a simples existência desse discurso. Eu sempre me sinto assim, não consigo me acostumar ao fato de milhões de pessoas odiarem o que eu sou com tanta veemência. Estou mais do que ciente da existência desse ódio e preconceito, mas por mais que eu ouça e me informe e lute contra isso, a cada nova vez que eu escuto me vem a sensação de choque e incredulidade novamente.

Ok, mas continuando sobre o filme (estou revendo pela quarta vez pra escrever o post e já estou com lágrimas nos olhos). As histórias são contadas através das perpectivas de cinco famílias religiosas que tiveram que lidar com um filho gay ou uma filha lésbica. Aos poucos vamos nos familiarizando com esses personagens, com essas famílias que sofreram e ainda sofrem tentando aceitar a ideia de que um dos seus filhos queridos também é um dos que a Bíblia condena como uma abominação. Como fazer para conciliar seu amor por um membro estimado da família com a convicção de que a Bíblia classifica ela ou ela como não naturais?

Não quero entrar em nenhuma questão de religião específica, mas acho que existe sim uma razão ou um propósito para que nasça um filho ou filha homossexual dentro de uma família preconceituosa. Acredito que é uma das grandes ironias da vida (e, porque não dizer, divinas): é muito fácil julgar o outro, o diferente, ter preconceito e condenar aquilo que pra você é alheio. Quantas vezes não vemos a religião sendo usada para propagar justamente esse ódio ao diferente? Mas como fazer quando de repente a diferença chega até você? Quando não é mais o garoto efeminado da novela que é bixa, ou a menina de estilo moleque do seu bairro que é sapatão, ou qualquer outro estereótipo, o que fazer quando você descobre que o seu filho ou sua filha são aquilo que você sempre desprezou sem maiores considerações? O documentário lida com essas contradições. Cinco famílias religiosas que enfrentaram essa situação, algumas bem outras nem tanto.

Acho que o filme já começa desafiando essa questão de diferença. Os gays não são colocados como diferentes, e tampouco os religiosos. Ao invés de contar a história de um ponto de vista "nós" versus "eles", "homossexualidade" versus "Bíblia", "gays" versus "religiosos", como se fossem lados opostos em uma batalha, o filme nos conta as histórias de quando não há o diferente, nem de um lado nem de outro. Quando os dois lados fazem parte da mesma família. A ideia do filme é fugir dessa polarização e lidar com o assunto da melhor maneira, de uma maneira humana.

Então vamos aos casos individuais. A primeira família é a de Gene Robinson. Eu não sei se vocês já ouviram falar dele, mas se ainda não sabem quem é deveriam ir atrás. Ele foi o primeiro religioso abertamente gay a ser consagrado como Bispo na Igreja Episcopal. Um homem que quebrou barreiras e foi inclusive convidado a dar uma prece na inauguração das festividades da posse do Obama (no meio de uma polêmica entre Obama e o movimento LGBT pelo fato do primeiro ter convidado um religioso anti-gay, Rick Warren, para fazer a oração no dia da inauguração). Os pais já idosos dele falam de como Gene nasceu com problemas de saúde, e de como eles agradeciam a Deus pelo filho ter crescido normalmente apesar dos médicos terem falado que ele sofreria com problemas de desenvolvimento. Eles se emocionam ao contar a história. É muito claro que amam o filho genuinamente e tem orgulho dele.

A próxima família a ser apresentada é a dos Poteats (ao lado). A fala que mais me marcou nos relatos dessa família é a do pai quando fala que rezava a Deus para seus dois filhos, um menino e uma menina. Que o menino não virasse uma bixa, e que a menina não se transformasse numa vadia. A grande ironia de acordo com ele é que Deus ouviu as preces dele. Foi a filha que se revelou lésbica... (Sempre achei que foi exatamente o que aconteceu com meu pai...) Homossexualidade era uma coisa que ele nunca esperaria que acontecesse comigo, justo a filha menina (acho que as pessoas quando pensam em homossexualidade acabam lembrando só dos gays mesmo tsc tsc). Em seguida os Reitans, que tem um filho adolescente gay, são apresentados e logo depois os Gephardts, que tem uma filha lésbica.

Depois que as primeiras quatro famílias são brevemente apresentadas o documentário foca um bom tempo na palavra "abominação", que é como a Bíblia descreve atos homossexuais em algumas passagens tais como Levítico 20:13. As entrevistas com as pessoas na rua mostram o quanto de ignorância há por trás da ideia do que exatamente a Bíblia fala, já que muitos nunca leram as tais passagens que condenam a homossexualidade. Na passagem citada o que acontece é que ao mesmo tempo em que classifica um homem deitar com outro homem como abominação, um pouco antes também classifica a ingestão de frutos do mar como tal, e um pouco abaixo condena misturar mais de uma semente na mesma plantanção como abominação. A leitura literal de apenas um verso fora de contexto é o mal que aflige aqueles que usam a Bíblia para justificar seus preconceitos, conforme vários teólogos entrevistados.

O documentário relata um pouco de como foi para os filhos e filhas se assumirem para si mesmos e depois para os pais. O processo é mostrado através dos dois pontos de vista e não há como não se emocionar com alguns dos relatos. Me identifiquei com várias das histórias e acho que deve ser uma reação comum pra quem já viveu isso na pele. Acho que em toda a história de se assumir e de assumir para os pais há alguns elementos em comum: o medo de não ser aceito, medo de não ser mais amado, medo de ser motivo de vergonha para os pais, o medo de não se sentir parte de algo maior, entre outros por parte dos filhos; e por parte dos pais a sensação de não conhecer mais seu filho, o medo de que ele ou ela percam seu rumo na vida, o medo de um "estilo de vida" (não concordo com essa expressão) desconhecido, a sensação de ter todos os sonhos para aquela pessoa despedaçados de uma vez só... "Foi como uma morte" disse o pai de Jake, da família Reitan. Acho que é algo do gênero para os dois lados... Em compensação existe também a sensação de renascimento, você sai disso tudo uma nova pessoa, a pessoa que você verdadeiramente é, e acho que no final os pais entendem isso (na maior parte das vezes).


"Amor incondicional" fala Dick Gephardt (um político proeminente do partido democrata americano), pai de Chrissie (foto acima). Ele resume bem o sentimento que precisa ser redescoberto para que haja a aceitação. Chrissie teve muita sorte, seus pais a aceitaram imediatamente e a asseguraram que seu amor continuaria o mesmo e que a apoiariam sempre. Com certeza algo que muitos de nós ainda esperam ouvir. Já aviso que às vezes demora um pouco, como no meu caso e a dos outros no documentário.

Foi o caso de Jake, da família Reitan (na foto acima com os pais). Seus pais não sabiam como lidar com a situação e procuraram o apoio de um pastor parente deles que os aconselhou a não aceitar o filho como homossexual, que ele poderia mudar e que o faria com a ajuda da igreja e deles. Sugeriu que algumas pessoas passam por fases na vida onde sentem atração pelo mesmo sexo e que talvez fosse o caso com Jake, que ainda era adolescente. Eu pergunto a todos os pais com filhos gays ou quaisquer outras pessoas com essa ideia: será que é realmente plausível que alguém escolha voluntariamente passar por esse tipo de sofrimento por um sentimento passageiro? Eu pergunto pra quem acha que ser gay ou lésbica é questão de escolha, de "estilo de vida": quem escolheria sofrer preconceito diariamente? Se fosse uma escolha realmente, quem escolheria isso? Quem escolheria o medo de ser rejeitado pelos próprios pais? É claro que não temos escolha, nascemos assim e somos obrigados a enfrentar uma sociedade inteira para termos uma chance de ser felizes. Eu acho que cada um de nós deveria receber um prêmio, só pela coragem de assumir ser algo diferente do que a sociedade dita para você.


O que alguns programas religiosos ditam é que homossexualidade é uma escolha e que o que você deve fazer para "salvar" seu filho é não aceitá-lo. Isso é a pior coisa que se pode fazer numa hora dessas, diz uma psicóloga no documentário. É justamente o período mais frágil na vida de alguém e pode ser devastador ser rejeitado pelas pessoas que você mais depende. A história da quinta família no documentário mostra isso claramente. A mãe, Mary Wallner (ao lado com as duas filhas), conta como rejeitou sua filha (direita na foto), como usou as passagens da Bíblia para dizer as coisas muito pouco amáveis como "eu te amo, mas sempre vou odiar isso em você", na maneira que julgava correta pelas intruções da igreja.

Isso afastou Anna, a filha, cada vez mais até que ela cometeu suicídio. Infelizmente essa é uma realidade no nosso mundo, gays e lésbicas são três a sete vezes mais propensos a cometer suicídio, e essa taxa aumenta ainda mais quando se trata de adolescentes. Acho que as pessoas não conseguem entender inteiramente o que é sentir solidão por completo, o que é sentir-se o único no mundo. O que é sentir-se realmente só. Um dos entrevistados que trabalha numa ONG de prevenção ao suicídio do estilo do CVV diz que uma das cinco maiores razões para os jovens ligarem para pedir apoio é por razões religiosas. O que a Igreja faz é criar um mundo onde a pessoa se sente ainda mais só, como se nem Deus aprovasse da sua existência, como se não houvesse maneira de conciliar fé e homossexualidade. Um mundo onde a primeira resposta é o ódio a si mesmo, é a falta de aceitação de si mesmo. Um mundo onde há o medo de falar com os pais, com os professores, com os líderes religiosos, com os amigos, etc.

E o que acontece também é que se cria um mundo onde a violência contra gays e lésbicas é justificada pela Bíblia. Assim como a Bíblia foi erroneamente usada para validar escravidão, opressão contra as mulheres, apartheid, anti-semitismo, e asim por diante, hoje é usada para justificar preconceito com a população LGBT. Nós somos o novo "outro". O clima político é um em que a violência contra gays e lésbicas é tida como um ato divino, alguém fazendo a vontade do Senhor. A mensagem de amor e compaixão expressa na Bíblia fica perdida em meio à alienação do preconceito.

"Minha crença teológica é que todas as relações baseadas em amor são honradas por Deus" diz um dos entrevistados. Amor é um sentimento divino, como poderia ser condenado por Deus? Em que realidade seria plausível que Deus condenasse um amor tão puro quanto qualquer outro? "Jesus sempre abraçou os excluídos, como alguém usaria suas palavrar para excluir um grupo de pessoas e se proclamar cristão não faz sentido para mim" diz outra entrevistada. Amor, inclusão, compaixão: esses são os sentimentos ensinados por Jesus. Onde as pessoas encaixam preconceito dentro disso não entendo.

Um rabino entrevistado lembra que na Bíblia um homem adquiria sua mulher. Não fazemos mais isso, diz ele. O conceito de casamento mudou desde aquela época, completa. Então porque será que as pessoas tem tanto medo de redefinir o que é o casamento? Dizem que a legalização das uniões gays irá redefinir o que significa casamento. E daí? É o que se faz com o passar do tempo, se redefinem as coisas. O conceito de casamento vem mudando há séculos, justamente agora significará o fim da sociedade? Não era o que diziam do casamento interracial? Do divórcio? Pelo que me consta essas foram redefinições do que é casamento e ainda continuamos aqui, o mundo ainda não acabou.

"Eu não consigo imaginar, por mais que tente que Deus puna as pessoas dessa maneira. Eu vou te punir porque você é negro, você deveria ter sido branco. Eu vou te punir porque você é mulher, você deveria ter sido homem. Vou te punir porque você é homossexual, você deveria ter nascido heterossexual. Não consigo realmente imaginar que seja assim que Deus veja essas coisas." Desmond Tutu, arcebispo e nobel da paz pela sua luta contra o Apartheid.

Pronto, estou eu aqui novamente chorando ao terminar de assistir esse documentário. Acho que é o tipo de filme que tinha que ser mostrado nas salas de aula. As legendas em português demoraram um tanto, mas estão disponíveis nesse link. O filme em inglês está disponível na íntegra no Youtube, mas também é bem fácil de conseguir para baixar nos caminhos usuais. Acho que ficou claro pelo meu post imenso que eu mais do que recomendo. É dos meus filmes favoritos de todos os tempos e programa obrigatório para vocês minhas leitoras e leitores.

05 novembro 2008

Sobre Vitórias e Derrotas: a eleição americana e a perda de direitos LGBT

Acordei hoje super feliz com a notícia de que o Obama havia vencido de lavada. Os democratas levaram não só a presidência, mas a maioria no senado e na câmara. Podemos todos respirar um pouco mais aliviados de que o mundo não vai para o buraco junto com os americanos tão cedo quanto iria com um outro mandato republicano.

Todos os jornais citam esse dia como um marco na história, principalmente por Obama ser o primeiro presidente eleito afro-descendente. É uma coroação dos movimentos pelos direitos civis dizem muitos militantes daquela época que lutaram contra a segregação racial.

Infelizmente em relação a direitos civis a eleição foi apenas um marco histórico para os afro-descententes mesmo. A população LGBT americana perdeu muitos direitos com esse resultado. Incrível como em todo o resto aparentemente houve um movimento em direção ao centro, se afastando do conservadorismo de forma inédita na história americana (em um estado até pesquisa com células-tronco foram aprovadas), mas quando se trata de direitos LGBT é difícil ver os resultados sem ficar ao menos um pouco frustrada.

Deixem-me explicar melhor isso: junto com as eleições presidenciais, os americanos sempre aproveitam a oportunidade para realizar vários plebiscitos e ontem vários estados votaram a favor ou não da adoção de crianças por casais do mesmo sexo e a favor ou não da legalização de uniões civis entre homossexuais. O resultado foi um retumbante "AINDA SOMOS PRECONCEITUOSOS EM RELAÇÃO A ISSO E ACREDITAMOS QUE VOCÊS NÃO MERECEM OS MESMOS DIREITOS".

A mídia, pelo menos por agora, ainda não está comentando nada a respeito disso. Estão muito ocupados louvando o sonho americano e a vitória da luta pelos direitos civis dos afro-descendentes. Ainda não viram a ironia suprema que é falar em vitória de direitos civis enquanto toda uma parte da população é relegada à marginalidade e segregação.

De qualquer maneira, quem sabe isso nos sinalize que daqui a quarenta anos talvez o povo tenha conseguido superar os preconceitos contra os LGBT da mesma maneira que conseguiram contra os afro-descendentes (será? O próprio Obama diz pra acreditar em mudança). Quem sabe então possamos visualizar um cidadão concorrendo à presidência independente não só de sua cor, mas também de seu gênero e sexualidade. Eu ficaria feliz só em saber que os cidadãos LGBT de lá possam ter direitos iguais a quaisquer outras pessoas, como diz a tão aclamada constituição deles.

Acho que estamos mais perto que eles de conseguir isso.

Este é o link para ver os resultados nos vários estados (alguns ainda estão contando os votos, mas acho que os resultados não vão mudar de rumo não).

Eu sei que este post não teve muito a ver com filmes, ou seriados, ou documentários... Mas foi algo que me veio naturalmente hoje de manhã no trabalho enquanto lia sobre os resultados. A minha frustração ao ler sobre os plebiscitos quase que igualou a minha alegria anterior ao saber da vitória de Obama.

De qualquer maneira, quero dizer que quero voltar a postar no meu ritmo normal a partir deste mês (e não, esta não é só mais uma promessa de campanha). Fui promovida no meu novo trampo e as coisas estão mais calmas o suficientes para que eu possa voltar a me dedicar como gosto do blog.

**Legenda do cartoon:
Codificação do casamento:
Gays - Mal encarnado
Bissexuais - Confuso
Ateus - Sem sentido
Liberais - Maculado
Conservadores sem filhos - Suspeito
Conservadores com filhos - Aprovado

26 agosto 2008

"Personal Best": quebrando o tabu das lésbicas nos esportes (homenagem às Olimpíadas)

Olá queridas leitoras e leitores!
Sei que faz um tempo que não escrevo, mas como já expliquei no último post foi por boas causas... Tanto foi por uma boa causa que estou prestes a ser promovida no trampo novo já.

Mas voltando ao post... Eu adoro Olimpíadas e esportes em geral (Sou sapa afinal de contas...), e agora como estou trabalhando alguns dias durante a noite acompanhei de perto os jogos em Pequim e torci muito pros nossos atletas. Em homenagem aos jogos olímpicos preparei uma seleção especial de filmes e o primeiro é Personal Best, de 1982.

O filme é meio antigão e longo, mas é um ótimo filme de esportes e foi um marco na história dos filmes lésbicos. Junto com Desert Hearts (1985), faz parte da pequena lista de filmes clássicos dos anos 80, e por clássicos eu quero dizer únicos. Naquela época a gente não tinha tantas opções, e quaisquer personagens lésbicas, bissexuais ou gays que eventualmente apareciam eram completamente estereotipados, retratados como psicopatas, párias, etc, salvas essas raras exceções citadas.

Se vocês acompanharam as Olimpíadas como eu provavelmente vão gostar deste filme apesar dos seus defeitos. E, se acompanharam como eu, provavelmente também notaram que a atleta russa Yelena Isinbayeva do salto com vara é uma gracinha (elegi como a musa dessas Olimpíadas... estou obcecada por ela... a Ju não aguenta mais me ouvir falando dela), que o vôlei de praia tem certos atrativos especiais, que hóquei de grama não é tão chato quanto parece, e assim por diante... Personal Best explora justamente isso, que esportes são excitantes, emocionantes, e (por quê não?) às vezes super sensuais.

O esporte do filme é atletismo, pentlato pra ser mais específica, e a trama gira em torno da preparação de um grupo de atletas de uma faculdade rumo às classificatórias das olimpíadas de 1980 em Moscou. Mariel Hemingway (sim, a neta do autor--à direita na foto abaixo) interpreta Chris, uma novata super verde que sonha em ser competitiva e tem uma veia chorona tipo a da Jade (a Barbosa, da ginástica artística, claro que vocês sabem quem é...).

Logo no começo do filme ela se atrapalha com as barreiras, faz um tempo ruim numa competição e fica toda chorona--é quando ela conhece a Tory, atleta mais velha e experiente, vivida pela linda Patrice Donnelly(à esquerda na foto). Das duas atrizes a que ficou famosa e continuou a carreira foi a Hemingway, mas eu pessoalmente acho a Donnelly melhor atriz e muito mais bonita (não adianta, prefiro morenas mesmo), depois vocês me dizem qual delas preferem.

Logo de cara elas se dão bem e a relação das duas deslancha em pouco tempo, com direito à várias cenas de nudez e sexo, o que é claro não achei nem um pouco ruim... Essa progressão no relacionamento foi feita de maneira rápida, mas bem natural e fica claro que elas desenvolvem uma ligação bem forte logo de início.

Prestem atenção no cenário da primeira cena de nudez das duas com um certo abajur de pelicano breguíssimo estilo anos 70... impagável. Fora o cenário brega e enquadramento estranho achei a cena bem interessante e a naturalidade das duas me chamou a atenção. Outros momentos que me agradaram têm mais a ver com cenas do cotidiano do que com sexo, eu realmente curto quando os filmes mostram retratos das vidas dos personagens no dia a dia, fora da trama principal (outro filme que me chamou a atenção neste aspecto foi Treading Water, que amei e espero logo escrever um post a respeito).

A coisa começa a degringolar quando o treinador resolve colocar as duas na mesma modalidade, o pentlato, que era especialidade de Tory, e a competitividade começa a aflorar. Não consegui entender na verdade qual a motivação deste personagem no filme, os atos aleatórios de machismo e estupidez com as atletas não ficaram muito coerentes, pelo menos pra mim. Ele instiga competitividade entre elas e consegue afetar o relacionamento. A tensão vai escalando até que elas não aguentam mais e terminam. Eu sei que eu mencionei que este é um clássico lésbico, mas na verdade se for ser precisa o filme retrata mais a bissexualidade de Chris, já que quando ela termina com Tory, começa a sair com homens, mas em nenhum momento elas se definem como uma coisa ou outra.

Eu sempre tenho um pé atrás com esse tipo de enredo, mas neste caso o roteiro lida bem com a transição. Chris não nega o relacionamento e atração que teve por Tory, não descarta como simples experimentação como outros filmes que já vi e que me irritaram. Para Chris, o relacionamento com Tory foi sério, intenso e bem real, mas que não deu certo e agora ela está à procura de outros relacionamentos. Não que eu tenha gostado dessa virada nos acontecimentos, mas fazer o quê... filme é que nem esporte, só dá pra torcer mesmo.... e eu sou uma romântica incurável que sempre quer ver as personagens ficando juntas... Mas o final é bem positivo e reflete o respeito que ambas sentem uma pela outra.

De modo geral eu gosto bastante deste filme, sim, ele tem seus defeitos, mas aprecio bastante seu valor histórico. Também curto muito o fato de ser um filme sobre esportes com personagens lésbicas e bissexuais, algo que desafiou tabus e que continua até hoje como sendo o único do gênero. O filme foi feito em 1982, mas os tabus resistem até hoje. Todo mundo sabe que o mundo dos esportes (assim como todas as esferas sociais) está cheio de lésbicas e até sabemos identificar quais são e quais os esportes com mais sapas (alguém falou em futebol feminino?), mas isso ainda não é sequer comentado pela mídia ou pelas próprias atletas. O que é visível é que ainda existe um preconceito muito grande no mundo esportivo (assim como em todas as esferas sociais... como eu me repito) mas existem sim exceções como estas atletas assumidas ou como o saltador medalha de ouro que se assumiu.

Agora às coisas que eu não gosto em Personal Best...
Acho que poderia ser bem mais curto, melhor editado e sem as várias cenas em câmera lenta (uma ou duas já está bom né?). Também acho que o roteiro poderia ser melhor, tem várias cenas que parecem não ter nenhuma conexão entre si ou simplesmente não adicionam nada à história. E eu tenho que comentar sobre a cena mais bizarra que já vi em um filme: quando Chris acha um namoradinho nadador lá pro final do filme, eles estão nus na cama e ele diz que vai no banheiro. Até aí tudo normal certo? Só que ela faz a maior manha e pede pra segurar o pênis dele enquanto ele faz xixi... Ele hesita mas acaba aceitando e a cena mostra os dois de costas... fiquei sem palavras quando vi pela primeira vez de tão bizarro que eu achei... e mais uma vez é uma cena que não tem ligação nenhuma com o resto da história, ou talvez seja pra mostrar como a personagem está totalmente fora de si depois de terminar com a Tory... vamos rezar pra que seja isso e não alguma intenção freudiana do diretor...

Tem a parte que eu achei inverossímel que é o tanto de drogas que os atletas usam... não tinha exame anti-doping naquela época? Ou será que maconha não aparecia nos testes?

E por último, tem gente que reclama que o filme tem muitas cenas gratuitas de nudez... já eu nunca vou reclamar de ver várias atletas nuas numa sauna... Precisar precisar é claro que o filme não precisa daquelas cenas... mas também fazer mal não faz né? E sempre tem tanta cena gratuita de nudez nos filmes pra héteros... vamos aproveitar o tantinho que é voltado pra gente...

O filme dirigido por Robert Towne, roteirista famoso que escreveu roteiros como Chinatown e Bonnie e Clyde. Ficou conhecido no Brasil como "Tudo pela Vitória: As Parceiras". Infelizmente não encontrei legendas em português até agora, mas achei que como era uma ocasião especial ele merecia um post mesmo assim... Se alguém tiver arquivo com a legenda deste filme por favor me passe para que eu possa disponibilizá-lo para nossas colegas sapinhas que não merecem perder de ver o filme só porque não sabem inglês.

23 junho 2008

Esclarecimento.... novo trampo e chegada da namorada!

Queridas leitoras e leitores...
gostaria de deixar claro que não abandonei o blog. Muito pelo contrário, é um dos meus projetos a longo prazo e espero continuar escrevendo durante muito tempo ainda. Tendo dito isso, acho que agora devo explicações a vocês.

A razão pela falta de atualizações no Oráculo de Lesbos é que consegui um novo emprego e ainda estou me adaptando aos novos horários. Aconteceu meio de repente, do jeito que todas as coisas boas acontecem na vida da gente. O meu irmão conseguiu um emprego num lugar super legal e estava super empolgado, e de uma hora pra outra abriu outra vaga, eu me candidatei, e já comecei o treinamento.

O porém é que preciso cobrir as folgas dos outros, e por ser um serviço 24hs isso é meio complicado... Três dias da semana eu trabalho normalmente, das nove às cinco e vinte... mas nos outros três... Um horário é das dez da noite às quatro da manhã, outro é das quatro da manhã à uma da tarde, e o último é da uma da tarde às dez da noite.... meio puxado... e ainda estou me adaptando à essas mudanças... [fotinho do lugar onde estou trabalhando... tirada no sábado quando não tem ninguém...]


Mas já estou lá há algumas semanas, então estou pegando o ritmo. Só que quero adiantar que não postarei nada novo por mais umas três semanas no mínimo... e quem já lê o Oráculo há algum tempo deve imaginar porquê... a Ju, minha namorada, chega nesta quinta! Ela passou nove meses na Inglaterra, longe de mim... e agora está chegando! Finalmente! Então acho que vocês me dão este desconto né? Não sou de ferro, e depois de quase um ano de completo celibato eu mereço um tempinho com ela...

Só mais uma coisinha: por este emprego ter surgido eu acabei não indo à Conferência GLBT em Brasília, mas vou ver se consigo de uma das minhas amigas que foi algum tipo de relato pra vocês, já que havia prometido.

Mais uma vez queria deixar claro que o compromisso que eu tenho com o Oráculo é muito sério, e espero voltar a postar normalmente dentro de algumas semanas.

21 maio 2008

"Better Than Chocolate": um filme sobre diversidades sexuais - Conferência GLBTT

Escolhi falar deste filme na verdade como um gancho para relatar minha experiência como delegada na Conferência Estadual GLBTT de Santa Catarina, mas vamos com calma, primeiro o filme.

Better Than Chocolate é um clássico do cinema lésbico, uma comédia romântica um pouco previsível [como todas as comédias românticas conseguem ser] mas também bastante divertido e com personagens bem variados e interessantes. A produção canadense de 1999 conta a história de Maggie (Karyn Dwyer), uma lésbica assumida mas que ainda esconde sua sexualidade da mãe e irmão. A farsa fica mais difícil de manter uma vez que a mãe se separa do marido e resolve ir morar na casa da filha, que na verdade nem casa tem, está dormindo no sofá da livraria lésbica onde trabalha.

Maggie acaba arranjando um apê temporário, de uma mulher que dá aulas de educação sexual e tem vibradores e dildos espalhados por todos os cômodos. Claro que isso acaba gerando várias situações cômicas, quando a mãe e o irmãos tropeçam pelos dildos na casa, ou abrem um armário com caixas etiquetadas "camisinhas" e "lubrificantes" e fingem que não vêem. Até achei meio engraçado da primeira vez que vi o filme, mas agora penso que é um pouco piada pronta demais.
De qualquer forma, a melhor cena relacionada a essa situação é quando a mãe dela encontra por acaso uma caixa cheia de vibradores e dildos escondidos embaixo da cama e resolve experimentar um deles... impagável.

O romance fica por conta da relação de Maggie e Kim (Christina Cox, a melhor atriz no filme na minha opinião e uma favorita das lésbicas), que fiéis aos estereótipo se mudam juntas ainda no primeiro encontro. A química entre elas é fenomenal, e as cenas de sexo [sim, cenaS de sexo, porque o filme tem várias, uma verdadeira exceção, e muito bem vinda] são das melhores do meu acervo. Inclusive mencionei a cena de sexo onde elas usam tinta e fazem um quadro com seus corpos em outro post como sendo um dos meus oito desejos antes de morrer: unir sexo e arte. Outra memorável acontece no banheiro da boate... vamos lá meninas, admitam... familar, certo?

Uma personagem interessante na história é a transgênero Judy [eu utilizo o termo transgêreno aqui, em vez de travesti ou transsexual, porque é como ela se declara] que é apaixonada pela dona da livraria, a butch Francis. Esse relacionamento é um que eu gostaria de ver mais explorado, porque realmente é uma coisa que não vemos muito no cinema queer. Já vi bastantes documentários a respeito, mas filmes poquíssimos.
Judy assume a identidade de gênero feminina e, enquanto mulher, se ve atraída por outra mulher, uma lésbica: exatamente o tipo de situação que nos leva a refletir e desconstruir conceitos culturalmente enraizados, nos leva a separar identidade de gênero de sexualidade. O problema dentro do filme é que isso é feito de maneira um pouco didática demais pro meu gosto, quase que catequizando o espectador através de melodrama. Mas sendo este um assunto ainda tão delicado, talvez um pouco de didática demais não seja assim de todo mal. Destaque pra cena onde ela canta na boate a música "I'm not a fucking drag queen", uma das melhores do filme.

Um ponto forte de Better Than Chocholate pra mim é que consegue abranger várias expressões de sexualidade e identidade. Além dos pontos já citados, ele não deixa de lado nem a bissexualidade e tampouco a heterossexualidade. É claro que o foco principal é a relação homossexual entre Maggie e Kim, mas diferentemente de outros filmes com a mesma proposta ele não se limita a isso. Outra funcionária na livraria, Carla, é bi e acaba se envolvendo com o irmão de Maggie, Paul, que é heterossexual, e a cena de sexo entre eles é bem interessante também.

Há ainda um sub-enredo sobre liberade de expressão, censura, obscenidade e arte, que se inicia quando os livros com temática lésbica são detidos na alfândega e confiscados por serem taxados como obscenos, uma história livremente baseada em fatos reais. Os protestos e recursos são até interessantes de acompanhar, mas esta parte da história também peca por ser didática em excesso.

Resumindo, o filme tem alguns probleminhas mas no fim das contas é um ótimo programa pra assistir com as amigas, namorada ou amigos e amigas hétero. As legendas em português estão disponíveis no opensubtitles e o filme é bem tranquilo de achar pela internet, por ser um favorito das lésbicas.


Conferência GLBTT de SC

Agora às notícias mais pessoais.... Semana passada participei como delegada na Conferência Estadual GLBTT daqui de Santa Catarina e foi um dos programas mais divertidos e interessantes dos últimos tempos pra mim [na foto embaixo sou eu e minhas amigas também representantes sapas de SC, eu sou a segunda da esq. pra dir.]. Aprendi muita coisa sobre sexualidade e identidade de gênero e isso me levou a refletir um pouco sobre como quando a gente se resolve às vezes dá o assunto por encerrado. Sim, sou lésbica e muito bem resolvida com isso, mas há todo um escopo de expressões de sexualidade por aí, e somando-se à isso identidade de gênero... muito o que pensar...

Aprendi bastante sobre políticas públicas e sobre como pela primeira vez na história um governo teve a iniciativa de convocar uma conferência GLBTT, para junto com a comunidade decidir essas políticas que entrarão em vigor nos próximos anos. Sem dúvida é um passo histórico e estou bastante otimista em relação a ele, acho difícil que todos os objetivos estabelecidos pela Conferência sejam alcançados na sua totalidade, mas acredito que daremos avanços importantes.

É claro que me diverti horrores também, porque ninguém é de ferro, e conheci muita gente interessante. Como descrever a experiência de ficar tomando cerveja e tocando violão até altas horas no meio de gays, lésbicas, bis, transsexuais, travestir e héteros? Coisa única. Quem sabe essa relação com a diversidade seja algo um pouco mais comum. E quando digo isso não falo só do mundo heterossexual não, eu vejo que nós lésbicas por exemplo também temos a tendência de ficarmos segregadas, só entre nós.

Talvez seja esse isolamento que nos leve a não sermos tão ativas na militância pelos direitos LGBT. Na reunião para escolher quem representaria SC na Conferência em Brasília [eu fui uma das contempladas!] ouvimos vários relatos de pessoas que foram à conferências em outros estados e disseram que a representatividade lésbica é pouquíssima. Meninas, precisamos participar mais da esfera política e militante, precisamos lutar pelos nossos direitos também. Afinal, todas nós sofremos com preconceito e por não ter os mesmos direitos. A discussão desses assuntos na nossa comunidade lésbica é muito grande, estamos sempre conversando e debatendo sobre igualdade e aceitação, então esta é a nossa chance de realmente fazer alguma diferença em relação a isso tudo.

Até então eu nunca tinha participado de nada do gênero, e preciso dizer que a experiência foi ótima. Então fica aí o meu recado meninas, vamos tentar participar mais ativamente desses encontros, vamos ver se aumentamos o número de lésbicas na militância. E podem deixar que eu escrevo como foi a Conferência em Brasília aqui no blog também.