27 Julho 2009

"I Can't Think Straight": comédia romântica com diversidade cultural

Eu sei, eu sei. Faz horas que não escrevo. O que eu posso dizer? As coisas nem sempre são como a gente quer... Minha vida está meio complicada. Estou estudando de novo e trabalhando muito, então acaba sobrando pouco tempo para tudo o resto. Por outro lado tenho boas notícias: estou morando com minha namorada numa casa super legal (seria a casa dos nossos sonhos se não fosse pelo aluguel e pelas vizinhas chatas que não gostam de cachorro). Fica no Sul da Ilha, pra quem conhece Floripa, bem pertinho do meu irmão e da mulher dele.

Bom, sinto muita saudade de escrever no blog e dos comentários de vocês, então hoje me empolguei pra compartilhar um filme visto recentemente: I Can't Think Straight (2007).

É um filme sobre uma mulher que está prestes a se casar e acaba conhecendo e se apaixonando por outra mulher. Hmmm, plot velho né? Alguém se lembra de Imagine You & Me? (Sei que ainda não falei desse filme no Oráculo, mas com certeza vocês já ouviram falar). Mas só o enredo é batido, a execução é bem legal e vale a pena conferir.

Primeiro de tudo pela diversidade das personagens. O filme se passa em Londres na sua maior parte, e uma das personagens (Leyla, à esquerda na imagem ao lado) é muçulmana de origem indiana, enquanto que a outra (Tala, à direita) é da Jordânia, de origem palestina e vinda de uma família cristã. Adoro quando a diversidade é realçada em filmes que lidam com questões de gênero e sexualidade. Acho que em muitas aspectos estamos presas ao universo hollywoodiano, e também à sua estética branca e ocidental.

Mas ainda bem que filmes sobre lésbicas ainda não viraram moda em Hollywood (fora raras exceções e os de mau gosto é claro) e têm seu nicho forte no cinema independente, que permite que a diversidade seja retratada com todas as suas cores. Vendo esses filmes eu me dou conta do quanto de beleza existe fora do padrão estético hollywoodiano. Alguém nega isso olhando para essas imagens?

Muito provavelmente o filme deve a sua diversidade à diretora, Shamim Sharif, que é de origem sul-asiática e sul-africana. Ela é responsável por outro filme sobre lésbicas chamado The World Unseen, que pretendo comentar futuramente no Oráculo. Os dois filmes surgiram de romances escritos pela por ela mesma, que ganharam vários prêmios literários e de cinema. Em resumo, ela é uma dessas pessoas que temos sempre que ficar de olho, tal como Angela Robinson e Alison Bechdel.

A trama, como já dei a entender não muito sutilmente, não traz muitas surpresas. Tala está prestes a se casar quando conhece Leyla. As duas começam a trocar olhares e quando percebem já estão na cama. Daí vem a parte da angústia em relação às famílias tradicionais e a invariável escolha entre ficar no armário ou se assumir.

Leyla lida melhor com a situação, e uma vez que descobre o porquê de todos aqueles livros da Sarah Waters e daqueles cds da K.D. Lang ela respira fundo e encara a família. Você pode ver pela foto ao lado o quanto a mãe dela curtiu a ideia (eventualmente, como na maior parte dos casos, ela melhora de postura, e é legal que o pai dela a apóia desde o começo).

Já Tala decide se afastar de Leyla e tenta seguir com o casamento até a véspera do mesmo... tsc tsc. Depois a dor de cotovelo bate forte... mas como toda comédia romântica (sobre e para lésbicas) as duas acabam voltando aos braços uma da outra. E como vale a pena esperar por esse momento...

Achei a química entre as duas muito legal, e não prejudica nada o fato das duas serem lindas de morrer e terem aquele quê de sapas que não é toda atriz que consegue reproduzir. Também gostei da maneira como os dilemas foram enfrentados pelas personagens, com drama mas sem muito drama, se é que isso faz sentido. Sei lá, não é sempre que você quer ver um dilema existencial de duas horas para chorar do começo ao fim... às vezes só quer ver uma história legal entre duas mulheres. Mas eu já assumi antes que adoro comédias românticas então não adianta ficar escondendo isso.

Uma das coisas que chamou a atenção foi a discussão sobre as diferenças religiosas e culturais entre as duas. Apesar das duas virem de famílias tradicionais e conservadoras em seus países de origem, as histórias são diferentes. É interessante ver como a família de origem palestina lida com assuntos referentes a Israel de maneira polêmica no jantar, ao mesmo tempo em que a família indiana discute a fé e dedicação à religião muçulmana. Quando essas duas discussões se encontram, há certo atrito, mas desenvolvido de maneira muito boa pelo roteiro e direção. Como eu já disse, um drama sem muito drama.

Bom, fica a dica então. Pra quem quiser ver o filme, é bem tranquilo de achar pelos caminhos usuais na internet. As legendas em português você pode baixar por aqui.

23 Março 2009

"For the Bible Tells Me So": uma cruzada pela verdade na discussão entre homossexualidade e religião

Depois de tanto tempo sem postar (outra hora me explico, mas envolve uma namorada ocupadíssima, um trampo muito estressante, trabalho voluntário que exige horrores de tempo e aulas como caloura na UFSC, sim, de novo) queria me redimir com um post sobre um dos documentários mais marcantes que já vi. For the Bible Tells Me So fala de religião e homossexualidade, e dos inevitáveis (será?) conflitos que advém quando os dois se cruzam.

O filme começa com uma cena clássica da Anita Bryant, uma religiosa fanática que fez campanha contra homossexuais nos anos 70, levando uma tortada na cara (quem viu Milk vai lembrar dela). Isso já é em si só uma amostra de quanto os ânimos se acirram quando a questão religião e homossexualidade começa a ser discutida em qualquer lado da balança. Em seguida vemos e ouvimos vários trechos de sermões e discursos do naipe de "Estamos destruindo o alicerce da sociedade", "Este país está fazendo de tudo para fazer as pessoas acreditarem que é ok ser gay. Quando não é. Por isso Deus destruiu Sodoma e Gomorra e por isso Deus vai destruir este país", misturados com imagens de passeatas por direitos gays e paradas.

Em menos de cinco minutos se vocês forem como eu já estarão chocados com o discurso de ódio que é proferido contra a população LGBT. Eu digo chocado não no sentido de surpresa, porque todos sabemos do que se trata (muitos de nós já sentiram na pele), mas no sentido de não conseguir aceitar a simples existência desse discurso. Eu sempre me sinto assim, não consigo me acostumar ao fato de milhões de pessoas odiarem o que eu sou com tanta veemência. Estou mais do que ciente da existência desse ódio e preconceito, mas por mais que eu ouça e me informe e lute contra isso, a cada nova vez que eu escuto me vem a sensação de choque e incredulidade novamente.

Ok, mas continuando sobre o filme (estou revendo pela quarta vez pra escrever o post e já estou com lágrimas nos olhos). As histórias são contadas através das perpectivas de cinco famílias religiosas que tiveram que lidar com um filho gay ou uma filha lésbica. Aos poucos vamos nos familiarizando com esses personagens, com essas famílias que sofreram e ainda sofrem tentando aceitar a ideia de que um dos seus filhos queridos também é um dos que a Bíblia condena como uma abominação. Como fazer para conciliar seu amor por um membro estimado da família com a convicção de que a Bíblia classifica ela ou ela como não naturais?

Não quero entrar em nenhuma questão de religião específica, mas acho que existe sim uma razão ou um propósito para que nasça um filho ou filha homossexual dentro de uma família preconceituosa. Acredito que é uma das grandes ironias da vida (e, porque não dizer, divinas): é muito fácil julgar o outro, o diferente, ter preconceito e condenar aquilo que pra você é alheio. Quantas vezes não vemos a religião sendo usada para propagar justamente esse ódio ao diferente? Mas como fazer quando de repente a diferença chega até você? Quando não é mais o garoto efeminado da novela que é bixa, ou a menina de estilo moleque do seu bairro que é sapatão, ou qualquer outro estereótipo, o que fazer quando você descobre que o seu filho ou sua filha são aquilo que você sempre desprezou sem maiores considerações? O documentário lida com essas contradições. Cinco famílias religiosas que enfrentaram essa situação, algumas bem outras nem tanto.

Acho que o filme já começa desafiando essa questão de diferença. Os gays não são colocados como diferentes, e tampouco os religiosos. Ao invés de contar a história de um ponto de vista "nós" versus "eles", "homossexualidade" versus "Bíblia", "gays" versus "religiosos", como se fossem lados opostos em uma batalha, o filme nos conta as histórias de quando não há o diferente, nem de um lado nem de outro. Quando os dois lados fazem parte da mesma família. A ideia do filme é fugir dessa polarização e lidar com o assunto da melhor maneira, de uma maneira humana.

Então vamos aos casos individuais. A primeira família é a de Gene Robinson. Eu não sei se vocês já ouviram falar dele, mas se ainda não sabem quem é deveriam ir atrás. Ele foi o primeiro religioso abertamente gay a ser consagrado como Bispo na Igreja Episcopal. Um homem que quebrou barreiras e foi inclusive convidado a dar uma prece na inauguração das festividades da posse do Obama (no meio de uma polêmica entre Obama e o movimento LGBT pelo fato do primeiro ter convidado um religioso anti-gay, Rick Warren, para fazer a oração no dia da inauguração). Os pais já idosos dele falam de como Gene nasceu com problemas de saúde, e de como eles agradeciam a Deus pelo filho ter crescido normalmente apesar dos médicos terem falado que ele sofreria com problemas de desenvolvimento. Eles se emocionam ao contar a história. É muito claro que amam o filho genuinamente e tem orgulho dele.

A próxima família a ser apresentada é a dos Poteats (ao lado). A fala que mais me marcou nos relatos dessa família é a do pai quando fala que rezava a Deus para seus dois filhos, um menino e uma menina. Que o menino não virasse uma bixa, e que a menina não se transformasse numa vadia. A grande ironia de acordo com ele é que Deus ouviu as preces dele. Foi a filha que se revelou lésbica... (Sempre achei que foi exatamente o que aconteceu com meu pai...) Homossexualidade era uma coisa que ele nunca esperaria que acontecesse comigo, justo a filha menina (acho que as pessoas quando pensam em homossexualidade acabam lembrando só dos gays mesmo tsc tsc). Em seguida os Reitans, que tem um filho adolescente gay, são apresentados e logo depois os Gephardts, que tem uma filha lésbica.

Depois que as primeiras quatro famílias são brevemente apresentadas o documentário foca um bom tempo na palavra "abominação", que é como a Bíblia descreve atos homossexuais em algumas passagens tais como Levítico 20:13. As entrevistas com as pessoas na rua mostram o quanto de ignorância há por trás da ideia do que exatamente a Bíblia fala, já que muitos nunca leram as tais passagens que condenam a homossexualidade. Na passagem citada o que acontece é que ao mesmo tempo em que classifica um homem deitar com outro homem como abominação, um pouco antes também classifica a ingestão de frutos do mar como tal, e um pouco abaixo condena misturar mais de uma semente na mesma plantanção como abominação. A leitura literal de apenas um verso fora de contexto é o mal que aflige aqueles que usam a Bíblia para justificar seus preconceitos, conforme vários teólogos entrevistados.

O documentário relata um pouco de como foi para os filhos e filhas se assumirem para si mesmos e depois para os pais. O processo é mostrado através dos dois pontos de vista e não há como não se emocionar com alguns dos relatos. Me identifiquei com várias das histórias e acho que deve ser uma reação comum pra quem já viveu isso na pele. Acho que em toda a história de se assumir e de assumir para os pais há alguns elementos em comum: o medo de não ser aceito, medo de não ser mais amado, medo de ser motivo de vergonha para os pais, o medo de não se sentir parte de algo maior, entre outros por parte dos filhos; e por parte dos pais a sensação de não conhecer mais seu filho, o medo de que ele ou ela percam seu rumo na vida, o medo de um "estilo de vida" (não concordo com essa expressão) desconhecido, a sensação de ter todos os sonhos para aquela pessoa despedaçados de uma vez só... "Foi como uma morte" disse o pai de Jake, da família Reitan. Acho que é algo do gênero para os dois lados... Em compensação existe também a sensação de renascimento, você sai disso tudo uma nova pessoa, a pessoa que você verdadeiramente é, e acho que no final os pais entendem isso (na maior parte das vezes).


"Amor incondicional" fala Dick Gephardt (um político proeminente do partido democrata americano), pai de Chrissie (foto acima). Ele resume bem o sentimento que precisa ser redescoberto para que haja a aceitação. Chrissie teve muita sorte, seus pais a aceitaram imediatamente e a asseguraram que seu amor continuaria o mesmo e que a apoiariam sempre. Com certeza algo que muitos de nós ainda esperam ouvir. Já aviso que às vezes demora um pouco, como no meu caso e a dos outros no documentário.

Foi o caso de Jake, da família Reitan (na foto acima com os pais). Seus pais não sabiam como lidar com a situação e procuraram o apoio de um pastor parente deles que os aconselhou a não aceitar o filho como homossexual, que ele poderia mudar e que o faria com a ajuda da igreja e deles. Sugeriu que algumas pessoas passam por fases na vida onde sentem atração pelo mesmo sexo e que talvez fosse o caso com Jake, que ainda era adolescente. Eu pergunto a todos os pais com filhos gays ou quaisquer outras pessoas com essa ideia: será que é realmente plausível que alguém escolha voluntariamente passar por esse tipo de sofrimento por um sentimento passageiro? Eu pergunto pra quem acha que ser gay ou lésbica é questão de escolha, de "estilo de vida": quem escolheria sofrer preconceito diariamente? Se fosse uma escolha realmente, quem escolheria isso? Quem escolheria o medo de ser rejeitado pelos próprios pais? É claro que não temos escolha, nascemos assim e somos obrigados a enfrentar uma sociedade inteira para termos uma chance de ser felizes. Eu acho que cada um de nós deveria receber um prêmio, só pela coragem de assumir ser algo diferente do que a sociedade dita para você.


O que alguns programas religiosos ditam é que homossexualidade é uma escolha e que o que você deve fazer para "salvar" seu filho é não aceitá-lo. Isso é a pior coisa que se pode fazer numa hora dessas, diz uma psicóloga no documentário. É justamente o período mais frágil na vida de alguém e pode ser devastador ser rejeitado pelas pessoas que você mais depende. A história da quinta família no documentário mostra isso claramente. A mãe, Mary Wallner (ao lado com as duas filhas), conta como rejeitou sua filha (direita na foto), como usou as passagens da Bíblia para dizer as coisas muito pouco amáveis como "eu te amo, mas sempre vou odiar isso em você", na maneira que julgava correta pelas intruções da igreja.

Isso afastou Anna, a filha, cada vez mais até que ela cometeu suicídio. Infelizmente essa é uma realidade no nosso mundo, gays e lésbicas são três a sete vezes mais propensos a cometer suicídio, e essa taxa aumenta ainda mais quando se trata de adolescentes. Acho que as pessoas não conseguem entender inteiramente o que é sentir solidão por completo, o que é sentir-se o único no mundo. O que é sentir-se realmente só. Um dos entrevistados que trabalha numa ONG de prevenção ao suicídio do estilo do CVV diz que uma das cinco maiores razões para os jovens ligarem para pedir apoio é por razões religiosas. O que a Igreja faz é criar um mundo onde a pessoa se sente ainda mais só, como se nem Deus aprovasse da sua existência, como se não houvesse maneira de conciliar fé e homossexualidade. Um mundo onde a primeira resposta é o ódio a si mesmo, é a falta de aceitação de si mesmo. Um mundo onde há o medo de falar com os pais, com os professores, com os líderes religiosos, com os amigos, etc.

E o que acontece também é que se cria um mundo onde a violência contra gays e lésbicas é justificada pela Bíblia. Assim como a Bíblia foi erroneamente usada para validar escravidão, opressão contra as mulheres, apartheid, anti-semitismo, e asim por diante, hoje é usada para justificar preconceito com a população LGBT. Nós somos o novo "outro". O clima político é um em que a violência contra gays e lésbicas é tida como um ato divino, alguém fazendo a vontade do Senhor. A mensagem de amor e compaixão expressa na Bíblia fica perdida em meio à alienação do preconceito.

"Minha crença teológica é que todas as relações baseadas em amor são honradas por Deus" diz um dos entrevistados. Amor é um sentimento divino, como poderia ser condenado por Deus? Em que realidade seria plausível que Deus condenasse um amor tão puro quanto qualquer outro? "Jesus sempre abraçou os excluídos, como alguém usaria suas palavrar para excluir um grupo de pessoas e se proclamar cristão não faz sentido para mim" diz outra entrevistada. Amor, inclusão, compaixão: esses são os sentimentos ensinados por Jesus. Onde as pessoas encaixam preconceito dentro disso não entendo.

Um rabino entrevistado lembra que na Bíblia um homem adquiria sua mulher. Não fazemos mais isso, diz ele. O conceito de casamento mudou desde aquela época, completa. Então porque será que as pessoas tem tanto medo de redefinir o que é o casamento? Dizem que a legalização das uniões gays irá redefinir o que significa casamento. E daí? É o que se faz com o passar do tempo, se redefinem as coisas. O conceito de casamento vem mudando há séculos, justamente agora significará o fim da sociedade? Não era o que diziam do casamento interracial? Do divórcio? Pelo que me consta essas foram redefinições do que é casamento e ainda continuamos aqui, o mundo ainda não acabou.

"Eu não consigo imaginar, por mais que tente que Deus puna as pessoas dessa maneira. Eu vou te punir porque você é negro, você deveria ter sido branco. Eu vou te punir porque você é mulher, você deveria ter sido homem. Vou te punir porque você é homossexual, você deveria ter nascido heterossexual. Não consigo realmente imaginar que seja assim que Deus veja essas coisas." Desmond Tutu, arcebispo e nobel da paz pela sua luta contra o Apartheid.

Pronto, estou eu aqui novamente chorando ao terminar de assistir esse documentário. Acho que é o tipo de filme que tinha que ser mostrado nas salas de aula. As legendas em português demoraram um tanto, mas estão disponíveis nesse link. O filme em inglês está disponível na íntegra no Youtube, mas também é bem fácil de conseguir para baixar nos caminhos usuais. Acho que ficou claro pelo meu post imenso que eu mais do que recomendo. É dos meus filmes favoritos de todos os tempos e programa obrigatório para vocês minhas leitoras e leitores.

05 Novembro 2008

Sobre Vitórias e Derrotas: a eleição americana e a perda de direitos LGBT

Acordei hoje super feliz com a notícia de que o Obama havia vencido de lavada. Os democratas levaram não só a presidência, mas a maioria no senado e na câmara. Podemos todos respirar um pouco mais aliviados de que o mundo não vai para o buraco junto com os americanos tão cedo quanto iria com um outro mandato republicano.

Todos os jornais citam esse dia como um marco na história, principalmente por Obama ser o primeiro presidente eleito afro-descendente. É uma coroação dos movimentos pelos direitos civis dizem muitos militantes daquela época que lutaram contra a segregação racial.

Infelizmente em relação a direitos civis a eleição foi apenas um marco histórico para os afro-descententes mesmo. A população LGBT americana perdeu muitos direitos com esse resultado. Incrível como em todo o resto aparentemente houve um movimento em direção ao centro, se afastando do conservadorismo de forma inédita na história americana (em um estado até pesquisa com células-tronco foram aprovadas), mas quando se trata de direitos LGBT é difícil ver os resultados sem ficar ao menos um pouco frustrada.

Deixem-me explicar melhor isso: junto com as eleições presidenciais, os americanos sempre aproveitam a oportunidade para realizar vários plebiscitos e ontem vários estados votaram a favor ou não da adoção de crianças por casais do mesmo sexo e a favor ou não da legalização de uniões civis entre homossexuais. O resultado foi um retumbante "AINDA SOMOS PRECONCEITUOSOS EM RELAÇÃO A ISSO E ACREDITAMOS QUE VOCÊS NÃO MERECEM OS MESMOS DIREITOS".

A mídia, pelo menos por agora, ainda não está comentando nada a respeito disso. Estão muito ocupados louvando o sonho americano e a vitória da luta pelos direitos civis dos afro-descendentes. Ainda não viram a ironia suprema que é falar em vitória de direitos civis enquanto toda uma parte da população é relegada à marginalidade e segregação.

De qualquer maneira, quem sabe isso nos sinalize que daqui a quarenta anos talvez o povo tenha conseguido superar os preconceitos contra os LGBT da mesma maneira que conseguiram contra os afro-descendentes (será? O próprio Obama diz pra acreditar em mudança). Quem sabe então possamos visualizar um cidadão concorrendo à presidência independente não só de sua cor, mas também de seu gênero e sexualidade. Eu ficaria feliz só em saber que os cidadãos LGBT de lá possam ter direitos iguais a quaisquer outras pessoas, como diz a tão aclamada constituição deles.

Acho que estamos mais perto que eles de conseguir isso.

Este é o link para ver os resultados nos vários estados (alguns ainda estão contando os votos, mas acho que os resultados não vão mudar de rumo não).

Eu sei que este post não teve muito a ver com filmes, ou seriados, ou documentários... Mas foi algo que me veio naturalmente hoje de manhã no trabalho enquanto lia sobre os resultados. A minha frustração ao ler sobre os plebiscitos quase que igualou a minha alegria anterior ao saber da vitória de Obama.

De qualquer maneira, quero dizer que quero voltar a postar no meu ritmo normal a partir deste mês (e não, esta não é só mais uma promessa de campanha). Fui promovida no meu novo trampo e as coisas estão mais calmas o suficientes para que eu possa voltar a me dedicar como gosto do blog.

**Legenda do cartoon:
Codificação do casamento:
Gays - Mal encarnado
Bissexuais - Confuso
Ateus - Sem sentido
Liberais - Maculado
Conservadores sem filhos - Suspeito
Conservadores com filhos - Aprovado

26 Agosto 2008

"Personal Best": quebrando o tabu das lésbicas nos esportes (homenagem às Olimpíadas)

Olá queridas leitoras e leitores!
Sei que faz um tempo que não escrevo, mas como já expliquei no último post foi por boas causas... Tanto foi por uma boa causa que estou prestes a ser promovida no trampo novo já.

Mas voltando ao post... Eu adoro Olimpíadas e esportes em geral (Sou sapa afinal de contas...), e agora como estou trabalhando alguns dias durante a noite acompanhei de perto os jogos em Pequim e torci muito pros nossos atletas. Em homenagem aos jogos olímpicos preparei uma seleção especial de filmes e o primeiro é Personal Best, de 1982.

O filme é meio antigão e longo, mas é um ótimo filme de esportes e foi um marco na história dos filmes lésbicos. Junto com Desert Hearts (1985), faz parte da pequena lista de filmes clássicos dos anos 80, e por clássicos eu quero dizer únicos. Naquela época a gente não tinha tantas opções, e quaisquer personagens lésbicas, bissexuais ou gays que eventualmente apareciam eram completamente estereotipados, retratados como psicopatas, párias, etc, salvas essas raras exceções citadas.

Se vocês acompanharam as Olimpíadas como eu provavelmente vão gostar deste filme apesar dos seus defeitos. E, se acompanharam como eu, provavelmente também notaram que a atleta russa Yelena Isinbayeva do salto com vara é uma gracinha (elegi como a musa dessas Olimpíadas... estou obcecada por ela... a Ju não aguenta mais me ouvir falando dela), que o vôlei de praia tem certos atrativos especiais, que hóquei de grama não é tão chato quanto parece, e assim por diante... Personal Best explora justamente isso, que esportes são excitantes, emocionantes, e (por quê não?) às vezes super sensuais.

O esporte do filme é atletismo, pentlato pra ser mais específica, e a trama gira em torno da preparação de um grupo de atletas de uma faculdade rumo às classificatórias das olimpíadas de 1980 em Moscou. Mariel Hemingway (sim, a neta do autor--à direita na foto abaixo) interpreta Chris, uma novata super verde que sonha em ser competitiva e tem uma veia chorona tipo a da Jade (a Barbosa, da ginástica artística, claro que vocês sabem quem é...).

Logo no começo do filme ela se atrapalha com as barreiras, faz um tempo ruim numa competição e fica toda chorona--é quando ela conhece a Tory, atleta mais velha e experiente, vivida pela linda Patrice Donnelly(à esquerda na foto). Das duas atrizes a que ficou famosa e continuou a carreira foi a Hemingway, mas eu pessoalmente acho a Donnelly melhor atriz e muito mais bonita (não adianta, prefiro morenas mesmo), depois vocês me dizem qual delas preferem.

Logo de cara elas se dão bem e a relação das duas deslancha em pouco tempo, com direito à várias cenas de nudez e sexo, o que é claro não achei nem um pouco ruim... Essa progressão no relacionamento foi feita de maneira rápida, mas bem natural e fica claro que elas desenvolvem uma ligação bem forte logo de início.

Prestem atenção no cenário da primeira cena de nudez das duas com um certo abajur de pelicano breguíssimo estilo anos 70... impagável. Fora o cenário brega e enquadramento estranho achei a cena bem interessante e a naturalidade das duas me chamou a atenção. Outros momentos que me agradaram têm mais a ver com cenas do cotidiano do que com sexo, eu realmente curto quando os filmes mostram retratos das vidas dos personagens no dia a dia, fora da trama principal (outro filme que me chamou a atenção neste aspecto foi Treading Water, que amei e espero logo escrever um post a respeito).

A coisa começa a degringolar quando o treinador resolve colocar as duas na mesma modalidade, o pentlato, que era especialidade de Tory, e a competitividade começa a aflorar. Não consegui entender na verdade qual a motivação deste personagem no filme, os atos aleatórios de machismo e estupidez com as atletas não ficaram muito coerentes, pelo menos pra mim. Ele instiga competitividade entre elas e consegue afetar o relacionamento. A tensão vai escalando até que elas não aguentam mais e terminam. Eu sei que eu mencionei que este é um clássico lésbico, mas na verdade se for ser precisa o filme retrata mais a bissexualidade de Chris, já que quando ela termina com Tory, começa a sair com homens, mas em nenhum momento elas se definem como uma coisa ou outra.

Eu sempre tenho um pé atrás com esse tipo de enredo, mas neste caso o roteiro lida bem com a transição. Chris não nega o relacionamento e atração que teve por Tory, não descarta como simples experimentação como outros filmes que já vi e que me irritaram. Para Chris, o relacionamento com Tory foi sério, intenso e bem real, mas que não deu certo e agora ela está à procura de outros relacionamentos. Não que eu tenha gostado dessa virada nos acontecimentos, mas fazer o quê... filme é que nem esporte, só dá pra torcer mesmo.... e eu sou uma romântica incurável que sempre quer ver as personagens ficando juntas... Mas o final é bem positivo e reflete o respeito que ambas sentem uma pela outra.

De modo geral eu gosto bastante deste filme, sim, ele tem seus defeitos, mas aprecio bastante seu valor histórico. Também curto muito o fato de ser um filme sobre esportes com personagens lésbicas e bissexuais, algo que desafiou tabus e que continua até hoje como sendo o único do gênero. O filme foi feito em 1982, mas os tabus resistem até hoje. Todo mundo sabe que o mundo dos esportes (assim como todas as esferas sociais) está cheio de lésbicas e até sabemos identificar quais são e quais os esportes com mais sapas (alguém falou em futebol feminino?), mas isso ainda não é sequer comentado pela mídia ou pelas próprias atletas. O que é visível é que ainda existe um preconceito muito grande no mundo esportivo (assim como em todas as esferas sociais... como eu me repito) mas existem sim exceções como estas atletas assumidas ou como o saltador medalha de ouro que se assumiu.

Agora às coisas que eu não gosto em Personal Best...
Acho que poderia ser bem mais curto, melhor editado e sem as várias cenas em câmera lenta (uma ou duas já está bom né?). Também acho que o roteiro poderia ser melhor, tem várias cenas que parecem não ter nenhuma conexão entre si ou simplesmente não adicionam nada à história. E eu tenho que comentar sobre a cena mais bizarra que já vi em um filme: quando Chris acha um namoradinho nadador lá pro final do filme, eles estão nus na cama e ele diz que vai no banheiro. Até aí tudo normal certo? Só que ela faz a maior manha e pede pra segurar o pênis dele enquanto ele faz xixi... Ele hesita mas acaba aceitando e a cena mostra os dois de costas... fiquei sem palavras quando vi pela primeira vez de tão bizarro que eu achei... e mais uma vez é uma cena que não tem ligação nenhuma com o resto da história, ou talvez seja pra mostrar como a personagem está totalmente fora de si depois de terminar com a Tory... vamos rezar pra que seja isso e não alguma intenção freudiana do diretor...

Tem a parte que eu achei inverossímel que é o tanto de drogas que os atletas usam... não tinha exame anti-doping naquela época? Ou será que maconha não aparecia nos testes?

E por último, tem gente que reclama que o filme tem muitas cenas gratuitas de nudez... já eu nunca vou reclamar de ver várias atletas nuas numa sauna... Precisar precisar é claro que o filme não precisa daquelas cenas... mas também fazer mal não faz né? E sempre tem tanta cena gratuita de nudez nos filmes pra héteros... vamos aproveitar o tantinho que é voltado pra gente...

O filme dirigido por Robert Towne, roteirista famoso que escreveu roteiros como Chinatown e Bonnie e Clyde. Ficou conhecido no Brasil como "Tudo pela Vitória: As Parceiras". Infelizmente não encontrei legendas em português até agora, mas achei que como era uma ocasião especial ele merecia um post mesmo assim... Se alguém tiver arquivo com a legenda deste filme por favor me passe para que eu possa disponibilizá-lo para nossas colegas sapinhas que não merecem perder de ver o filme só porque não sabem inglês.

23 Junho 2008

Esclarecimento.... novo trampo e chegada da namorada!

Queridas leitoras e leitores...
gostaria de deixar claro que não abandonei o blog. Muito pelo contrário, é um dos meus projetos a longo prazo e espero continuar escrevendo durante muito tempo ainda. Tendo dito isso, acho que agora devo explicações a vocês.

A razão pela falta de atualizações no Oráculo de Lesbos é que consegui um novo emprego e ainda estou me adaptando aos novos horários. Aconteceu meio de repente, do jeito que todas as coisas boas acontecem na vida da gente. O meu irmão conseguiu um emprego num lugar super legal e estava super empolgado, e de uma hora pra outra abriu outra vaga, eu me candidatei, e já comecei o treinamento.

O porém é que preciso cobrir as folgas dos outros, e por ser um serviço 24hs isso é meio complicado... Três dias da semana eu trabalho normalmente, das nove às cinco e vinte... mas nos outros três... Um horário é das dez da noite às quatro da manhã, outro é das quatro da manhã à uma da tarde, e o último é da uma da tarde às dez da noite.... meio puxado... e ainda estou me adaptando à essas mudanças... [fotinho do lugar onde estou trabalhando... tirada no sábado quando não tem ninguém...]


Mas já estou lá há algumas semanas, então estou pegando o ritmo. Só que quero adiantar que não postarei nada novo por mais umas três semanas no mínimo... e quem já lê o Oráculo há algum tempo deve imaginar porquê... a Ju, minha namorada, chega nesta quinta! Ela passou nove meses na Inglaterra, longe de mim... e agora está chegando! Finalmente! Então acho que vocês me dão este desconto né? Não sou de ferro, e depois de quase um ano de completo celibato eu mereço um tempinho com ela...

Só mais uma coisinha: por este emprego ter surgido eu acabei não indo à Conferência GLBT em Brasília, mas vou ver se consigo de uma das minhas amigas que foi algum tipo de relato pra vocês, já que havia prometido.

Mais uma vez queria deixar claro que o compromisso que eu tenho com o Oráculo é muito sério, e espero voltar a postar normalmente dentro de algumas semanas.

21 Maio 2008

"Better Than Chocolate": um filme sobre diversidades sexuais - Conferência GLBTT

Escolhi falar deste filme na verdade como um gancho para relatar minha experiência como delegada na Conferência Estadual GLBTT de Santa Catarina, mas vamos com calma, primeiro o filme.

Better Than Chocolate é um clássico do cinema lésbico, uma comédia romântica um pouco previsível [como todas as comédias românticas conseguem ser] mas também bastante divertido e com personagens bem variados e interessantes. A produção canadense de 1999 conta a história de Maggie (Karyn Dwyer), uma lésbica assumida mas que ainda esconde sua sexualidade da mãe e irmão. A farsa fica mais difícil de manter uma vez que a mãe se separa do marido e resolve ir morar na casa da filha, que na verdade nem casa tem, está dormindo no sofá da livraria lésbica onde trabalha.

Maggie acaba arranjando um apê temporário, de uma mulher que dá aulas de educação sexual e tem vibradores e dildos espalhados por todos os cômodos. Claro que isso acaba gerando várias situações cômicas, quando a mãe e o irmãos tropeçam pelos dildos na casa, ou abrem um armário com caixas etiquetadas "camisinhas" e "lubrificantes" e fingem que não vêem. Até achei meio engraçado da primeira vez que vi o filme, mas agora penso que é um pouco piada pronta demais.
De qualquer forma, a melhor cena relacionada a essa situação é quando a mãe dela encontra por acaso uma caixa cheia de vibradores e dildos escondidos embaixo da cama e resolve experimentar um deles... impagável.

O romance fica por conta da relação de Maggie e Kim (Christina Cox, a melhor atriz no filme na minha opinião e uma favorita das lésbicas), que fiéis aos estereótipo se mudam juntas ainda no primeiro encontro. A química entre elas é fenomenal, e as cenas de sexo [sim, cenaS de sexo, porque o filme tem várias, uma verdadeira exceção, e muito bem vinda] são das melhores do meu acervo. Inclusive mencionei a cena de sexo onde elas usam tinta e fazem um quadro com seus corpos em outro post como sendo um dos meus oito desejos antes de morrer: unir sexo e arte. Outra memorável acontece no banheiro da boate... vamos lá meninas, admitam... familar, certo?

Uma personagem interessante na história é a transgênero Judy [eu utilizo o termo transgêreno aqui, em vez de travesti ou transsexual, porque é como ela se declara] que é apaixonada pela dona da livraria, a butch Francis. Esse relacionamento é um que eu gostaria de ver mais explorado, porque realmente é uma coisa que não vemos muito no cinema queer. Já vi bastantes documentários a respeito, mas filmes poquíssimos.
Judy assume a identidade de gênero feminina e, enquanto mulher, se ve atraída por outra mulher, uma lésbica: exatamente o tipo de situação que nos leva a refletir e desconstruir conceitos culturalmente enraizados, nos leva a separar identidade de gênero de sexualidade. O problema dentro do filme é que isso é feito de maneira um pouco didática demais pro meu gosto, quase que catequizando o espectador através de melodrama. Mas sendo este um assunto ainda tão delicado, talvez um pouco de didática demais não seja assim de todo mal. Destaque pra cena onde ela canta na boate a música "I'm not a fucking drag queen", uma das melhores do filme.

Um ponto forte de Better Than Chocholate pra mim é que consegue abranger várias expressões de sexualidade e identidade. Além dos pontos já citados, ele não deixa de lado nem a bissexualidade e tampouco a heterossexualidade. É claro que o foco principal é a relação homossexual entre Maggie e Kim, mas diferentemente de outros filmes com a mesma proposta ele não se limita a isso. Outra funcionária na livraria, Carla, é bi e acaba se envolvendo com o irmão de Maggie, Paul, que é heterossexual, e a cena de sexo entre eles é bem interessante também.

Há ainda um sub-enredo sobre liberade de expressão, censura, obscenidade e arte, que se inicia quando os livros com temática lésbica são detidos na alfândega e confiscados por serem taxados como obscenos, uma história livremente baseada em fatos reais. Os protestos e recursos são até interessantes de acompanhar, mas esta parte da história também peca por ser didática em excesso.

Resumindo, o filme tem alguns probleminhas mas no fim das contas é um ótimo programa pra assistir com as amigas, namorada ou amigos e amigas hétero. As legendas em português estão disponíveis no opensubtitles e o filme é bem tranquilo de achar pela internet, por ser um favorito das lésbicas.


Conferência GLBTT de SC

Agora às notícias mais pessoais.... Semana passada participei como delegada na Conferência Estadual GLBTT daqui de Santa Catarina e foi um dos programas mais divertidos e interessantes dos últimos tempos pra mim [na foto embaixo sou eu e minhas amigas também representantes sapas de SC, eu sou a segunda da esq. pra dir.]. Aprendi muita coisa sobre sexualidade e identidade de gênero e isso me levou a refletir um pouco sobre como quando a gente se resolve às vezes dá o assunto por encerrado. Sim, sou lésbica e muito bem resolvida com isso, mas há todo um escopo de expressões de sexualidade por aí, e somando-se à isso identidade de gênero... muito o que pensar...

Aprendi bastante sobre políticas públicas e sobre como pela primeira vez na história um governo teve a iniciativa de convocar uma conferência GLBTT, para junto com a comunidade decidir essas políticas que entrarão em vigor nos próximos anos. Sem dúvida é um passo histórico e estou bastante otimista em relação a ele, acho difícil que todos os objetivos estabelecidos pela Conferência sejam alcançados na sua totalidade, mas acredito que daremos avanços importantes.

É claro que me diverti horrores também, porque ninguém é de ferro, e conheci muita gente interessante. Como descrever a experiência de ficar tomando cerveja e tocando violão até altas horas no meio de gays, lésbicas, bis, transsexuais, travestir e héteros? Coisa única. Quem sabe essa relação com a diversidade seja algo um pouco mais comum. E quando digo isso não falo só do mundo heterossexual não, eu vejo que nós lésbicas por exemplo também temos a tendência de ficarmos segregadas, só entre nós.

Talvez seja esse isolamento que nos leve a não sermos tão ativas na militância pelos direitos LGBT. Na reunião para escolher quem representaria SC na Conferência em Brasília [eu fui uma das contempladas!] ouvimos vários relatos de pessoas que foram à conferências em outros estados e disseram que a representatividade lésbica é pouquíssima. Meninas, precisamos participar mais da esfera política e militante, precisamos lutar pelos nossos direitos também. Afinal, todas nós sofremos com preconceito e por não ter os mesmos direitos. A discussão desses assuntos na nossa comunidade lésbica é muito grande, estamos sempre conversando e debatendo sobre igualdade e aceitação, então esta é a nossa chance de realmente fazer alguma diferença em relação a isso tudo.

Até então eu nunca tinha participado de nada do gênero, e preciso dizer que a experiência foi ótima. Então fica aí o meu recado meninas, vamos tentar participar mais ativamente desses encontros, vamos ver se aumentamos o número de lésbicas na militância. E podem deixar que eu escrevo como foi a Conferência em Brasília aqui no blog também.

10 Maio 2008

"This Film Is Not Yet Rated": a "censura" do sistema de classificação de filmes

Um documentário pra variar um pouco. Este trabalho entra no intrincado sistema de classificação de filmes norte-americano, aquela complicada distinção entre os filmes classificados como:
G (General Audiences, para todo o público);
PG (Parental Guidance, sugere orientação dos pais);
PG-13 (Parental Caution, alguns materiais podem ser inapropriados para crianças menores de 13 anos);
R (Restricted, nenhuma criança de abaixo de 18 pode ir sem estar acompanhada de um pai);
NC-17 (No Children 17 or under, menores de 18 não podem ir, ponto).

O que isto tudo tem a ver com lésbicas eu já ouço minhas leitoras se perguntando... Simples, o sucesso comercial do filme e o tipo de distribuição que ele terá está muito ligado à como ele é classificado, e os filmes com temática homossexual sofrem discriminação por serem quase sempre taxados como NC-17, limitando em muito o público permitido nas salas de cinema e na maneira de promover o filme.

Pode parecer meio burocrático demais para ser um assunto interessante, mas o diretor Kirby Dick consegue mostrar tudo isso bem melhor do que eu. Ou seja, de uma maneira bem divertida e fácil de acompanhar, começando já pela animação inicial que explica o que é cada classificação.

Uma das primeiras entrevistadas é Kimberly Peirce, a diretora de Boys Don't Cry, que relata como foi a experiência de ter seu filme classificado como NC-17 e como um dos motivos para isso foi o orgasmo de Lana, a personagem de Chloë Sevigny, que os classificadores acharam que foi "muito longo".

Como feminista assumida preciso dizer que logo de cara já adorei o documentário só pela resposta de Peierce: ela fala que no orgasmo de Lana a câmera está focada somente no rosto dela, toda a experiência do sexo é retratada a partir do prazer dela ao receber sexo oral de Brandon, o personagem de Hilary Swank, e que isto visto do ponto de vista de uma indústria predominantemente masculina e predominantemente voltada à um público masculino é muito inquietante. A cena retrata somente o prazer feminino, que é em si só visto como ameaçador. Para Peirce, tudo o que é considerado ameaçador, ou não-familiar, acaba classificado como NC-17.

Há também uma discussão sobre o fato de violência ser muito mais tolerada pelos classificadores do que sexualidade. Isso fica claro em Boys Don't Cry: nenhum comentário foi feito sobre o fato de Brandon levar um tiro na cabeça, que é uma cena bem explícita e violenta, mas duas ressalvas foram feitas sobre a cena do orgasmo de Lana.

Basicamente é um sistema moralisma e puritano. Em teoria o sistema de classificação foi criado para "proteger as crianças", para orientar os pais sobre o que os seus filhos estão assistindo nos cinemas. Então um grupo de pais anônimos se reúne na Califórnia todos os dias para classificar quais filmes são nocivos ou não para as mentes das crianças e adolescentes do país. Não há um método claro, ou um conjunto de regras que ditem o que diferencia uma classificação da outra, isso fica inteiramente a critérios desses pais anônimos, que arbitrariamente decidem quais filmes são próprios em um processo altamente sigiloso.

É nesta falta de critério claro que os filmes com conteúdo homossexual são geralmente discriminados. O documentário compara vários filmes classificados como NC-17 que tinham cenas com conteúdo gay e outros com o mesmo conteúdo hétero, mas que receberam a classificação R ou até PG-13. Jamie Babbit, diretora de But I'm a Cheerleader, fala de como seu filme quase foi classificado como NC-17 por ter uma cena de uma garota se masturbando, completamente vestida, por cima da calcinha, vista de longe, e lembra que na mesma época American Pie estava sendo lançado e continha várias cenas bem mais explícitas de sexo e masturbação, vide a cena com a torta mostrada até no trailler, e foi classificado como R. Eis alguns outros exemplos deste tipo de diferença entre a classificação de filmes gays e héteros:










No entanto não só os filmes com temática homossexual são discriminados, a maioria dos filmes independentes acaba também sofrendo com essa classifcação arbitrária, já que é um sistema que favorece os grandes estúdios. E isso é um ponto bastante tratado no documentário, sobre como de início surgiu o Production Code nos Estados Unidos (uma lista de regras sobre o que se podia ou não fazer ou falar nos filmes que regeu as produções até meados dos anos 50) e depois o Sistema de Classificação o substituiu, mas com o mesmo intuito de proteger os grandes estúdios e assegurar o público de que o cinema americano continuava tão "limpo" quanto antes.

O contexto histórico e político dessas épocas foi muito importante, e o documentário considera este fator. De novo a pergunta: o que isto tudo tem a ver com lésbicas e gays? A maioria absoluta dos filmes que apresentam homossexualidade [de maneira positiva] vêm de produtoras independentes, que sofrem tremendamente com este monopólio institucionalizado dos grandes estúdios (controlador de cerca de 90 a 95% de toda produção de mídia nos Estados Unidos).

Na sua maior parte é um documentário bem envolvente e eu como fã incondicional de documentários gostei bastante, ainda mais pelo grande número de entrevistados do cinema queer e alternativo.
Só uma coisa não me agradou muito: o diretor Kirby Dick (esse aí embaixo) contratou uma dupla de sapas como investigadoras particulares para tentarem juntos descobrir a identidade secreta das pessoas responsáveis pela classificação dos filmes e essas partes do documentário acabam atrasando um pouco o andamento do filme. É uma meta-história na verdade, onde ele retrata o processo de classificação do próprio documentário, como recebeu um NC-17 e tentou inutilmente apelar junto à Comissão de Classificadores. Realmente não gostei muito desses trechos do filme, mas as outras partes compensam e no geral ele é bem informativo.


O documentário é bem atual (2006 ainda é considerado atual?) e fácil de ser achado pela internet. As legendas estão disponíveis no opensubtitles.

01 Maio 2008

"If These Walls Could Talk 2": 3 relacionamentos lésbicos em 3 épocas diferentes

Eu mencionei este filme no meu último post em relação à minha vontade de um dia engravidar, mas a história, ou melhor, as histórias são sobre muito mais do que isso. O filme se divide em três partes, cada uma numa década, todas sobre relacionamentos lésbicos, e todas se passando na mesma casa em um subúrbio anônimo.

A primeira parte é a mais lenta e depressiva. Se passa em 1961, quando Edith (Vanessa Redgrave) perde sua companheira Abby e tem que, além de lidar com a morte do amor de sua vida, aguentar as injustiças de viver numa sociedade que não reconhece seus direitos. Pra começar ela não pôde nem acompanhar Abby nos seus últimos momentos no hospital, porque, é claro, não era parente próxima.

Pra piorar, a casa que as duas ajudaram a pagar estava no nome de Abby, o que quer dizer que ficará de herança pro sobrinho banana que nem a conhecia direito, ao invés de para Edith, que durante anos considerou a casa como seu lar. Ela nem tem tempo de chorar pela mulher dela, precisa arrumar o lugar pra parecer o mais hétero possível, como se elas fossem só amigas... E é obrigada a ver a mulher do cara passeando pela casa com olhar de águia avaliando e já empacotando os móveis e objetos que quer levar.

É simbólico da intolerância desse período histórico, que logo no começo do filme Abby e Edith assistiam ao filme The Children's Hour no cinema, um dos únicos filmes a tratar do tema da homossexualidade nos anos 60, mas que em compensação termina com a protagonista interpretada por Shirley MacLaine se matando por não conseguir viver com esse sentimento. A sensação que fica desta primeira parte de If These Walls Could Talk 2 é de completa impotência face à uma sociedade intolerante e injusta.

A segunda parte é bem mais dinâmica, se passa em 1972, e agora quem habita a casa de Abby e Edith é um grupo de amigas feministas lésbicas que estudam na mesma universidade. Esta parte do filme retrata uma época de um feminismo um tanto quanto radical, por um lado temos o grupo de feministas da universidade, que quer expulsar as lésbicas por achar que a inclusão destas no grupo prejudica seus objetivos maiores de luta pelos direitos das mullheres como um todo.

Por outro lado, quando Linda (Michelle Williams) se apaixona pela butch Amy (Chloë Sevigny), ela tem que enfrentar um forte julgamento e preconceito das amigas feministas, que não compreendem porquê alguém ainda sente necessidade de vestir roupas masculinas para se identificar como lésbica. Temos que lembrar que foi nessa fase que as feministas mais radicais eram contra até a idéia de prazer por penetração, e diziam que qualquer uso de "brinquedos" para esse fim era um resquício da mentalidade patriarcal dominante. Já vi alguns documentários falando deste período controverso e de toda essa discussão interna entre as ativistas.

Enfim, assunto complicado eu sei, mas o filme ilustra bem até que ponto o radicalismo dessa época foi injusto. As amigas de Linda encaram as butches do bar lésbico local como figuras dinossáuricas, resquícios de uma época patriarcal em declínio, onde a mulher lésbica teria que necessariamente se identificar como homem para fazer sentido de sua sexualidade.

Elas implicam com as roupas de Amy, fazem-na tirar sua gravata, e a incomodam até que ela concorda em vestir uma blusa mais feminina. Um comportamento intolerante que não combina com o discurso liberal, e é notado apenas por Linda, que aos poucos supera o próprio preconceito e aceita o fato de estar atraída por Amy, do jeito que ela é. If These Walls Could Talk 2 merece o mesmo mérito de Bound, por apresentar a identidade butch de forma sensual, como é o caso de Amy no filme. No entanto, ao mesmo tempo que faz isso com a Chloë Sevigny, todas as outras butches do bar são horrendas, puros clichês ambulantes, mas pelo menos a personagem dela consegue fugir desse estereótipo e é ela que tem o papel mais importante nesta parte da história.

Um detalhe interessante é que uma das amigas de Linda, Jeanne, é interpretada por Natasha Lyonne, que também interpretou a protagonista de But I'm a Cheerleader. Neste último as duas também representavam amigas, só que Michelle Williams fazia a hétero que ajuda a família de Lyonne a mandá-la para o acampamento anti-gay.




A terceira parte se passa no ano 2000, com o casal Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) e sua tentativa de engravidar. Enquanto que as duas primeiras partes lidam mais com influência e preconceito externos nos respectivos relacionamentos, esta última parte lida mais com as questões íntimas do casal. A história gira apenas em torno das duas e das dificuldades de se ter um filho em uma relação lésbica.

Por ter essa característica mais intimista, a história é bem tranquila, com algumas cenas cômicas, e sem muito drama. Temos a oportunidade de ver vários momentos do casal como o ritual de ir ver as crianças brincando no parque e sonhar com o filho delas.

Na verdade eu sempre torço um pouco o nariz para enredos sobre gravidez e lésbicas, porque é muito fácil cair em clichês e realmente não tenho paciência pra ver mais uma batalha judicial ou mais uma briga por esperma ou algo nessa linha. Não vou entrar muito nisso aqui, acho que vou falar mais desses problemas quando comentar Chutney Popcorn, que realmente foge desses estereótipos, mas vale dizer que If These Walls Could Talk 2 lida bem com a temática e até que evita os clichês mais comuns desses enredos.

Sim, elas procuram esperma. Mas isso é tratado com bom-humor e os diálogos retratam bem a frustração de não poder fazer um filho apenas do amor de duas pessoas. E ao invés de cair na armadilha de dessexualizar mães lésbicas [muito comum e frustrante], o filme mostra de maneira super saudável a vida sexual delas e como é afetada por essa empreitada.

Aliás, esse é um ponto forte do filme como um todo, tem várias cenas de sexo bem feitas. Tudo bem, eu admito que sou suspeita pra falar, já que eu adoro a Michelle Williams, a Chloë Sevigny, e AMO a Ellen DeGeneres... mas mesmo que não fosse fã delas eu ainda consideraria o filme muito bom.

If These Walls Could Talk 2, Desejo Proibido como foi chamado no Brasil, foi produzido pra HBO em 2000 e eu tive a sorte de comprar o DVD numa promoção do Submarino por R$9,90... ok, podem morrer de inveja.... Mas é fácil achar ele pela internet, e as legendas podem ser encontradas no opensubtitles.com

22 Abril 2008

8 desejos antes de morrer...

Este post será um um pouco diferente do usual... Recebi a tarefa de um dos meus blogs favoritos, Na Ponta dos Dedos, de fazer uma lista com oito desejos que eu gostaria de realizar antes de morrer. E levando em conta que o Oráculo de Lesbos tem como proposta falar de filmes e seriados lésbicos resolvi responder essa pergunta tendo esses trabalhos como inspiração. Então aí vai minha lista de oito desejos:

1- Saving Face
Gostaria de beijar minha namorada, mas beijar mesmo, nao ficar só pertinho ou de mão dada, no meio de uma festa com familiares. E se as pessoas ficassem chocadas e começassem a sair, nós olharíamos uma pra outra e diríamos "Fuck them!", como fizeram Vivian e Will.
Sim, já estou chegando perto disso, em festas mais íntimas já vamos como casal, super comportadas diga-se de passagem, mas em festas com familiares mais distantes já recebo logo de cara mil recomendações dos meus pais de como não deveria me expor e blá blá blá...



2-Better Than Chocolate
Unir sexo e arte.
Uma das cenas mais clássicas deste clássico dos anos 90 é a cena de sexo onde elas fazem uma pintura usando os corpos nus e tinta. Preciso dizer mais alguma coisa?







3- High Art
Tirar o retrato perfeito do momento perfeito com a minha namorada, algo que realmente capture a nossa intimidade.
Só que no meu desejo eu quero isso sem a parte das drogas é claro... e o nosso retrato nem precisa parar na capa de uma revista importante, só a parede está mais que bom...





4-Itty Bitty Titty Committee
Fazer um protesto público contra o mundo machista e seus símbolos patriarcais. Meu lado feminista vibra muito com esse filme e com essa idéia...








5-South of Nowhere
Esperar minha namorada usando apenas um sobretudo...
Pra ser sincera acho que vou realizar esso logo logo... que ela está na Inglaterra há mais de sete meses e volta agora em junho.... [estou contando os dias já... porque o tempo demora tanto mais pra passar quando a gente espera alguma coisa com vontade? hmf]







6-The Truth About Jane
Ajudar alguém a se assumir, como a professora de Jane, Mrs. Walcott, faz.
Tudo bem, eu confesso, já realizei esse. Já ajudei duas meninas a se assumirem, mas o desejo ainda é válido, porque quero fazer isso muito mais vezes antes de morrer. A sensação de ajudar alguém nesse momento tão delicado da nossa vida é muito boa, e me sinto muito feliz por já ter feito uma diferença positiva na vida delas.






7- If These Walls Could Talk 2
Ficar grávida.
Ainda falta muito, mas muito tempo mesmo, pra realizar esse, ainda bem que não corremos risco de engravidar por acidente, porque definitivamente não estou pronta pra isso... mas quero sim ser mãe algum dia, de preferência do jeito gostoso que a Ellen Degeneres e a Sharon Stone fizeram, ao som de Dido... hihihi
Tem outro filme ótimo sobre isso que se chama Chutney Popcorn, que também espero comentar no blog logo.





8-The Laramie Project
A última coisa tem a ver mais com após a minha morte que com antes. Quando morrer, gostaria de ter vivido uma vida que tenha afetado positivamente as pessoas ao meu redor e, se eu não tiver alcançado isso, que pelo menos minha morte sirva para trazer algum bem a esse mundo.
Claro que não precisa ser trágica nem nada, não precisa ser exatamente igual à do Matthew, não é isso que estou dizendo... só quero deixar um legado positivo, de uma maneira ou outra.



Agora teoricamente tenho que passar a tarefa a mais outros oito blogs, mas como o Uva na Vulva e o Na Ponta dos Dedos já cobriram a maior parte dos meus favoritos, só consegui pensar em mais cinco... nessa horas sempre me falha a memória... mas quem me conhece melhor sabe que minha memória é bem ruinzinha mesmo... hahahahaha Fica aí então a tarefa pros blogs seguintes:

Gay e Ok
Sapacity
Alice's Adventures on Lesboland
ByDeh
Escreva Lola Escreva [não é lésbico, mas é ótimo, e super gay-friendly]

13 Abril 2008

"Desert Hearts": clássico lésbico dos anos 80

Este é um dos clássicos da década de 80, por alguns considerado como o primeiro filme dedicado inteiramente à uma história de amor entre duas mulheres. Foi feito com baixo orçamento, mas conseguiu vários prêmios nos festivais de cinema independente, inclusive o prêmio do júri em Sundance.

A história se passa em Reno, Nevada, uma cidade de apostadores no deserto americano, no final dos anos 50, onde Vivian Bell (Helen Shaver) vai esperar pelo fim do processo de divórcio dela. A professora de 35 anos se hospeda em uma fazenda nos arredores da cidade, onde acaba conhecendo Cay (Patricia Charbonneau), a enteada da dona do lugar. Cay é dez anos mais nova e assumidamente lésbica, apesar dessa palavra não ser usada nenhuma vez durante o filme.

Acho interessante justamente essa atitude de Cay em relação à sua sexualidade, ainda mais para uma mulher vivendo nos anos 50. Ela é muito segura de si. Ela faz sexo casual com outras mulheres e não tem vergonha nenhuma disso, até brinca a respeito. Quando Vivian vai à sua cabana e encontra uma mulher semi-nua na cama dela, Cay age como se nem percebesse a situação inconveniente.

Essa atitude saudável de Cay em relação à prórpia sexualidade se reflete no relacionamento que ela tem com a melhor amiga, Silver. Ela sabe que Cay é lésbica, a apóia em todos os momentos e dá força à paixão dela por Vivian. E mesmo tendo esse conhecimento da sexualidade da amiga, Silver não se incomoda nem um pouco de fazer demonstrações de carinho, como um selinho, em público por Cay, ou de repartir um banho de espuma com a amiga em casa. Essas cenas são muito bem feitas e realmente mostram a amizade delas como sendo uma coisa verdadeira, sem malícia alguma.

Também no jogo de sedução que Cay faz com Vivian ela é sincera sobre suas intenções e sua sexualidade desde o começo, o que assusta a professora de início. Vivian começa o filme sob intenso estresse emocional por causa do divórcio, ela está com os nervos em frangalhos e isso fica evidente pela sua atuação. Mas aos poucos a amizade com Cay vai fazendo com que se solte, e quando as duas finalmente ficam juntas percebemos uma transformação na personagem que se reflete até na fisionomia dela, como pode ser percebido nas duas fotos abaixo, a primeira do começo do filme e a segunda quando as duas já estão juntas.

Acho que a diretora Donna Deitch lidou muito bem com o romance entre elas. O primeiro beijo é considerado um momento clássico do cinema lésbico, quando elas estão no carro e está chovendo. A cena de sexo achei particularmente bem feita, com um estilo diferente do que costumamos ver nesse tipo de cena. Foi feita com tomadas longas, sem trilha sonora nenhuma, só o som ambiente com vários momentos de silêncio e filmada durante o dia, ou seja, bem iluminada. O resultado é uma cena verdadeira e muito bonita.

A partir desse momento as duas compartilham uma nova intimidade que é muito bem retratada nas próximas cenas. São momentos bonitos entre duas amantes, que estão simplesmente aproveitando a companhia uma da outra, amando estar ali naquele momento. Acho que todas nós já tivemos essa sensação e adorei como o filme a apresenta.

Uma das únicas coisas que posso dizer que não gosto no filme é o ritmo lento da narrativa. A história demora a se desenrolar, os personagens são apresentados aos poucos, durante várias cenas, que, às vezes, me deixavam com a impressão de que poderiam ter sido melhor editadas. Mas daí fico com a sensação de que sou muito 'geração vídeo-game' [lembra que falei semana passada que sou fã de Matrix?], que quero a história apresentada de maneira muito dinâmica, com edição ousada, e que por isso não tenho paciência pra narrativas mais calmas. Gostaria da opinião de vocês a respeito: o que acham? Perdemos a sensibilidade para este tipo de história mais calma, ou o filme é mesmo demorado demais? Fora isso considero o filme muito bom, e acho legal conhecer os nossos clássicos, já que temos tão poucos.

Desert Hearts, ou Corações Desertos, como foi chamado no Brasil, é fácil de ser encontrado na internet e as legendas achei no AllSubs.

06 Abril 2008

"Bound": gângsters e lésbicas, o que mais eu poderia pedir?

Pra mudar radicalmente do último post, que foi sobre um assunto importante e sério, escolhi Bound que não se propõe a nada mais que entreter o espectador. Não leva à nenhuma reflexão nem ajuda no processo de se assumir, para si mesmo ou para os pais. O filme é, simplesmente, divertido. Este é o tipo de filme que recomendo pra quem já lidou com esses temas e quer alguma coisa que inclua uma trama lésbica pra assistir com a namorada ou com as amigas.

Mas aqui claro podemos entrar na questão da representação e como essa visibilidade em filmes que não tenham como temática específica a homossexualidade, mas que tenham na trama personagens lésbicas, ajudam sim no processo de aceitação. É o que eu sempre digo sobre se ver representada nos filmes, seriados, etc. sobre como homossexuais quase nunca têm sua história contada, e isso equivale dizer que nossa história é uma que na verdade não merece ser lembrada. É uma afirmação da nossa não-existência. Tentem fazer a conta de quantos filmes, novelas, seriados e outras coisas já viram, e quantos desses tinham personagens lésbicas: esse resultado é o flagrante da nossa não-representação. Por isso filmes como Bound são importantes: ele não é exclusivamente voltado para o público gay e lésbico, nem tem como objetivo apresentar essa temática, mas consegue mesmo assim apresentar duas personagens lésbicas interessantes no meio de uma trama sobre mafiosos e dinheiro.

Eu por exemplo sou super fã da série O Poderoso Chefão, adoro filmes de mafiosos, sobre grandes roubos, com tramas complexas de traição e lealdade, e já devo ter visto dezenas do gênero, isso tudo mais lésbicas seria um sonho certo? Por consequência, Bound foi um presente dos céus. Primeiro de tudo porque foi dirigido pelos irmãos Wachowsky [o primeiro filme dirigido por eles], os mesmos diretores de Matrix, outra série que por sinal adoro [tenho o box de dvds e já devo ter memorizado todas as falas de tantas vezes que vi]. A direção deles é ótima, com uma boa atmosfera de suspense, tomadas de ângulos inusitados e a câmera sempre em movimento.

O filme em si gira em torno de dois milhões de dólares, que foram recuperados de um contador e que vão parar no apartamento de Caesar e Violet. Caesar, brilhantemente interpretado por Joe Pantoliano [que fez também Cypher em Matrix], trabalha para uma família de mafiosos, os donos do dinheiro. Violet (Jennifer Tilly), a namorada dele, acaba de envolvendo com a vizinha ex-presidiária Corky (Gina Gershon), e juntas elas tentam dar um golpe em Caesar e fugir com o dinheiro. Essa é a trama básica do filme, mas apesar dela se desenvolver muito bem com momentos de suspense e ação intercalados, eu pessoalmente acho que a melhor parte ainda é a relação e a química entre as duas.

Começa logo no primeiro momento em que elas se vêem, no elevador. A química entre elas é gritante. Já na segunda cena das duas, quando Violet leva café para a vizinha Corky, e elas se apresentam uma à outra, a linguagem corporal de ambas é clara. Há toda uma dança entre elas, um jogo de sedução muito bem dirigido e interpretado, que é uma delícia de acompanhar. Isso culmina eventualmente na minha cena erótica favorita de todos os tempos, quando Violet fala para Corky explicitamente que está tentando seduzi-la. Não vou descrever em detalhes a cena, primeiro porque não quero estragar pra quem não viu, e segundo porque sou tímida hihihi, mas falo muito sério quando digo que é a cena que acho mais sensual de todos os filmes que já vi.

E olha que nem é a única cena de sexo entre elas. A outra cena por sinal é também muito boa. É uma daquelas raras cenas de sexo entre mulheres onde realmente parece que as duas sabem o que estão fazendo, que realmente se parece com sexo lésbico, o que sabemos é uma raridade no cinema. E existe uma razão para isso, os diretores contrataram uma consultora para a cena, para que parecesse mais verídica, e funcionou. A câmera faz um 360 na cama enquanto as duas fazem sexo, e tudo, desde a posição dos corpos delas, ao jeito como estão encaixados, até aos movimentos que fazem, parece real. Eu considero uma das melhores cenas de sexo entre mulheres [será que estou me repetindo?].

Também acho interessante a relação butch e femme entre elas. Corky é claramente a butch da relação, ela conserta encanamentos, veste macacão e até dirige uma camionete, enquanto que a femme Violet é toda delicada, tem unhas compridas e anda sempre de salto alto. Mas fora esses clichês, o filme não peca muito em estereótipos. A parceria das duas parece bem equilibrada, inclusive sexualmente, e elas se identificam muito uma com a outra.

Acho interessante essa representação positiva de lésbicas butches porque percebo que em muitos trabalhos com temática lésbica há um certo medo de se colocar personagens butch, como se isso fosse repelir um potencial espectador hétero ou estereotipar negativamente as lésbicas. Por isso vejo que a maiora dos filmes e seriados procura mostrar mais o lado femme da identidade lésbica, com a maior parte das sapinhas super femininas, como The L Word, South of Nowhere, Lost and Delirious, Imagine Me & You, DEBS, Nina's Heavenly Delights, e muitos outros. Daí adoro quando aparece uma personagem butch e ao mesmo tempo super sexy como Corky em algum filme, mostra ao mesmo tempo a coragem dos diretores e que é possível lidar com identidade butch de forma saudável, sem estigmatizar.

Bound: Sem Limites, como foi chamado no Brasil, foi filmado em 1996 e é bem fácil de ser encontrado na internet e quem sabe até em alguma locadora com um acervo legal. A legenda achei no opensubtitles, e se der algum problema de sincronização [como deu no arquivo que eu baixei], tem um programa de vídeo que tem uma opção bem fácil de usar, o Radlight. Quaisquer dúvidas que vocês tenham em relação a esse tipo de coisa é só deixar um recado com email que respondo sempre que puder, ok?

Agora numa nota mais pessoal, queria pedir desculpas por não ter feito um post na semana passada, mas as circunstâncias realmente foram extraordinárias. Eu defendi minha dissertação na sexta, dia 28, e realmente durante aquela semana não pude nem pensar em nada mais que não fosse a defesa. Fico feliz em dizer que foi tudo super bem, tirei 9,9, com distinção e louvor. Pra falar a verdade, ainda nem caiu a ficha que sou mestre. Pra melhorar, meu irmão se formou em psicologia na UFSC no mesmo dia, então juntamos as duas festas, do meu mestrado e da formatura dele, e passamos o final de semana inteiro em função disso... Na verdade, eu só fui parar de comemorar lá pela quarta feira. Então, como eu levo o blog bastante a sério, não quis fazer um post meia boca. Eu geralmente demoro um certo tempo escrevendo, revendo o filme, etc. daí deixei pra atualizar neste final de semana, e espero que não tenha mais atrasos daqui em diante. Esses aí são meu irmão, eu [com sorriso pós-defesa], e a noiva dele, que se formou na mesma turma.

22 Março 2008

"The Laramie Project": o extremo da homofobia

Hoje um tema mais sombrio que o normal... Esse documentário/filme é sobre a morte de Matthew Shepard, um gay do Wyoming que foi espancado até a morte em 1998 e que virou símbolo da luta contra a homofobia. Eu sei que a proposta é falar de filmes sobre e para lésbicas, mas acho que homofobia inclui todos/as nós. Resolvi falar dele por várias razões: porque recentemente um garoto de quinze anos foi assassinado nos EUA por um colega por ser abertamente gay; porque uma senadora americana falou um monte de barbaridades contra gays [veja o video do youtube] e se recusou a se desculpar simplesmente por não ver nada de errado em incitar ódio; e porque aqui no Brasil também temos nossa cota de senadores homofóbicos...

The Laramie Project é uma compilação de trechos de cerca de 200 entrevistas feitas com a população de Laramie após o assassinato de Matthew para a produção de uma peça sobre o assunto, escrita e dirigida por Moisés Kaufman. Por isso falei que é um documentário/filme, porque é baseado em fatos reais, em estilo de documentário, com narrador e entrevistas, contém cenas reais, mas é na maioria re-encenado.Os diálogos são baseados nas transcrições originais, feitas em áudio, e são encenados por vários atores conhecidos como Peter Fonda, Camrym Manheim, Clea DuVall (a mesma do But I'm a Cheerleader), Christina Ricci, Joshua Jackson, Mark Webber e outros.

Aos poucos o espectador é apresentado às dezenas de personagens, que representam a população da cidade. A cada entrevista conhecemos um pouco mais da vida ou da morte de Matthew. As experiências e reações deles são diferentes umas das outras, muitas vezes contraditórias, enquanto uns dizem que a cidade não odeia homossexuais, outros dizem que há sim um sentimento tácito de repulsa e exclusão, enquanto uns são mais próximos da vida de Matthew, outros foram mais próximos de sua morte.

O filme começa introduzindo aos poucos os personagens e como reagiram ao assassinato, depois passa para os detalhes da morte de Matthew, contados pelas testemunhas do caso e pela delegada da cidade. A parte seguinte relata o julgamento dos dois assassinos, garotos da mesma idade da vítima, que cresceram e viveram em Laramie a vida toda. Os detalhes do crime são chocantes. Matthew foi amarrado à uma cerca e espancado até ficar inconsciente. Enquanto o julgamento ocorria, o circo da mídia aumentava com a expectativa do estado de saúde cada vez pior de Matthew, que estava em coma naqueles dias.

Uma boa parte do filme é dedicada a escancarar a homofobia latente da população e discutir porquê isso é tão presente e tão forte pra eles. Na época, a polêmica ajudou a divulgar um projeto de lei contra crimes de ódio, que acabou parando em algum instância, do mesmo jeito que aqui temos um projeto parecido encalhado. Também inflamou os grupos de direitos dos homossexuais a protestarem por direitos iguais. Enfim, foi um caso que comoveu a nação e marcou a luta por igualdade do movimento LGBT.

Um momento emocionante do filme é quando um bando de fanáticos religiosos vai protestar contra gays nos funeral de Matthew. Quando a melhor amiga dele fica sabendo que eles também vão protestar no julgamento dos acusados, prepara uma revidação pacífica. É uma das cenas em que eu sempre choro...A sensação que fica do filme é de incredulidade. Como seres humanos conseguem ir tão longe no seu ódio? E você fica se perguntando porque aquele ódio existe em primeiro lugar. Eu choro toda vez que assisto esse filme. Acho que eu choraria simplesmente pela violência do crime, mas o fato de Matthew ter morrido por ser gay é algo que mexe muito comigo, e imagino que também vá mexer com todas vocês.

The Laramie Project- A História de Matthew Sheppard, como ficou o título em português, é meio difícil de encontrar. Inicialmente eu vi numa transmissão da HBO, e depois nunca mais achei. E procurei muito, porque queria muito mostrar o filme pra minha namorada. Foi só graças aos deuses do eMule que eu finalmente encontrei de novo o filme, depois de anos procurando.
A legenda em português consegui no Allsubs.