28 fevereiro 2008

'The Truth About Jane': o mega drama de se assumir

Resolvi falar desse filme em particular primeiro pela sugestão da minha namorada de que eu comentasse mais sobre esse processo de se assumir para os pais [a gente não discute com a namorada certo?], e segundo porque é um filme bem pouco conhecido e que, apesar de meio dramalhão, acho que apresenta muito bem os problemas de se sair do armário. Na verdade este filme junta muita coisa, mostra a dificuldade de se assumir pra si mesmo, mostra como pode ser difícil o seu primeiro relacionamento lésbico, e o drama de contar para os pais e para o resto do mundo.


Como é daqueles filmes feitos para tv é meio dramalhão demais às vezes, mas no geral considero muito positivo na sua imagem de gays e lésbicas. Assisti esse filme pela primeira vez porque fiquei impressionada com o número de comentários sobre ele feito num fórum sobre que filme lésbico mais influenciou você, e depois entendi o porquê. Os diálogos do filme muitas vezes me lembravam conversas que tive com meus pais quando tinha recém me assumido, ou com meus amigos sobre o que é ser gay, e como as pessoas às vezes não entendem isso.


O filme conta a história de Jane [interpretada pela Ellen Muth, que algumas podem lembrar como a George do seriado Dead Like Me], uma adolescente de 16 anos que até então era a queridinha dos pais, tinha uma vida normal, com várias amigas e ia bem na escola. É narrado por ela mesma, que desde o início se dá conta que não se encaixa direito com as amigas da escola, e que se sente diferente. A primeira metade do filme é sobre o processo de descoberta de Jane, como ela se apaixona por Taylor, uma colega, e tem seu primeiro relacionamento com uma menina.


As coisas começam a desmoronar quando o irmão vê as duas se beijando e conta pra todo mundo da escola. Daé em diante começa a parte dramalhão do filme, que nem por isso deixa de ser boa. Ela tenta manter isso escondido dos pais por um tempo, deixando que eles achem que é tudo fofoca maldosa essa história dela beijando outra menina, mas isso não dura muito tempo. Eu realmente me identifico com ela neste aspecto, já que eu também tinha uma relação muito boa com meus pais, e não me sentia bem mentindo pra eles sobre um aspecto tão importante da minha vida. Eu aguentei alguns meses, ela aguentou alguns dias...

E é claro, quando os pais dela descobrem a verdade, da boca dela, o mundo simplesmente desaba. A primeira decisão deles é mandar a filha para uma psicóloga, que é clássica. Outros argumentos clássicos que eles usam é o de que não querem que a filha tenha uma vida mais sofrida, que o mundo é intolerante, que é uma decisão que pode afetar ela pro resto da vida. Nossa, chega a me dar déjà vu escrever isso... porque eu também ouvi exatamente as mesmas coisas...

Uma conversa legal acontece entre a mãe Janice, interpretada pela ótima Stockard Channing, e um dos melhores e mais antigos amigos dela, que é gay também. Ela fala como se preocupa com a filha, que não quer que ela sofra preconceito, não quer que ela tenha uma vida tão difícil como a dele, já que ela testemunhou como as pessoas são cruéis e como maltrataram ele. A resposta dele é genial: "Então sua única preocupação deve ser não se tornar uma dessas pessoas."

Ela não segue o conselho do amigo e torna a vida da filha um inferno. Daí acontece uma transição no comportamento de Jane, de menina comportada ela passa a ficar revoltada. O legal do filme é que fica claro que não tem nada a ver com o fato de ela ser lésbica, mas pela falta de comunicação com a família, por sentir intolerância dentro da própria casa. Mas ao mesmo tempo em que ela se sente alienada da própria família e sente raiva dos pais por causarem isso, ela também se sente mal por causar todo esse estresse a eles. Eu achei bem interessante esse retrato dos sentimentos conflitantes que passam pela gente nessa hora. Por um lado você ama seus pais e se sente culpada por causar tamanho estresse na família, por outro você se sente injustiçada por ser tão mal compreendida por seus próprios familiares.

Neste estado de alienação os pais fazem de tudo para não encarar a situação, quando a tentativa de convencer a filha não funciona, eles colocam a culpa em outro agente, no caso da Jane a culpa foi pra professora que também era sapa e que tinha dado apoio pra menina. Chega a ser engraçado o tipo de incoerência das atitudes dos pais nessas horas. Vê se tem cabimento achar que a menina é sapa porque admira a professora? No meu caso foram os amigos... Depois que eu passei a andar com aquele grupo.... pronto! virei sapa.

O bom do filme é justamente isso, que confronta todas essas idéias em relação a ser homossexual. Jane é confiante ao afirmar que é lésbica com ou sem a Taylor, que nasceu assim, e que é feliz em relação a isso. Também apresenta o fato de que intolerância dos pais com os filhos homossexuais é equivalente à homofobia. Tem uma cena muito interessante que mostra Jane e a mãe saindo da escola quando uns garotos passam e tiram sarro dela por ser lésbica, a mãe olha horrorizada praquilo e Jane fala com o tom mais cínico do mundo: "O que interessa pra você o que eles falam? Você é igual a eles."
Os pais falam tanto que não querem que o filho sofra preconceito, quando na verdade são os primeiros a demonstrar homofobia. Numa palestra eu ouvi uma vez uma verdade que eu nunca tinha refletido antes: que o homossexual é a única minoria que sofre preconceito dentro da própria casa. Infelizmente verdade...

Mas deixa eu terminar logo esse post, que já está imenso e provavelmente ninguém vai ler. Desculpem pessoal, me empolgo mesmo falando nesse assunto. Bom, o filme termina bem, sem tragédias nem nada. Os pais aos poucos aceitam a filha e percebem que mesmo ela sendo sapa, continua sendo a mesma pessoa. Claro que é um processo lento, e a mãe tem que fazer um grande esforço pra conseguir aceitar tudo isso. Uma ajuda que ela recebe é o grupo PFLAG, que dá apoio a pais e amigos de homossexuais. Uma pena que não tenha uma coisa assim no Brasil.


Mas o meu editorial [eu sei que todo esse post teve um tom editorial, mas...] é que é preciso paciência com os pais, às vezes eles demoram mesmo pra primeiro entender e depois aceitar. É um período complicado na vida de qualquer um, mas com o tempo as coisas se ajeitam. Uma coisa que eu percebi e que sempre digo é que a gente demora um tempão pra superar os próprios preconceitos e se assumir, se sentir à vontade com o que somos, ir contra a norma heterossoxual que a sociedade prega. Então não podemos esperar que nossos pais aceitem logo de cara uma coisa que nós mesmos demoramos a aceitar.
Eles precisam passar também por todo um processo de tristeza, rejeição, de medo de não conhecerem os próprios filhos, até que no fim chega a aceitação. É um pouco traumático? Com certeza. Às vezes mais pra uns que pra outros. Mas quando todo o drama passa, a vida fica bem melhor, porque você pode ser você mesmo, ser autêntico. Eu sinto que passei por boa parte do que a Jane passa no filme, e apesar de ter sido bem doloroso na época, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Hoje em dia meus pais adoram a Ju, minha namorada, e eu vivo minha vida muito mais tranquilamente, sem segredos, sem medo. Somos nós duas aí embaixo [Ju, esquerda, Rê, direita], em uma festa de formatura do meu primo, toda a família reunida e nós fomos como um casal.
The Truth About Jane pode ser baixado com um pouco de paciência, já que não tem muitas cópias por aí, mas é tranquilo. As legendas em português são um pouco mais difíceis de achar. Eu consegui pelo allsubs.org:
http://www.allsubs.org/subs-download/the-truth-about-jane-2000-1-cd-portuguese-br-pb/463258/

12 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Rê,

adorei que atendesse meu pedido: acho que lidar com esse assunto é realmente essencial em um sítio sobre visibilidade lésbica.

Preciso discordar em um ponto: em algumas famílias, infelizmente, a fase final do processo de sair do armário não é como você narrou. Nem sempre se segue um período de aceitação ou mesmo de denial (quando os pais fingem não saber, optam por ignorar o fato).

Acho então que o ideal é que cada uma avalie qual é o possível impacto. A gente freqüentemente se engana nessa avaliação: a gente pode achar que os pais jamais aceitarão e que vão te expulsar de casa ou algo assim e quando vai ver acontece tudo de maneira muuuito tranqüila e eles acabam de aceitando sim), ou mesmo achamos que nossos pais são super liberais e não terão o menor problema e na real passamos por uma barra. Mas aí você coloca na balança pra ver se vale arriscar ou se aguenta até virar gente grande e não ter que dar satisfação. Mas jamais subjuguem ou ignorem a dor de se reprimir. Realmente é um alívio muito grande não ter que manter segredos.

Beijo,
Ju.

Anônimo disse...

Cheguei até ao seu blog quase por acaso, a partir de um comment seu no After Ellen e deixe-me só dar os parabéns porque gostei muito do que encontrei por aqui.

Se valer de alguma coisa, por favor não desista do seu blog. Prossiga. Continue. Vejo que é jornalista. Repito, nesse caso: continue com o blog. Gostei realmente muito do que li por aqui.

Acredite, você me deu novidades, mencionou pistas que desconhecia. Me fez ir atrás de suas sugestões. E isso é muito bom, sim.

Fica um abraço de Portugal.

Ana

Anônimo disse...

Viu só?
Falei pra você continuar! ;)
Tô feliz por você.
Algo no final-de-semana de novo?
Beijo
Ma.

Anônimo disse...

Bom...esse é um filme das nossas sessões que ainda não vi...apesar de vc ter me incomodado na última vez que fui aí pra vê-lo e eu não tava com saco...quis ver "Aimée e Jaguar", que até já tinha visto a muito tempo...
Mas então fica aí minha sugestão ...fala sobre ele...
Só não deixa pra falar no final do filme como eu fiz, que era verídico! huahauhauhauhauhaua
Ta indo bem...vamos ver amanhã ende nossa conversa pra ir além!!
Bjo

Turtle

Anônimo disse...

Ops! Corrigindo o post acima...

vamos ver se amanhã rende nossa conversa com Manu, Gui, pra ir além!!
Turtle

Anônimo disse...

Já assisti ao filme, gostei muito. E adorei seu post sobre ele. Te acho inteligente pacas, parabéns pelo blog, virei sua fã. Abraços. Mônica

Anônimo disse...

chequei em seu blog tb por acaso...e gostei de seus posts...
vc escreve bem, e sabe colocar com discernimentos as questões abordadas, com maturidade.
muito bom, virei te ver mais se permitir
bjs de uma mineira

Renata disse...

Oba,
que bom que vocês estão gostando dos meus comentários!
E suas visitas serão sempre bem-vindas mineira!
Um abraço,

Camomila disse...

Oi!
Gostei à beça deste post. Obrigada por ajudar a esclarecer certas questões. Sou mãe e suas colocações me deixaram mais tranquila sobre como lidar com o assunto.

ana disse...

Olá! O Blog está muito bom.
Eu já vi este filme o ano passado e gostei muito... É um filme que retrata a realidade... O filme está muito bem feito... Gostei mesmo e boa continuação do blog...

Anônimo disse...

Fazem 7 meses que meus pais descobriram que eu sou lesbica. Acredite, eu daria tudo para que as coisas fossem como no filme, porque a realidade é bem pior. Eu não tenho mais amigos porque não posso sair de casa, usar o telefone, computador ou assistir TV e muito menos ler meus livros que são considerados pecados, sem contar as agressões fisicas frequentes. Já até sei o que voces estão pensando: 'nossa, a familia dela deve ser pobre, desprovida de informaçao e mergulhada na ignorancia'. O cenário é bem diferente, meu pai é juiz e minha mãe tem umas 3 faculdades (inclusive pedagogia). Incrivel não é? Depois de 7 meses eu percebi o quanto meus pais são hipocritas e o quanto o meu sonho (igual ao de toda lesbica) de ter um loft bem decorado, uma namorada incrivel que saiba usar as mãos como ninguem e o emprego dos sonhos (em um escritorio de advocacia ou um jornal importante) é cada vez mais impossível.
Há 7 meses atras eu tinha a namorada dos sonhos, as melhores notas da sala, um blog com 3 mil acessos por dia e a entrada praticamente garantida na USP. Agora eu não passo de lixo humano que não consegue nem cortar os pulsos direito.
Eu sei, é muito dramatico e parece que eu quero chamar a atenção, eu tinha que postar aqui para desabafar.
Enfim, Renata, voce não faz ideia da admiração que tenho por voce. Eu acho seu blog incrível. Sério, parabens.

Laira, 17 anos - SP, São Paulo

Renata disse...

Oi Laira,
Acredite, você não é a primeira pessoa a compartilhar esse tipo de história. Ajuda bastante conversar sobre o assunto, se quiser estou à disposição. Me segue no twitter (@renatalie) e vamos conversando ;)
Sei que tudo parece ruim agora, mas acredite: como tudo mais na vida, isso também passa. Sei que é difícil dizer isso, mas é preciso paciência.
Paciência e amigos, mesmo que virtuais.
Um abraço,
Renata.