22 março 2008

"The Laramie Project": o extremo da homofobia

Hoje um tema mais sombrio que o normal... Esse documentário/filme é sobre a morte de Matthew Shepard, um gay do Wyoming que foi espancado até a morte em 1998 e que virou símbolo da luta contra a homofobia. Eu sei que a proposta é falar de filmes sobre e para lésbicas, mas acho que homofobia inclui todos/as nós. Resolvi falar dele por várias razões: porque recentemente um garoto de quinze anos foi assassinado nos EUA por um colega por ser abertamente gay; porque uma senadora americana falou um monte de barbaridades contra gays [veja o video do youtube] e se recusou a se desculpar simplesmente por não ver nada de errado em incitar ódio; e porque aqui no Brasil também temos nossa cota de senadores homofóbicos...

The Laramie Project é uma compilação de trechos de cerca de 200 entrevistas feitas com a população de Laramie após o assassinato de Matthew para a produção de uma peça sobre o assunto, escrita e dirigida por Moisés Kaufman. Por isso falei que é um documentário/filme, porque é baseado em fatos reais, em estilo de documentário, com narrador e entrevistas, contém cenas reais, mas é na maioria re-encenado.Os diálogos são baseados nas transcrições originais, feitas em áudio, e são encenados por vários atores conhecidos como Peter Fonda, Camrym Manheim, Clea DuVall (a mesma do But I'm a Cheerleader), Christina Ricci, Joshua Jackson, Mark Webber e outros.

Aos poucos o espectador é apresentado às dezenas de personagens, que representam a população da cidade. A cada entrevista conhecemos um pouco mais da vida ou da morte de Matthew. As experiências e reações deles são diferentes umas das outras, muitas vezes contraditórias, enquanto uns dizem que a cidade não odeia homossexuais, outros dizem que há sim um sentimento tácito de repulsa e exclusão, enquanto uns são mais próximos da vida de Matthew, outros foram mais próximos de sua morte.

O filme começa introduzindo aos poucos os personagens e como reagiram ao assassinato, depois passa para os detalhes da morte de Matthew, contados pelas testemunhas do caso e pela delegada da cidade. A parte seguinte relata o julgamento dos dois assassinos, garotos da mesma idade da vítima, que cresceram e viveram em Laramie a vida toda. Os detalhes do crime são chocantes. Matthew foi amarrado à uma cerca e espancado até ficar inconsciente. Enquanto o julgamento ocorria, o circo da mídia aumentava com a expectativa do estado de saúde cada vez pior de Matthew, que estava em coma naqueles dias.

Uma boa parte do filme é dedicada a escancarar a homofobia latente da população e discutir porquê isso é tão presente e tão forte pra eles. Na época, a polêmica ajudou a divulgar um projeto de lei contra crimes de ódio, que acabou parando em algum instância, do mesmo jeito que aqui temos um projeto parecido encalhado. Também inflamou os grupos de direitos dos homossexuais a protestarem por direitos iguais. Enfim, foi um caso que comoveu a nação e marcou a luta por igualdade do movimento LGBT.

Um momento emocionante do filme é quando um bando de fanáticos religiosos vai protestar contra gays nos funeral de Matthew. Quando a melhor amiga dele fica sabendo que eles também vão protestar no julgamento dos acusados, prepara uma revidação pacífica. É uma das cenas em que eu sempre choro...A sensação que fica do filme é de incredulidade. Como seres humanos conseguem ir tão longe no seu ódio? E você fica se perguntando porque aquele ódio existe em primeiro lugar. Eu choro toda vez que assisto esse filme. Acho que eu choraria simplesmente pela violência do crime, mas o fato de Matthew ter morrido por ser gay é algo que mexe muito comigo, e imagino que também vá mexer com todas vocês.

The Laramie Project- A História de Matthew Sheppard, como ficou o título em português, é meio difícil de encontrar. Inicialmente eu vi numa transmissão da HBO, e depois nunca mais achei. E procurei muito, porque queria muito mostrar o filme pra minha namorada. Foi só graças aos deuses do eMule que eu finalmente encontrei de novo o filme, depois de anos procurando.
A legenda em português consegui no Allsubs.

14 março 2008

'Fun Home': o gênio de Alison Bechdel

Mudando de mídia pra variar. Esta semana vou falar de histórias em quadrinhos, mais particularmente da graphic novel [uma narrativa madura no formato de histórias em quadrinhos] de uma das minhas cartunistas favoritas: Alison Bechdel. Eu descobri o livro depois de ler duas matérias, uma na Folha e outra na Carta Capital, que falavam desse novo trabalho que é um sucesso nos Estados Unidos e em outros países. Quem me conhece sabe que vou atrás de qualquer coisa que envolva lésbicas e, é claro, não foi diferente com Fun Home: Uma Tragicomédia em Família, que foi o presente que me dei de natal [meu aniversário pra quem não sabe]. Comecei a ler com altas expectativas, e terminei maravihosamente surpreendida ao ver que não só as expectativas foram em muito superadas, mas em ter conhecido uma escritora e desenhista genial.

Passei a ser fã incondicional da Alison e o blog dela é um dos sites obrigatórios que eu listo ali do lado [www.dykestowatchoutfor.com]-- os nomeio desse jeito porque são os únicos que eu entro religiosamente todos os dias. Ela desenha a tirinha Dykes to Watch Out For há mais de vinte anos, que por sinal também é um trabalho genial. As histórias são muito bem escritas e muito bem desenhadas, e ela consegue incorporar a elas um grau de comentário e sátira política que torna a leitura muito mais interessante. E se eu uso o adjetivo genial pra descrever o trabalho dela, podem ter certeza que o faço muito conscientemente. Realmente considero Alison Bechdel um gênio. Eu queria dedicar um post inteiro só pra tirinha, mas ainda vou pensar sobre isso, já que ainda não tem tradução pro português.

Voltando a Fun Home... É uma graphic novel autobiográfica, sobre o relacionamento com o pai dela e sobre o processo de se assumir. É um pouco difícil explicar o enredo básico porque o livro não segue uma narrativa linear e lida com muitas questões ao mesmo tempo. Uma das questões centrais envolve a sexualidade dela e do pai: um pouco depois de contar para os pais que era lésbica, ela descobre pela mãe que o pai tinha casos com outros homens. Muito autoritário, emocionalmente distante e obececado por decoração, o pai sempre fora um mistério para ela e a morte repentina dele só adiciona a isso.

Alguns meses depois da carta em que Alison sai do armário para os pais, Bruce, o pai, morre atropelado, o que levanta para ela a suspeita de suicídio. Para ela, os dois fatos sempre estiveram ligados, a morte dele e a notícia da filha ser lésbica, e o livro é meio que uma terapia onde ela processa esses fatos, volta à infância, revisita o casamento dos pais e revela alguns segredos bem guardados, como o caso do pai com o baby-sitter e um julgamento por dar bebida alcoólica a um menor.


Pra quem não percebeu pelo autoretrato ali na seção 'Quem sou eu', eu tenho minhas ilusões de desenhista e uma das coisas que eu mais gosto na Alison Bechdel é o traço dela. Ela consegue dar movimento aos personagens de uma maneira muito natural, se preocupa com detalhes, e ao mesmo tempo permanece com o um desenho limpo e simples. Prestem atenção nos detalhes desta página ao lado. [Foi mal pelas imagens escaneadas, mas não consegui versão melhor e tava sem saco de ficar muito tempo arrumando no photoshop]

Notem como em cada quadro cada um dos persongens está no meio de alguma atividade. Apesar da cena ser estática, os personagens não necessariamente precisam ficar estáticos. O ponto de vista também muda nos três quadros, ajudando a dar movimento à cena. Mas notem os detalhes: o pai tirando o casaco e indo atender o telefone, a mãe cozinhando, abosorta ao mundo à sua volta, e o olhar de Alison, que vai de um ao outro. Uma cena super coloquial que consegue capturar a tensão entre os pais dela. Genial!

Esta página por acaso também menciona outro fator que, particularmente pra mim [que serei mestre em literatura inglesa em duas semanas, cruzando os dedos], é muito interessante no livro: as referências literárias. Ambos os pais dela são professores de inglês, e apaixonados por literatura, paixão que passaram para Alison. Durante toda a narrativa há um jogo entre realidade e ficção, entre a relação entre a vida e literatura, autores e personagens, ficção e biografia. Há ao longo do livro a dualidade entre os relatos escritos no diário dela e as várias referências a dicionários e enciclopédias, e no entanto a verdade das duas fontes é colocada em questão.

É também simbólico da importância da literatura na vida dela que ela tenha se descoberto como lésbica numa biblioteca, ao ler um livro de contos, primeiramente vivendo aquilo de forma teórica ou ficcional para depois tornar-se real. Eu geralmente não gosto dessas reflexões sobre realidade e ficção, isso é mais coisa da praia da minha namorada, mas nesse caso eu adorei, principalemte porque comigo aconteceu a mesma coisa: minha revelação veio no campo teórico primeiro.
O livro foi escolhido o melhor de 2006 pela revisa Time, não só a melhor graphic novel, mas o melhor livro em geral. Acho que dá pra notar pela minha babação ao longo do post que eu recomendo e muito o livro. Se tornou um dos meus favoritos e isso é dizer muito vindo de mim. É bem fácil de encontrar em qualquer livraria que tenha um seção de quadrinhos e custa entre R$35 e R$45 dependendo do lugar. E só pra dar mais um incentivo pras vocês sapinhas comprarem o livro, preciso dizer que as cenas de descoberta sexual dela são bem interessantes. Porque ninguém é de ferro também né? Aí vai uma palhinha:

07 março 2008

"But I'm a Cheerleader": o lado cômico de se assumir

Este filme é bem mais light que o último sobre o qual falei, The Truth About Jane, mas também lida com as questões de se assumir, só que de uma maneira cômica em vez de dramática. É a história de Megan (Natasha Lyonne), uma animadora de torcida bem típica americana que sofre uma intervenção dos amigos e família e vai parar num acampamento daqueles que teoricamente convertem gays em ex-gays--claro que enfatizo o 'teoricamente' porque realmente não acho que essas coisas funcionem. No acampamento ela conhece Graham(Clea Duval), por quem se apaixona.

É uma comédia romântica sobre adolescentes, que não tem a pretensão de ensinar ou pregar nada, simplesmente faz o que se propõe: divertir o espectador. A parte cômica fica por conta do absurdo do acampamento, da terapia de conversão.

As meninas se vestem de rosa o tempo todo e os meninos de azul. Eles fazem terapia de redescobrimento de identidade de gênero, que é uma piada. As meninas se maquiam, aprendem a ser donas de casa, se vestem de noivas, e os meninos cortam lenha, jogam futebol, consertam carros.
Na verdade a moral é que não existe uma identidade correta de gênero, e o que eles mostram como sendo a norma nada mais é que um reforço dos piores estereótipos dos dois gêneros, que, mesmo que você seja hétero, não precisa seguir nem [deve] concordar. [Fica aí meu editorial feminista]

A parte romântica da comédia fica por conta do caso entre Megan e Graham. Megan entra no acampamento como uma cheerleader que não se considera lésbica e sai super assumida com uma namorada. A primeira vez que elas se beijam é uma das melhores partes do filme, quando vários deles saem escondidos para ir num bar gay, o Cocksucker, levados por um grupo de resistência de ex-ex-gays. No The Truth About Jane tem uma cena parecida, onde a Jane vai pela primeira vez à um bar gay, isso mostra como este é um momento importante na vida de todo homossexual. É quando você se vê de repente cercado de gays e lésbicas e percebe que realmente existe uma comunidade grande, que você não está sozinho no mundo e que existe toda uma vida que você nem fazia idéia que existia.

Uma diferença entre o acampamento e a resistência que achei muito legal é que quando Megan pede aos ex-ex-gays que a ensinem como ser uma lésbica, eles respondem que ninguém pode fazer isso, que não existe uma só maneira de ser gay, ao contrário do acampamento que ensina que existe um jeito certo de ser hétero. A parte triste da história é que esses acampamentos/clínicas existem de verdade e, mesmo hoje em dia, algumas pessoas são forçadas a passar por isso.


Escolhi falar desse filme porque foi dirigido pela Jamie Babbit, que toda sapa deveria conhecer, é uma celesbian [celebridade lésbica]. Ela participa, escreve, produz e dirige filmes com temática lésbica, inclusive já dirigiu alguns episódios de The L Word. Um outro filme dela que vale a pena assistir é o mais recente Itty Bitty Titty Committee (2007), que vou falar em um post futuro.
But I'm a Cheerleader foi lançado em 1999 e é fácil de achar pela internet, o problema são as legendas em português, mas consegui achar no AllSubs.org:
http://www.allsubs.org/subs-download/but-im-a-cheerleader-carol/429098/