07 março 2008

"But I'm a Cheerleader": o lado cômico de se assumir

Este filme é bem mais light que o último sobre o qual falei, The Truth About Jane, mas também lida com as questões de se assumir, só que de uma maneira cômica em vez de dramática. É a história de Megan (Natasha Lyonne), uma animadora de torcida bem típica americana que sofre uma intervenção dos amigos e família e vai parar num acampamento daqueles que teoricamente convertem gays em ex-gays--claro que enfatizo o 'teoricamente' porque realmente não acho que essas coisas funcionem. No acampamento ela conhece Graham(Clea Duval), por quem se apaixona.

É uma comédia romântica sobre adolescentes, que não tem a pretensão de ensinar ou pregar nada, simplesmente faz o que se propõe: divertir o espectador. A parte cômica fica por conta do absurdo do acampamento, da terapia de conversão.

As meninas se vestem de rosa o tempo todo e os meninos de azul. Eles fazem terapia de redescobrimento de identidade de gênero, que é uma piada. As meninas se maquiam, aprendem a ser donas de casa, se vestem de noivas, e os meninos cortam lenha, jogam futebol, consertam carros.
Na verdade a moral é que não existe uma identidade correta de gênero, e o que eles mostram como sendo a norma nada mais é que um reforço dos piores estereótipos dos dois gêneros, que, mesmo que você seja hétero, não precisa seguir nem [deve] concordar. [Fica aí meu editorial feminista]

A parte romântica da comédia fica por conta do caso entre Megan e Graham. Megan entra no acampamento como uma cheerleader que não se considera lésbica e sai super assumida com uma namorada. A primeira vez que elas se beijam é uma das melhores partes do filme, quando vários deles saem escondidos para ir num bar gay, o Cocksucker, levados por um grupo de resistência de ex-ex-gays. No The Truth About Jane tem uma cena parecida, onde a Jane vai pela primeira vez à um bar gay, isso mostra como este é um momento importante na vida de todo homossexual. É quando você se vê de repente cercado de gays e lésbicas e percebe que realmente existe uma comunidade grande, que você não está sozinho no mundo e que existe toda uma vida que você nem fazia idéia que existia.

Uma diferença entre o acampamento e a resistência que achei muito legal é que quando Megan pede aos ex-ex-gays que a ensinem como ser uma lésbica, eles respondem que ninguém pode fazer isso, que não existe uma só maneira de ser gay, ao contrário do acampamento que ensina que existe um jeito certo de ser hétero. A parte triste da história é que esses acampamentos/clínicas existem de verdade e, mesmo hoje em dia, algumas pessoas são forçadas a passar por isso.


Escolhi falar desse filme porque foi dirigido pela Jamie Babbit, que toda sapa deveria conhecer, é uma celesbian [celebridade lésbica]. Ela participa, escreve, produz e dirige filmes com temática lésbica, inclusive já dirigiu alguns episódios de The L Word. Um outro filme dela que vale a pena assistir é o mais recente Itty Bitty Titty Committee (2007), que vou falar em um post futuro.
But I'm a Cheerleader foi lançado em 1999 e é fácil de achar pela internet, o problema são as legendas em português, mas consegui achar no AllSubs.org:
http://www.allsubs.org/subs-download/but-im-a-cheerleader-carol/429098/

11 comentários:

Renata disse...

Só queria dizer que estou muito feliz com os comentários que vocês estão deixando aqui no Oráculo de Lesbos. Realmente me incentiva a continuar com esse hobbie que eu gosto tanto. Estou anotando todas as sugestões e assistindo ao que você me indicam, tenham certeza!
Um abraço,
Renata.

Anônimo disse...

Pois é...esse filme é engraçadinho...mas só fica no ramo da comédia mesmo, pq não acrescenta em muita coisa....mas mesmo assim, a gente se diverte com as bizarrices da história.
E fica aquilo que conversamos...todos os filmes mostram o momento de se assumir como extremamente difícil....que é o que realmente acontece na maioria dos casos. Mas nunca se viu um filme que mostre o lado fácil de se assumir. E ele existe...inclusive temos o exemplo de uma amiga em comum que se assumiu as 16 e foi super tranquilo. Nenhum dos pais teve ataques,os dois inclusive disseram que ja desconfiavam,e olha que ela não era do tipo "bofinho" ou muito masculinazada.Mas eles sabiam pelas atitudes dela. E isso nunca é relatado nos filmes. Sempre se mostra o lado traumático, o lado engraçado, fazendo parecer que as vezes é preferível virar hétero a passar por isso, ou fazendo parecer que somos uma piada.
E eu posso dizer, que enquanto fiquei no armário estava apenas me preparando para o momento ideal de falar, nunca, em hipótese nenhuma pensei em desistir do que eu sou só para agradar meus pais ou por medo. Se tivesse feito isso, seria a pessoa mais infeliz do mundo.

Juh Turtle

Manu disse...

Rê, tá genial o blog, bem que essa jornalista podia investir num site lésbico. Fazer uma redação com as outras jornalistas e ficar multimilionária com a venda de produtos licenciados (olha a economista, hehehe).
A pergunta que fica é, quem é a amiga em comum que se assumiu aos 16?
Beijos

gayeok disse...

Oi! Tava "sapeando" pelo Dykerama e li um comentário seu, com o link para o blog. Estou dando uma olhada e adorando! Também escrevo sobre homossexualidade em http://gayeok.wordpress.com. Falei recentemente sobre But I'm a Cheerleader. Vou ler as coisas aqui com calma. Passa por lá também! Beijos.
- Mariana.

lola aronovich disse...

Que legal, Rê! Vou tentar assistir! Nem sabia que existia essa palavra, celesbian! Adoro aprender coisas novas. Puxa, aparece e comenta de vez em quando no meu blog, porque eu gosto muito de escrever sobre minorias e preconceitos, e muitas vezes fico receosa de escrever besteira sobre gays e lésbicas. O único preconceito que sofro é por ser mulher e gorda!

lola aronovich disse...

Oi, Rê. Vi o "But I'm a Cheerleader" hoje e achei muito, muito fraquinho. Tem todos os clichês das comédias românticas hetero: diálogos bobos no meio de várias musiquinhas que funcionam como videoclip. E também não gostei das atuações. Pra ser franca, achei o roteiro até um pouco ofensivo com os gays, porque mostra todos os carinhas no campus como sujeitos efeminados, sissies. E certamente há muito mais variedade que isso no mundo gay, né? Outro dia li em algum lugar, talvez tenha sido na The Advocate, mas não lembro, que o cinema gay passa por uma crise de criatividade que já dura alguns anos. Eu não tenho conhecimento suficiente pra opinar, mas vc tem. E aí, o que vc acha?

Renata disse...

Oi Lola, a minha amiga Júlia tem a mesma opinião que você, achou fraquinho o filme.
Eu acho que ele tem seus defeitos, mas tem vários méritos também, foi um dos primeiros filmes com temática lésbica voltado especificamente para um público jovem.
Era pra ser um date-movie, light, sem maiores pretensões mesmo. E concordo com você que acaba caindo em vários estereótipos bobinhos com os meninos e até com as meninas no acampamento. Mas é diferente quando é uma pessoa do meio tirando sarro dos estereótipos, tem um seriado chamado The Big Gay Sketch Show, que é hilário e é só sobre gays tirando sarro de gays [vou colocar uns links no final se vc quiser ver].
Mas é só uma comédia romântica bobinha mesmo, o negócio é que eu gosto de comédias românticas... e sendo entre duas meninas eu gosto até das bobinhas... você tem que ver o outro filme da Jamie Babbit, é bem melhor que este, que foi o primeiro filme dirigido por ela.

Quanto à crise de criatividade no cinema gay o que posso comentar é que talvez tenham caído num círculo vicioso de pequenas produções "seguras", a maioria de comédias românticas por sinal, que estão dando algum retorno financeiro. Durante muito tempo o cinema gay era algo super alternativo, puramente artístico, sem qualquer perspectiva de lucro, mas agora que eles acharam um nicho estão ficando um pouco repetitivos...
Mas acho que estamos exigindo muito de um movimento cinematográfico que tem menos de vinte anos. Fora as poucas produções dos anos 80, foi nos anos 90 que houve o boom do cinema queer. E o número de produções está aumentando, inclusive internacionalmente, o que só pode ter um impacto positivo nisso tudo.
Olha só o que eu li esses dias sobre um filme taiwanês, e acho que resume o que eu acho disso:
"[...]or the Hollywood Reporter's, which summarizes it as "another well-executed but far from cutting-edge lesbian drama from Taiwan."
Um, they say that like it's a bad thing! I'd love the day to come when we're swimming in so many good lesbian movies that we can complain about them not being "cutting-edge" enough, but I don't think we're quite there yet" (afterellen.com).

Por enquanto, qualquer coisa pra mim já é lucro. Cada comercial de carro, personagem de novela, de seriado ou filme, que não seja homofóbico, estereotipado do ponto de vista hetero, ou que não acabe em tragédia [ou pior, voltando pro namorado] já é um passo... aos poucos a gente chega lá...
Um abraço,
Renata.

Links do Big Gay Sketch Show [estão nos meus favoritos do Youtube hauaahau]
The L Word Promo
http://www.youtube.com/watch?v=KQJ3PSY-rZY
Lesbian Speed Dating
http://www.youtube.com/watch?v=QNRO63vEm40
Lesbian Phone Sex
http://www.youtube.com/watch?v=Tc3hykV5hmU

lola aronovich disse...

Entendo perfeitamente que não se pode exigir tanto de um cinema que ainda está se descobrindo, e que ainda produz pouco. É como esperar que o cinema brasileiro seja tão eficiente quanto o de Hollywood. Hollywood lança 400 filmes por ano, dos quais talvez 10% sejam bons - talvez! Aí o pessoal fica julgando o cinema brasileiro como se ele também lançasse 400 filmes por ano. Não é por aí. E acho ótimo que o cinema gay esteja dando lucro. Só não pode se acomodar. Se todos ou quase todos os filmes lançados forem comédias românticas bobinhas, acho que há um problema. Mas não sei se é o caso, e é como vc disse - o cinema é recente. Tenho visto vários gays directors fazendo mainstream movies, Hollywood mesmo, o que tb acho ótimo. O único problema que vejo é que esses filmes que eles dirigem às vezes não trazem nada de especial. I mean, não acho que todo filme de um diretor gay tenha que ter um protagonista gay or anything like that. Mas uma visão um tiquinho única? Por exemplo, o Stop Loss da Kimberly Pierce. Quando li entrevistas dela falando que conseguiu entrar na mente e no dia a dia dos homens másculos do exército americano, fiquei preocupada. Like, so what?! Todo diretor americano homem/hetero/branco não faz exatamente isso? A gente sempre tem a mesma visão! Eu esperaria que ter uma diretora mulher e lésbica no leme traria algo de novo. Am I expecting too much?

Rosa Chisholm disse...

Não cheguei a ver o final do filme.
Mas até que foi interessante, não gosto desse tipo de filme, estilo comédia, gosto de coisas mais clássicas, mais românticas, mas valeu pra passar o tempo

olga disse...

Achei a crítica sendo feita de uma forma esquisita. A forma foi meio "não é mais um besteirol americano". Agora a crítica do sexismo foi melhor colocado.

Outro dia baixei Itty Bitty Titty Committee e estava sem legenda, mas um dia assistirei. Fé! =p

Uma boa semanta para ti.

Priscila disse...

Eu adoro esse filme!
Li alguns comentários aqui dizendo que é leve e tal... Eu acho que o ponto alto dele é justamente esse: Parecer leve com temas que, teóricamentes também tinham de ser, pois, pelo menos pra mim, ele deixa claríssimo o quão é ridículo esses estereótipos de gênero e quão simples é o amor.
Adoro quando no início, a personagem repete várias vezes que "achava normal pensar assim", PORQUE É!
:)