14 março 2008

'Fun Home': o gênio de Alison Bechdel

Mudando de mídia pra variar. Esta semana vou falar de histórias em quadrinhos, mais particularmente da graphic novel [uma narrativa madura no formato de histórias em quadrinhos] de uma das minhas cartunistas favoritas: Alison Bechdel. Eu descobri o livro depois de ler duas matérias, uma na Folha e outra na Carta Capital, que falavam desse novo trabalho que é um sucesso nos Estados Unidos e em outros países. Quem me conhece sabe que vou atrás de qualquer coisa que envolva lésbicas e, é claro, não foi diferente com Fun Home: Uma Tragicomédia em Família, que foi o presente que me dei de natal [meu aniversário pra quem não sabe]. Comecei a ler com altas expectativas, e terminei maravihosamente surpreendida ao ver que não só as expectativas foram em muito superadas, mas em ter conhecido uma escritora e desenhista genial.

Passei a ser fã incondicional da Alison e o blog dela é um dos sites obrigatórios que eu listo ali do lado [www.dykestowatchoutfor.com]-- os nomeio desse jeito porque são os únicos que eu entro religiosamente todos os dias. Ela desenha a tirinha Dykes to Watch Out For há mais de vinte anos, que por sinal também é um trabalho genial. As histórias são muito bem escritas e muito bem desenhadas, e ela consegue incorporar a elas um grau de comentário e sátira política que torna a leitura muito mais interessante. E se eu uso o adjetivo genial pra descrever o trabalho dela, podem ter certeza que o faço muito conscientemente. Realmente considero Alison Bechdel um gênio. Eu queria dedicar um post inteiro só pra tirinha, mas ainda vou pensar sobre isso, já que ainda não tem tradução pro português.

Voltando a Fun Home... É uma graphic novel autobiográfica, sobre o relacionamento com o pai dela e sobre o processo de se assumir. É um pouco difícil explicar o enredo básico porque o livro não segue uma narrativa linear e lida com muitas questões ao mesmo tempo. Uma das questões centrais envolve a sexualidade dela e do pai: um pouco depois de contar para os pais que era lésbica, ela descobre pela mãe que o pai tinha casos com outros homens. Muito autoritário, emocionalmente distante e obececado por decoração, o pai sempre fora um mistério para ela e a morte repentina dele só adiciona a isso.

Alguns meses depois da carta em que Alison sai do armário para os pais, Bruce, o pai, morre atropelado, o que levanta para ela a suspeita de suicídio. Para ela, os dois fatos sempre estiveram ligados, a morte dele e a notícia da filha ser lésbica, e o livro é meio que uma terapia onde ela processa esses fatos, volta à infância, revisita o casamento dos pais e revela alguns segredos bem guardados, como o caso do pai com o baby-sitter e um julgamento por dar bebida alcoólica a um menor.


Pra quem não percebeu pelo autoretrato ali na seção 'Quem sou eu', eu tenho minhas ilusões de desenhista e uma das coisas que eu mais gosto na Alison Bechdel é o traço dela. Ela consegue dar movimento aos personagens de uma maneira muito natural, se preocupa com detalhes, e ao mesmo tempo permanece com o um desenho limpo e simples. Prestem atenção nos detalhes desta página ao lado. [Foi mal pelas imagens escaneadas, mas não consegui versão melhor e tava sem saco de ficar muito tempo arrumando no photoshop]

Notem como em cada quadro cada um dos persongens está no meio de alguma atividade. Apesar da cena ser estática, os personagens não necessariamente precisam ficar estáticos. O ponto de vista também muda nos três quadros, ajudando a dar movimento à cena. Mas notem os detalhes: o pai tirando o casaco e indo atender o telefone, a mãe cozinhando, abosorta ao mundo à sua volta, e o olhar de Alison, que vai de um ao outro. Uma cena super coloquial que consegue capturar a tensão entre os pais dela. Genial!

Esta página por acaso também menciona outro fator que, particularmente pra mim [que serei mestre em literatura inglesa em duas semanas, cruzando os dedos], é muito interessante no livro: as referências literárias. Ambos os pais dela são professores de inglês, e apaixonados por literatura, paixão que passaram para Alison. Durante toda a narrativa há um jogo entre realidade e ficção, entre a relação entre a vida e literatura, autores e personagens, ficção e biografia. Há ao longo do livro a dualidade entre os relatos escritos no diário dela e as várias referências a dicionários e enciclopédias, e no entanto a verdade das duas fontes é colocada em questão.

É também simbólico da importância da literatura na vida dela que ela tenha se descoberto como lésbica numa biblioteca, ao ler um livro de contos, primeiramente vivendo aquilo de forma teórica ou ficcional para depois tornar-se real. Eu geralmente não gosto dessas reflexões sobre realidade e ficção, isso é mais coisa da praia da minha namorada, mas nesse caso eu adorei, principalemte porque comigo aconteceu a mesma coisa: minha revelação veio no campo teórico primeiro.
O livro foi escolhido o melhor de 2006 pela revisa Time, não só a melhor graphic novel, mas o melhor livro em geral. Acho que dá pra notar pela minha babação ao longo do post que eu recomendo e muito o livro. Se tornou um dos meus favoritos e isso é dizer muito vindo de mim. É bem fácil de encontrar em qualquer livraria que tenha um seção de quadrinhos e custa entre R$35 e R$45 dependendo do lugar. E só pra dar mais um incentivo pras vocês sapinhas comprarem o livro, preciso dizer que as cenas de descoberta sexual dela são bem interessantes. Porque ninguém é de ferro também né? Aí vai uma palhinha:

5 comentários:

Ju disse...

Poxa, Re

ler teus posts me dão uma vontade louca de v/ler as coisas que voce indica, muuuuuuuuuito mais do que quando conversamos! Hahuahuahua.

Achei bem legal o "close reading" que voce fez do traço dela e dos seus comentários sobre a historia em geral também. Fiquei bem feliz de saber que foi considerado o melhor livro! Ponto pra gente!

Agora aposto que vai ter uma pa de gente querendo seu livro emprestado. Eu ate deixo, mas tem que estar disponível pra mim assim que eu chegar ai... se bem que nas primeiras semanas estarei ocupada com coisas outras que nao campos teóricos...

lola aronovich disse...

Oi, Rê! Tava mesmo com vontade de te escrever, porque vi que vc vai defender sua tese no final do mês! Que jornada, hein?! Fico muito orgulhosa de vc que, apesar de tudo, de trocar de orientador N vezes, vai acabar defendendo com louvor. Vc vai ver! Espero que vc esteja bem tranquilinha, porque sei que vai dar tudo certo. Aliás, mais do que certo! Queria muito estar aí pra testemunhar essa sua vitória. Mas vou ficar torcendo daqui! Depois conta como foi a defesa!

Anna disse...

olá!
restribuindo a visita e aproveitando para dar uma olhada nos seus posts. são ótimos, aliás. já estou até baixando o the truth about jane. ;)
beijos

j. disse...

Hi! I found your blog from DTWOF - Enjoyed it, thanks! (kittehpants from DTWOF)

Anônimo disse...

Baixei o Fun Home pelo e-Mule. Não tive paciência pra ler inteiro (está em inglês, um inglês difícil por sinal, o da Alison, pelo menos para os meus parcos conhecimentos).

Mas os desenhos são realmente bárbaros. Vale a pena.

Mônica