22 abril 2008

8 desejos antes de morrer...

Este post será um um pouco diferente do usual... Recebi a tarefa de um dos meus blogs favoritos, Na Ponta dos Dedos, de fazer uma lista com oito desejos que eu gostaria de realizar antes de morrer. E levando em conta que o Oráculo de Lesbos tem como proposta falar de filmes e seriados lésbicos resolvi responder essa pergunta tendo esses trabalhos como inspiração. Então aí vai minha lista de oito desejos:

1- Saving Face
Gostaria de beijar minha namorada, mas beijar mesmo, nao ficar só pertinho ou de mão dada, no meio de uma festa com familiares. E se as pessoas ficassem chocadas e começassem a sair, nós olharíamos uma pra outra e diríamos "Fuck them!", como fizeram Vivian e Will.
Sim, já estou chegando perto disso, em festas mais íntimas já vamos como casal, super comportadas diga-se de passagem, mas em festas com familiares mais distantes já recebo logo de cara mil recomendações dos meus pais de como não deveria me expor e blá blá blá...



2-Better Than Chocolate
Unir sexo e arte.
Uma das cenas mais clássicas deste clássico dos anos 90 é a cena de sexo onde elas fazem uma pintura usando os corpos nus e tinta. Preciso dizer mais alguma coisa?







3- High Art
Tirar o retrato perfeito do momento perfeito com a minha namorada, algo que realmente capture a nossa intimidade.
Só que no meu desejo eu quero isso sem a parte das drogas é claro... e o nosso retrato nem precisa parar na capa de uma revista importante, só a parede está mais que bom...





4-Itty Bitty Titty Committee
Fazer um protesto público contra o mundo machista e seus símbolos patriarcais. Meu lado feminista vibra muito com esse filme e com essa idéia...








5-South of Nowhere
Esperar minha namorada usando apenas um sobretudo...
Pra ser sincera acho que vou realizar esso logo logo... que ela está na Inglaterra há mais de sete meses e volta agora em junho.... [estou contando os dias já... porque o tempo demora tanto mais pra passar quando a gente espera alguma coisa com vontade? hmf]







6-The Truth About Jane
Ajudar alguém a se assumir, como a professora de Jane, Mrs. Walcott, faz.
Tudo bem, eu confesso, já realizei esse. Já ajudei duas meninas a se assumirem, mas o desejo ainda é válido, porque quero fazer isso muito mais vezes antes de morrer. A sensação de ajudar alguém nesse momento tão delicado da nossa vida é muito boa, e me sinto muito feliz por já ter feito uma diferença positiva na vida delas.






7- If These Walls Could Talk 2
Ficar grávida.
Ainda falta muito, mas muito tempo mesmo, pra realizar esse, ainda bem que não corremos risco de engravidar por acidente, porque definitivamente não estou pronta pra isso... mas quero sim ser mãe algum dia, de preferência do jeito gostoso que a Ellen Degeneres e a Sharon Stone fizeram, ao som de Dido... hihihi
Tem outro filme ótimo sobre isso que se chama Chutney Popcorn, que também espero comentar no blog logo.





8-The Laramie Project
A última coisa tem a ver mais com após a minha morte que com antes. Quando morrer, gostaria de ter vivido uma vida que tenha afetado positivamente as pessoas ao meu redor e, se eu não tiver alcançado isso, que pelo menos minha morte sirva para trazer algum bem a esse mundo.
Claro que não precisa ser trágica nem nada, não precisa ser exatamente igual à do Matthew, não é isso que estou dizendo... só quero deixar um legado positivo, de uma maneira ou outra.



Agora teoricamente tenho que passar a tarefa a mais outros oito blogs, mas como o Uva na Vulva e o Na Ponta dos Dedos já cobriram a maior parte dos meus favoritos, só consegui pensar em mais cinco... nessa horas sempre me falha a memória... mas quem me conhece melhor sabe que minha memória é bem ruinzinha mesmo... hahahahaha Fica aí então a tarefa pros blogs seguintes:

Gay e Ok
Sapacity
Alice's Adventures on Lesboland
ByDeh
Escreva Lola Escreva [não é lésbico, mas é ótimo, e super gay-friendly]

13 abril 2008

"Desert Hearts": clássico lésbico dos anos 80

Este é um dos clássicos da década de 80, por alguns considerado como o primeiro filme dedicado inteiramente à uma história de amor entre duas mulheres. Foi feito com baixo orçamento, mas conseguiu vários prêmios nos festivais de cinema independente, inclusive o prêmio do júri em Sundance.

A história se passa em Reno, Nevada, uma cidade de apostadores no deserto americano, no final dos anos 50, onde Vivian Bell (Helen Shaver) vai esperar pelo fim do processo de divórcio dela. A professora de 35 anos se hospeda em uma fazenda nos arredores da cidade, onde acaba conhecendo Cay (Patricia Charbonneau), a enteada da dona do lugar. Cay é dez anos mais nova e assumidamente lésbica, apesar dessa palavra não ser usada nenhuma vez durante o filme.

Acho interessante justamente essa atitude de Cay em relação à sua sexualidade, ainda mais para uma mulher vivendo nos anos 50. Ela é muito segura de si. Ela faz sexo casual com outras mulheres e não tem vergonha nenhuma disso, até brinca a respeito. Quando Vivian vai à sua cabana e encontra uma mulher semi-nua na cama dela, Cay age como se nem percebesse a situação inconveniente.

Essa atitude saudável de Cay em relação à prórpia sexualidade se reflete no relacionamento que ela tem com a melhor amiga, Silver. Ela sabe que Cay é lésbica, a apóia em todos os momentos e dá força à paixão dela por Vivian. E mesmo tendo esse conhecimento da sexualidade da amiga, Silver não se incomoda nem um pouco de fazer demonstrações de carinho, como um selinho, em público por Cay, ou de repartir um banho de espuma com a amiga em casa. Essas cenas são muito bem feitas e realmente mostram a amizade delas como sendo uma coisa verdadeira, sem malícia alguma.

Também no jogo de sedução que Cay faz com Vivian ela é sincera sobre suas intenções e sua sexualidade desde o começo, o que assusta a professora de início. Vivian começa o filme sob intenso estresse emocional por causa do divórcio, ela está com os nervos em frangalhos e isso fica evidente pela sua atuação. Mas aos poucos a amizade com Cay vai fazendo com que se solte, e quando as duas finalmente ficam juntas percebemos uma transformação na personagem que se reflete até na fisionomia dela, como pode ser percebido nas duas fotos abaixo, a primeira do começo do filme e a segunda quando as duas já estão juntas.

Acho que a diretora Donna Deitch lidou muito bem com o romance entre elas. O primeiro beijo é considerado um momento clássico do cinema lésbico, quando elas estão no carro e está chovendo. A cena de sexo achei particularmente bem feita, com um estilo diferente do que costumamos ver nesse tipo de cena. Foi feita com tomadas longas, sem trilha sonora nenhuma, só o som ambiente com vários momentos de silêncio e filmada durante o dia, ou seja, bem iluminada. O resultado é uma cena verdadeira e muito bonita.

A partir desse momento as duas compartilham uma nova intimidade que é muito bem retratada nas próximas cenas. São momentos bonitos entre duas amantes, que estão simplesmente aproveitando a companhia uma da outra, amando estar ali naquele momento. Acho que todas nós já tivemos essa sensação e adorei como o filme a apresenta.

Uma das únicas coisas que posso dizer que não gosto no filme é o ritmo lento da narrativa. A história demora a se desenrolar, os personagens são apresentados aos poucos, durante várias cenas, que, às vezes, me deixavam com a impressão de que poderiam ter sido melhor editadas. Mas daí fico com a sensação de que sou muito 'geração vídeo-game' [lembra que falei semana passada que sou fã de Matrix?], que quero a história apresentada de maneira muito dinâmica, com edição ousada, e que por isso não tenho paciência pra narrativas mais calmas. Gostaria da opinião de vocês a respeito: o que acham? Perdemos a sensibilidade para este tipo de história mais calma, ou o filme é mesmo demorado demais? Fora isso considero o filme muito bom, e acho legal conhecer os nossos clássicos, já que temos tão poucos.

Desert Hearts, ou Corações Desertos, como foi chamado no Brasil, é fácil de ser encontrado na internet e as legendas achei no AllSubs.

06 abril 2008

"Bound": gângsters e lésbicas, o que mais eu poderia pedir?

Pra mudar radicalmente do último post, que foi sobre um assunto importante e sério, escolhi Bound que não se propõe a nada mais que entreter o espectador. Não leva à nenhuma reflexão nem ajuda no processo de se assumir, para si mesmo ou para os pais. O filme é, simplesmente, divertido. Este é o tipo de filme que recomendo pra quem já lidou com esses temas e quer alguma coisa que inclua uma trama lésbica pra assistir com a namorada ou com as amigas.

Mas aqui claro podemos entrar na questão da representação e como essa visibilidade em filmes que não tenham como temática específica a homossexualidade, mas que tenham na trama personagens lésbicas, ajudam sim no processo de aceitação. É o que eu sempre digo sobre se ver representada nos filmes, seriados, etc. sobre como homossexuais quase nunca têm sua história contada, e isso equivale dizer que nossa história é uma que na verdade não merece ser lembrada. É uma afirmação da nossa não-existência. Tentem fazer a conta de quantos filmes, novelas, seriados e outras coisas já viram, e quantos desses tinham personagens lésbicas: esse resultado é o flagrante da nossa não-representação. Por isso filmes como Bound são importantes: ele não é exclusivamente voltado para o público gay e lésbico, nem tem como objetivo apresentar essa temática, mas consegue mesmo assim apresentar duas personagens lésbicas interessantes no meio de uma trama sobre mafiosos e dinheiro.

Eu por exemplo sou super fã da série O Poderoso Chefão, adoro filmes de mafiosos, sobre grandes roubos, com tramas complexas de traição e lealdade, e já devo ter visto dezenas do gênero, isso tudo mais lésbicas seria um sonho certo? Por consequência, Bound foi um presente dos céus. Primeiro de tudo porque foi dirigido pelos irmãos Wachowsky [o primeiro filme dirigido por eles], os mesmos diretores de Matrix, outra série que por sinal adoro [tenho o box de dvds e já devo ter memorizado todas as falas de tantas vezes que vi]. A direção deles é ótima, com uma boa atmosfera de suspense, tomadas de ângulos inusitados e a câmera sempre em movimento.

O filme em si gira em torno de dois milhões de dólares, que foram recuperados de um contador e que vão parar no apartamento de Caesar e Violet. Caesar, brilhantemente interpretado por Joe Pantoliano [que fez também Cypher em Matrix], trabalha para uma família de mafiosos, os donos do dinheiro. Violet (Jennifer Tilly), a namorada dele, acaba de envolvendo com a vizinha ex-presidiária Corky (Gina Gershon), e juntas elas tentam dar um golpe em Caesar e fugir com o dinheiro. Essa é a trama básica do filme, mas apesar dela se desenvolver muito bem com momentos de suspense e ação intercalados, eu pessoalmente acho que a melhor parte ainda é a relação e a química entre as duas.

Começa logo no primeiro momento em que elas se vêem, no elevador. A química entre elas é gritante. Já na segunda cena das duas, quando Violet leva café para a vizinha Corky, e elas se apresentam uma à outra, a linguagem corporal de ambas é clara. Há toda uma dança entre elas, um jogo de sedução muito bem dirigido e interpretado, que é uma delícia de acompanhar. Isso culmina eventualmente na minha cena erótica favorita de todos os tempos, quando Violet fala para Corky explicitamente que está tentando seduzi-la. Não vou descrever em detalhes a cena, primeiro porque não quero estragar pra quem não viu, e segundo porque sou tímida hihihi, mas falo muito sério quando digo que é a cena que acho mais sensual de todos os filmes que já vi.

E olha que nem é a única cena de sexo entre elas. A outra cena por sinal é também muito boa. É uma daquelas raras cenas de sexo entre mulheres onde realmente parece que as duas sabem o que estão fazendo, que realmente se parece com sexo lésbico, o que sabemos é uma raridade no cinema. E existe uma razão para isso, os diretores contrataram uma consultora para a cena, para que parecesse mais verídica, e funcionou. A câmera faz um 360 na cama enquanto as duas fazem sexo, e tudo, desde a posição dos corpos delas, ao jeito como estão encaixados, até aos movimentos que fazem, parece real. Eu considero uma das melhores cenas de sexo entre mulheres [será que estou me repetindo?].

Também acho interessante a relação butch e femme entre elas. Corky é claramente a butch da relação, ela conserta encanamentos, veste macacão e até dirige uma camionete, enquanto que a femme Violet é toda delicada, tem unhas compridas e anda sempre de salto alto. Mas fora esses clichês, o filme não peca muito em estereótipos. A parceria das duas parece bem equilibrada, inclusive sexualmente, e elas se identificam muito uma com a outra.

Acho interessante essa representação positiva de lésbicas butches porque percebo que em muitos trabalhos com temática lésbica há um certo medo de se colocar personagens butch, como se isso fosse repelir um potencial espectador hétero ou estereotipar negativamente as lésbicas. Por isso vejo que a maiora dos filmes e seriados procura mostrar mais o lado femme da identidade lésbica, com a maior parte das sapinhas super femininas, como The L Word, South of Nowhere, Lost and Delirious, Imagine Me & You, DEBS, Nina's Heavenly Delights, e muitos outros. Daí adoro quando aparece uma personagem butch e ao mesmo tempo super sexy como Corky em algum filme, mostra ao mesmo tempo a coragem dos diretores e que é possível lidar com identidade butch de forma saudável, sem estigmatizar.

Bound: Sem Limites, como foi chamado no Brasil, foi filmado em 1996 e é bem fácil de ser encontrado na internet e quem sabe até em alguma locadora com um acervo legal. A legenda achei no opensubtitles, e se der algum problema de sincronização [como deu no arquivo que eu baixei], tem um programa de vídeo que tem uma opção bem fácil de usar, o Radlight. Quaisquer dúvidas que vocês tenham em relação a esse tipo de coisa é só deixar um recado com email que respondo sempre que puder, ok?

Agora numa nota mais pessoal, queria pedir desculpas por não ter feito um post na semana passada, mas as circunstâncias realmente foram extraordinárias. Eu defendi minha dissertação na sexta, dia 28, e realmente durante aquela semana não pude nem pensar em nada mais que não fosse a defesa. Fico feliz em dizer que foi tudo super bem, tirei 9,9, com distinção e louvor. Pra falar a verdade, ainda nem caiu a ficha que sou mestre. Pra melhorar, meu irmão se formou em psicologia na UFSC no mesmo dia, então juntamos as duas festas, do meu mestrado e da formatura dele, e passamos o final de semana inteiro em função disso... Na verdade, eu só fui parar de comemorar lá pela quarta feira. Então, como eu levo o blog bastante a sério, não quis fazer um post meia boca. Eu geralmente demoro um certo tempo escrevendo, revendo o filme, etc. daí deixei pra atualizar neste final de semana, e espero que não tenha mais atrasos daqui em diante. Esses aí são meu irmão, eu [com sorriso pós-defesa], e a noiva dele, que se formou na mesma turma.