06 abril 2008

"Bound": gângsters e lésbicas, o que mais eu poderia pedir?

Pra mudar radicalmente do último post, que foi sobre um assunto importante e sério, escolhi Bound que não se propõe a nada mais que entreter o espectador. Não leva à nenhuma reflexão nem ajuda no processo de se assumir, para si mesmo ou para os pais. O filme é, simplesmente, divertido. Este é o tipo de filme que recomendo pra quem já lidou com esses temas e quer alguma coisa que inclua uma trama lésbica pra assistir com a namorada ou com as amigas.

Mas aqui claro podemos entrar na questão da representação e como essa visibilidade em filmes que não tenham como temática específica a homossexualidade, mas que tenham na trama personagens lésbicas, ajudam sim no processo de aceitação. É o que eu sempre digo sobre se ver representada nos filmes, seriados, etc. sobre como homossexuais quase nunca têm sua história contada, e isso equivale dizer que nossa história é uma que na verdade não merece ser lembrada. É uma afirmação da nossa não-existência. Tentem fazer a conta de quantos filmes, novelas, seriados e outras coisas já viram, e quantos desses tinham personagens lésbicas: esse resultado é o flagrante da nossa não-representação. Por isso filmes como Bound são importantes: ele não é exclusivamente voltado para o público gay e lésbico, nem tem como objetivo apresentar essa temática, mas consegue mesmo assim apresentar duas personagens lésbicas interessantes no meio de uma trama sobre mafiosos e dinheiro.

Eu por exemplo sou super fã da série O Poderoso Chefão, adoro filmes de mafiosos, sobre grandes roubos, com tramas complexas de traição e lealdade, e já devo ter visto dezenas do gênero, isso tudo mais lésbicas seria um sonho certo? Por consequência, Bound foi um presente dos céus. Primeiro de tudo porque foi dirigido pelos irmãos Wachowsky [o primeiro filme dirigido por eles], os mesmos diretores de Matrix, outra série que por sinal adoro [tenho o box de dvds e já devo ter memorizado todas as falas de tantas vezes que vi]. A direção deles é ótima, com uma boa atmosfera de suspense, tomadas de ângulos inusitados e a câmera sempre em movimento.

O filme em si gira em torno de dois milhões de dólares, que foram recuperados de um contador e que vão parar no apartamento de Caesar e Violet. Caesar, brilhantemente interpretado por Joe Pantoliano [que fez também Cypher em Matrix], trabalha para uma família de mafiosos, os donos do dinheiro. Violet (Jennifer Tilly), a namorada dele, acaba de envolvendo com a vizinha ex-presidiária Corky (Gina Gershon), e juntas elas tentam dar um golpe em Caesar e fugir com o dinheiro. Essa é a trama básica do filme, mas apesar dela se desenvolver muito bem com momentos de suspense e ação intercalados, eu pessoalmente acho que a melhor parte ainda é a relação e a química entre as duas.

Começa logo no primeiro momento em que elas se vêem, no elevador. A química entre elas é gritante. Já na segunda cena das duas, quando Violet leva café para a vizinha Corky, e elas se apresentam uma à outra, a linguagem corporal de ambas é clara. Há toda uma dança entre elas, um jogo de sedução muito bem dirigido e interpretado, que é uma delícia de acompanhar. Isso culmina eventualmente na minha cena erótica favorita de todos os tempos, quando Violet fala para Corky explicitamente que está tentando seduzi-la. Não vou descrever em detalhes a cena, primeiro porque não quero estragar pra quem não viu, e segundo porque sou tímida hihihi, mas falo muito sério quando digo que é a cena que acho mais sensual de todos os filmes que já vi.

E olha que nem é a única cena de sexo entre elas. A outra cena por sinal é também muito boa. É uma daquelas raras cenas de sexo entre mulheres onde realmente parece que as duas sabem o que estão fazendo, que realmente se parece com sexo lésbico, o que sabemos é uma raridade no cinema. E existe uma razão para isso, os diretores contrataram uma consultora para a cena, para que parecesse mais verídica, e funcionou. A câmera faz um 360 na cama enquanto as duas fazem sexo, e tudo, desde a posição dos corpos delas, ao jeito como estão encaixados, até aos movimentos que fazem, parece real. Eu considero uma das melhores cenas de sexo entre mulheres [será que estou me repetindo?].

Também acho interessante a relação butch e femme entre elas. Corky é claramente a butch da relação, ela conserta encanamentos, veste macacão e até dirige uma camionete, enquanto que a femme Violet é toda delicada, tem unhas compridas e anda sempre de salto alto. Mas fora esses clichês, o filme não peca muito em estereótipos. A parceria das duas parece bem equilibrada, inclusive sexualmente, e elas se identificam muito uma com a outra.

Acho interessante essa representação positiva de lésbicas butches porque percebo que em muitos trabalhos com temática lésbica há um certo medo de se colocar personagens butch, como se isso fosse repelir um potencial espectador hétero ou estereotipar negativamente as lésbicas. Por isso vejo que a maiora dos filmes e seriados procura mostrar mais o lado femme da identidade lésbica, com a maior parte das sapinhas super femininas, como The L Word, South of Nowhere, Lost and Delirious, Imagine Me & You, DEBS, Nina's Heavenly Delights, e muitos outros. Daí adoro quando aparece uma personagem butch e ao mesmo tempo super sexy como Corky em algum filme, mostra ao mesmo tempo a coragem dos diretores e que é possível lidar com identidade butch de forma saudável, sem estigmatizar.

Bound: Sem Limites, como foi chamado no Brasil, foi filmado em 1996 e é bem fácil de ser encontrado na internet e quem sabe até em alguma locadora com um acervo legal. A legenda achei no opensubtitles, e se der algum problema de sincronização [como deu no arquivo que eu baixei], tem um programa de vídeo que tem uma opção bem fácil de usar, o Radlight. Quaisquer dúvidas que vocês tenham em relação a esse tipo de coisa é só deixar um recado com email que respondo sempre que puder, ok?

Agora numa nota mais pessoal, queria pedir desculpas por não ter feito um post na semana passada, mas as circunstâncias realmente foram extraordinárias. Eu defendi minha dissertação na sexta, dia 28, e realmente durante aquela semana não pude nem pensar em nada mais que não fosse a defesa. Fico feliz em dizer que foi tudo super bem, tirei 9,9, com distinção e louvor. Pra falar a verdade, ainda nem caiu a ficha que sou mestre. Pra melhorar, meu irmão se formou em psicologia na UFSC no mesmo dia, então juntamos as duas festas, do meu mestrado e da formatura dele, e passamos o final de semana inteiro em função disso... Na verdade, eu só fui parar de comemorar lá pela quarta feira. Então, como eu levo o blog bastante a sério, não quis fazer um post meia boca. Eu geralmente demoro um certo tempo escrevendo, revendo o filme, etc. daí deixei pra atualizar neste final de semana, e espero que não tenha mais atrasos daqui em diante. Esses aí são meu irmão, eu [com sorriso pós-defesa], e a noiva dele, que se formou na mesma turma.

14 comentários:

Anônimo disse...

Bom, pra começar devo dar mais uma vez meus parabéns!! A champagne da comemoração tava ótima!!! huahuahuahuaha....
E com relação ao filme...mostra esse lado butch e femme, mas o q ele mais mostra de interessante é que o visual da pessoa não define realmente seu comportamento amoroso, principalmente na cama. Mostra o que muitas pessoas acham que não existe, uma butch que não seja exclusivamente "ativa". Nesse filme as duas são "meio a meio", gostm de dar e receber! O que torna interessante, pois vc acha que vai ver a butch sendo o "macho" da relação e acaba percebendo que em muitos casos isso realmente não existe!
Rê, mais uma vez meus parabéns!! E tô esperando a próxima comemoração do seu Doutorado!! ahuhuhuahuahauhauhaua
Bjo
Juh "Turtle"

Renata disse...

Obrigada pelos parabéns Julia!
Muito bom o seu comentário, acho que o filme realmente desafia esses estereótipos ligados à sexualidade butch/femme. Brincando, brincando, esse filme despretensioso acaba botando por terra vários preconceitos em relação às lésbicas.
Quanto ao doutorado, acho que não precisamos estperar até lá para tomarmos o próximo champanhe não acha? Com certeza alguma outra comemoração vai surgir no meio do caminho...
Beijos

Alice disse...

Olá, Renata!
Agradecendo a visita no Alice in Lesboland. Adorei seu blog, sou fã incondicional de Bound. Já vi esse mais de dez vezes e, ao lado de Quando a Noite Cai (When Night is Falling) é, até hoje, o meu favorito.
Adicionei seu blog na nossa lista, queremos começar com o pé direito, indicado somente páginas legais.
Um abraço!

suelen/brejo disse...

Parabéns pelo blog gurias,ele ta nos meus favoritos ^^

ahahahahaha podem me matar,inclusive minha namorada ja tentou pq eu vi esse filme e não me apeteceu :D,quero dizer,ela como fã elevou tanto as características do filme que eu fiquei esperando mais.

Achei interessante esse troca de papeis,passiva X ativa,femme x butch,quebrando até expectativas de quem assiste o filme em alguns momentos.Meu favorito ainda é Imagine me and you(ele ta no youtube) e Beijando Jessica Stein(tb no youtube),aimee e jaguar não consigo achar,tentei até no emule,mas eu tenho a legenda,se alguem quiser passo sem probls ;-)

Anônimo disse...

Parabéns pra vc e seu irmão!
Mônica

Renata disse...

Obrigada pelos parabén Mônica!
e obrigada também pelos elogios Suelen e Alice!
Têm sido um prazer escrever este blog, e mais ainda pelos comentários de vcs, minhas leitoras!
Um abraço,
Renata.

lola aronovich disse...

Oi, Rê! Os parabéns por ter terminado o mestrado eu já dei. Mas agora que li sua tese - e ela está brilhante mesmo! - vou dar de novo: parabéns, menina! Vc escreve muito bem, e vai se dar bem no doutorado, quando chegar a hora.
Puxa, ainda não vi Bound. Sei que é um dos poucos filmes "mainstream" sobre lesbianismo. Vou pegar.
E será que vc poderia comentar alguma coisa sobre The L Word? Vi poucos episódios, e gostei mais ou menos. Quero dizer, por mais que eu entenda tão pouquinho sobre lesbianismo, não parece muito realista um bando de lésbicas irem a um strip club, parece? Sei lá, é uma coisa tão machista... E me incomoda também que todas as personagens sejam tão bonitinhas e arrumadas. Tá, é LA, mas mesmo assim, um pouco mais de variedade viria a calhar... Abração!

Dayane Trindade disse...

Olá! Boa Noite! Queria te dar os parabéns pelo blog, primeira vez q leio e prendeu minha atenção,vc tem uma forma de escrever mt legal, (servindo de referência para mim jah que sou futura jornalista rsrsrs ) coisa rara na internet já que canso as vistas rápido em frente ao pc. Dos filmes que vc comentou ainda naum vi nenhum mas dpois de ler confesso que fikei bastante curiosa, até com o livro em quadrinhos! Vou comprar assim que der. rsrsrs Bem, eu keria dar umas sugestões de filmes para vc. Primeiro um filme chamado Lost and Delirious ( que no português se chama Assunto de Meninas) que, na minha opnião, o melhor filme lésbico que já vi na vida. E o outro é, Imagine eu e você ( que por sinal é com a mesma atriz do primeiro Piper Perabo), uma comédia romantica muito fofinha e que conta com as descobertas de uma mulher recém casada, vale a pena assistir! Bem é isso.. Bjusss e parabéns outra vez! =)

Anônimo disse...

Um video de Sugar Rush:

http://www.youtube.com/
watch?v=8jeZrYxchYU

Mônica

Renata disse...

Oi Lola!
Valeu de novo pelos elogios... eu fiquei sim orgulhosa do meu texto, mas quando recebo elogios assim de gente foda q nem você [pardon my french] o meu dia fica completo de verdade eheheheh.
Bound vale a pena ver, mesmo sem o lesbianismo, é um filme que já mostra os traços do estilo dos Wachowsky.
Já The L Word é outra história... pelo que você falou, provavelmente viu só alguns episódios justo da terceira temporada, que é de longe a pior. Acho que erraram a mão feio naquele ano, minha impressão é que quiseram deliberadamente atrair mais espectadores heterossexuais, mas no quarto já foi melhor e esse último eu adorei.

Oi Dayane,
dê sim uma olhada em Fun Home, vale a pena mesmo, sou fã incondicional da Alison. Eu gosto muito da Piper Perabo, tanto em Lost and Delirious quanto em Imagine Me & You, mas devo dizer q prefiro o último por ser menos trágico.

Mônica,
valeu pelo link, mas desde sua primeira sugestão já tinha ido atrás desse seriado e agora já vi as duas temporadas inteiras. Falarei sobre ele logo no blog. Adorei mesmo!

Então, queridas leitoras...
por enquanto estou tentando falar mais de filmes e outras coisas que não estão tão disponíveis nas locadoras, que são menos conhecidos. Mas prometo que dedicarei sim um post a cada um dos filmes e seriados que vocês mencionaram.

Anônimo disse...

Aqui vai mais uma sugestão: Treading Water.

Não sei mais nenhuma informação do filme, apenas o nome em inglês. Acabei de assisti-lo inteiro. Fiquei sabendo dele há vários anos atrás quando achei alguns clipes num site (que não é o Youtube, na época não tinha isso não - risos). Agora, pesquisando numa comunidade do Orkut que, por sinal, é onde tenho conhecido muitos filmes e seriados dos quais nunca tinha ouvido falar, peguei pra baixar e assistir esse Treading Water.

Abraços.
Mônica

P.S. é um baita dramalhão, vou logo dizendo, mas no final elas ficam juntas (Alex - Alexandra - e a Casey)

Renata disse...

Oi Mônica!
Valeu por mais uma dica! Vou ir atrás desse também, pode deixar.
Abraço,
Renata.

pretty disse...

gente, tenho filme aimée & jaguar...liiiiiiiiiiindo demais!
quem quiser, me manda email que eu posto ele no 4shared pra vcs baixarem.
um bj
cris
pbabybaby@hotmail.com

Rosa Chisholm disse...

Deste filme, eu não gostei, não gostei mesmo.
Achei muito só sexo, não vi o sentimento..sei lá