13 abril 2008

"Desert Hearts": clássico lésbico dos anos 80

Este é um dos clássicos da década de 80, por alguns considerado como o primeiro filme dedicado inteiramente à uma história de amor entre duas mulheres. Foi feito com baixo orçamento, mas conseguiu vários prêmios nos festivais de cinema independente, inclusive o prêmio do júri em Sundance.

A história se passa em Reno, Nevada, uma cidade de apostadores no deserto americano, no final dos anos 50, onde Vivian Bell (Helen Shaver) vai esperar pelo fim do processo de divórcio dela. A professora de 35 anos se hospeda em uma fazenda nos arredores da cidade, onde acaba conhecendo Cay (Patricia Charbonneau), a enteada da dona do lugar. Cay é dez anos mais nova e assumidamente lésbica, apesar dessa palavra não ser usada nenhuma vez durante o filme.

Acho interessante justamente essa atitude de Cay em relação à sua sexualidade, ainda mais para uma mulher vivendo nos anos 50. Ela é muito segura de si. Ela faz sexo casual com outras mulheres e não tem vergonha nenhuma disso, até brinca a respeito. Quando Vivian vai à sua cabana e encontra uma mulher semi-nua na cama dela, Cay age como se nem percebesse a situação inconveniente.

Essa atitude saudável de Cay em relação à prórpia sexualidade se reflete no relacionamento que ela tem com a melhor amiga, Silver. Ela sabe que Cay é lésbica, a apóia em todos os momentos e dá força à paixão dela por Vivian. E mesmo tendo esse conhecimento da sexualidade da amiga, Silver não se incomoda nem um pouco de fazer demonstrações de carinho, como um selinho, em público por Cay, ou de repartir um banho de espuma com a amiga em casa. Essas cenas são muito bem feitas e realmente mostram a amizade delas como sendo uma coisa verdadeira, sem malícia alguma.

Também no jogo de sedução que Cay faz com Vivian ela é sincera sobre suas intenções e sua sexualidade desde o começo, o que assusta a professora de início. Vivian começa o filme sob intenso estresse emocional por causa do divórcio, ela está com os nervos em frangalhos e isso fica evidente pela sua atuação. Mas aos poucos a amizade com Cay vai fazendo com que se solte, e quando as duas finalmente ficam juntas percebemos uma transformação na personagem que se reflete até na fisionomia dela, como pode ser percebido nas duas fotos abaixo, a primeira do começo do filme e a segunda quando as duas já estão juntas.

Acho que a diretora Donna Deitch lidou muito bem com o romance entre elas. O primeiro beijo é considerado um momento clássico do cinema lésbico, quando elas estão no carro e está chovendo. A cena de sexo achei particularmente bem feita, com um estilo diferente do que costumamos ver nesse tipo de cena. Foi feita com tomadas longas, sem trilha sonora nenhuma, só o som ambiente com vários momentos de silêncio e filmada durante o dia, ou seja, bem iluminada. O resultado é uma cena verdadeira e muito bonita.

A partir desse momento as duas compartilham uma nova intimidade que é muito bem retratada nas próximas cenas. São momentos bonitos entre duas amantes, que estão simplesmente aproveitando a companhia uma da outra, amando estar ali naquele momento. Acho que todas nós já tivemos essa sensação e adorei como o filme a apresenta.

Uma das únicas coisas que posso dizer que não gosto no filme é o ritmo lento da narrativa. A história demora a se desenrolar, os personagens são apresentados aos poucos, durante várias cenas, que, às vezes, me deixavam com a impressão de que poderiam ter sido melhor editadas. Mas daí fico com a sensação de que sou muito 'geração vídeo-game' [lembra que falei semana passada que sou fã de Matrix?], que quero a história apresentada de maneira muito dinâmica, com edição ousada, e que por isso não tenho paciência pra narrativas mais calmas. Gostaria da opinião de vocês a respeito: o que acham? Perdemos a sensibilidade para este tipo de história mais calma, ou o filme é mesmo demorado demais? Fora isso considero o filme muito bom, e acho legal conhecer os nossos clássicos, já que temos tão poucos.

Desert Hearts, ou Corações Desertos, como foi chamado no Brasil, é fácil de ser encontrado na internet e as legendas achei no AllSubs.

12 comentários:

Aranel disse...

Há uma pequena missão para você no blog “Na Ponta dos Dedos”.

Acessa e descubra em “8 Desejos de Amor”.

Aranel.

PS.: Amei o blog!!!! =))))

Anônimo disse...

Senti a mesma coisa que vc descreveu sobre o filme Desert Hearts, com relação ao filme The Girl. Pelo menos foi o que eu achei: um filme bastante lento.

E aí acabei dando outra dica de filme (risos).

Acho que vou te mandar um email com uma lista de filmes e seriados "lezzy", o que acha?

Abraços.
Mônica

Alma da Lua disse...

Parabéns pelo blog. Adorei.

lola aronovich disse...

Posso contar nas pontas dos dedos de uma mão os filmes lésbicos que vi. Mas lembro bem do primeiro: Go Fish. Pra mim foi tudo novidade! Eu não podia nem imaginar que lésbicas nutrem certa antipatia por mulheres bissexuais...
Sobre o ritmo dos filmes, apesar de eu ter quase o dobro da sua idade (tá , falta um pouquinho pra chegar ao dobro), como vejo montes de filmes, é impossível não ser afetada pelo ritmo de videoclip da maior parte das produções hollywoodianas. Então às vezes também perco a paciência com filmes mais paradões. Mas pra mim depende demais do clima e da história. Não gosto de filme que fica enrolando e que demora pra começar. Pode ser ritmo lento, desde que me envolva! (e sou muito ligada à trama. Aqueles filmes de arte que só mostram imagens desconexas não são pra mim). Essa é uma discussão interessante. Nossas percepções mudam. Outro dia revi um clássico noir que eu amo, Pacto de Sangue (Double Indemnity), e vi que não o amo mais tanto assim... Me pareceu datado. Toda aquela música pontuando toda a ação... Narração em off exagerando nos detalhes... Muito Hollywood anos 40. Mas o filme é o mesmo que eu vi 20 anos atrás. Foi a minha percepção dele que mudou.

Anônimo disse...

"Novidades no site Dykerama"

Leia: DAYKERAMA e as MULHERES
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/04/417633.shtml

ju disse...

oi, more, passei aqui pra comentar que ainda não li o post...
e que to me enrolando pra fazer os trabalhos de novo...
e que me arrependi de pedir pra você não entrar no msn...
e que eu te amo muito...
e que estou com saudades muitas...
e que tenho pensado umas coisas...

Queer Girls disse...

Rê,
Vamos lá...Ontem, fiz sessão dupla: Desert Hearts e Desejo Proibido.
Sobre Desert Hearts:
É um clássico mesmo!
Lindo! Prefiro até mais do que Quando a noite cai que é o favoritão das les. Não acho a narrativa lenta. Aí, acho que é da geração Matrix. Eu estou com 36 e acho que filme lento são os do Godard. Tá bom...rs! Os do Godard não são parâmetro para ninguém! Acho os personagens super bem construídos. Acho que a Cay é bem moderna para os anos 50. Em alguns momentos, acredito que o filme perde a temporalidade. E achei isso ótimo! Vc esquece que está nos anos 50. Tudo é meio árido no filme, menos Cay. A Vivian é a própria repressão indo embora. Se desmanchando...
Gosto demais!

Já Desejo Proibido é meu preferido! O roteiro da Anne Heche para a última história é so cute!!
A primeira é um soco no estômago. E a dos anos 70 é contraditória. O que as mulheres lutavam também as aprisionavam.

Hoje, vou ver Better Than Chocolate. Depois te conto!!

bjos,
Mari

VINCENZO GONZAGA disse...

Oi sou primo da Manu e adorei seu blog.beijo

LAC disse...

ESSE FOI O PRIMEIRO FILME LEZ QUE ASSISTI.É MARAVILHOSO !!!

Rosa Chisholm disse...

Baixei este filme e assiste na semana passada
Gostei muito...
Porém no final não se sabe se ela a acampanhou apenas até a próxima estação, ou até nova york.
Prefiro pensar que foram até nova york e lá continuaram juntas.
Muito bom Filme.
Eu recomendo

Liberdade Lez disse...

olá
comparado com filmes mais antigos, se passa muito rápido e com filmes mais recentes é realmente lento. sinto que a lentidão da narrativa é característica da década de 80, provocando até mesmo um certo suspense. Adorei o filme, realmente me surpreendeu um filme temático da metade dos anos 80 ser tão bem trabalhado e explorado. Um filme realmente ousado. Gosto de filmes que fluem de forma lenta como desert hearts e it's in the watter.

Luna Scath

Sol Mascarenhas Neves disse...

Li o post e comecei uma busca pelo filme. Acho difícil encontrar em locadoras, e tenho alguma dificuldade em baixar... vou pedir ajuda com uma amiga q saca tudo de baixar filmes.
Recomendo na mesma temática a série lésbica Lip Service.

Ahh, tenho um blog tb. Dancing Barefoot se quiser visitar ficaria imensamente feliz...! www.sujeitodoverbo.blogspot.com