01 maio 2008

"If These Walls Could Talk 2": 3 relacionamentos lésbicos em 3 épocas diferentes

Eu mencionei este filme no meu último post em relação à minha vontade de um dia engravidar, mas a história, ou melhor, as histórias são sobre muito mais do que isso. O filme se divide em três partes, cada uma numa década, todas sobre relacionamentos lésbicos, e todas se passando na mesma casa em um subúrbio anônimo.

A primeira parte é a mais lenta e depressiva. Se passa em 1961, quando Edith (Vanessa Redgrave) perde sua companheira Abby e tem que, além de lidar com a morte do amor de sua vida, aguentar as injustiças de viver numa sociedade que não reconhece seus direitos. Pra começar ela não pôde nem acompanhar Abby nos seus últimos momentos no hospital, porque, é claro, não era parente próxima.

Pra piorar, a casa que as duas ajudaram a pagar estava no nome de Abby, o que quer dizer que ficará de herança pro sobrinho banana que nem a conhecia direito, ao invés de para Edith, que durante anos considerou a casa como seu lar. Ela nem tem tempo de chorar pela mulher dela, precisa arrumar o lugar pra parecer o mais hétero possível, como se elas fossem só amigas... E é obrigada a ver a mulher do cara passeando pela casa com olhar de águia avaliando e já empacotando os móveis e objetos que quer levar.

É simbólico da intolerância desse período histórico, que logo no começo do filme Abby e Edith assistiam ao filme The Children's Hour no cinema, um dos únicos filmes a tratar do tema da homossexualidade nos anos 60, mas que em compensação termina com a protagonista interpretada por Shirley MacLaine se matando por não conseguir viver com esse sentimento. A sensação que fica desta primeira parte de If These Walls Could Talk 2 é de completa impotência face à uma sociedade intolerante e injusta.

A segunda parte é bem mais dinâmica, se passa em 1972, e agora quem habita a casa de Abby e Edith é um grupo de amigas feministas lésbicas que estudam na mesma universidade. Esta parte do filme retrata uma época de um feminismo um tanto quanto radical, por um lado temos o grupo de feministas da universidade, que quer expulsar as lésbicas por achar que a inclusão destas no grupo prejudica seus objetivos maiores de luta pelos direitos das mullheres como um todo.

Por outro lado, quando Linda (Michelle Williams) se apaixona pela butch Amy (Chloë Sevigny), ela tem que enfrentar um forte julgamento e preconceito das amigas feministas, que não compreendem porquê alguém ainda sente necessidade de vestir roupas masculinas para se identificar como lésbica. Temos que lembrar que foi nessa fase que as feministas mais radicais eram contra até a idéia de prazer por penetração, e diziam que qualquer uso de "brinquedos" para esse fim era um resquício da mentalidade patriarcal dominante. Já vi alguns documentários falando deste período controverso e de toda essa discussão interna entre as ativistas.

Enfim, assunto complicado eu sei, mas o filme ilustra bem até que ponto o radicalismo dessa época foi injusto. As amigas de Linda encaram as butches do bar lésbico local como figuras dinossáuricas, resquícios de uma época patriarcal em declínio, onde a mulher lésbica teria que necessariamente se identificar como homem para fazer sentido de sua sexualidade.

Elas implicam com as roupas de Amy, fazem-na tirar sua gravata, e a incomodam até que ela concorda em vestir uma blusa mais feminina. Um comportamento intolerante que não combina com o discurso liberal, e é notado apenas por Linda, que aos poucos supera o próprio preconceito e aceita o fato de estar atraída por Amy, do jeito que ela é. If These Walls Could Talk 2 merece o mesmo mérito de Bound, por apresentar a identidade butch de forma sensual, como é o caso de Amy no filme. No entanto, ao mesmo tempo que faz isso com a Chloë Sevigny, todas as outras butches do bar são horrendas, puros clichês ambulantes, mas pelo menos a personagem dela consegue fugir desse estereótipo e é ela que tem o papel mais importante nesta parte da história.

Um detalhe interessante é que uma das amigas de Linda, Jeanne, é interpretada por Natasha Lyonne, que também interpretou a protagonista de But I'm a Cheerleader. Neste último as duas também representavam amigas, só que Michelle Williams fazia a hétero que ajuda a família de Lyonne a mandá-la para o acampamento anti-gay.




A terceira parte se passa no ano 2000, com o casal Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) e sua tentativa de engravidar. Enquanto que as duas primeiras partes lidam mais com influência e preconceito externos nos respectivos relacionamentos, esta última parte lida mais com as questões íntimas do casal. A história gira apenas em torno das duas e das dificuldades de se ter um filho em uma relação lésbica.

Por ter essa característica mais intimista, a história é bem tranquila, com algumas cenas cômicas, e sem muito drama. Temos a oportunidade de ver vários momentos do casal como o ritual de ir ver as crianças brincando no parque e sonhar com o filho delas.

Na verdade eu sempre torço um pouco o nariz para enredos sobre gravidez e lésbicas, porque é muito fácil cair em clichês e realmente não tenho paciência pra ver mais uma batalha judicial ou mais uma briga por esperma ou algo nessa linha. Não vou entrar muito nisso aqui, acho que vou falar mais desses problemas quando comentar Chutney Popcorn, que realmente foge desses estereótipos, mas vale dizer que If These Walls Could Talk 2 lida bem com a temática e até que evita os clichês mais comuns desses enredos.

Sim, elas procuram esperma. Mas isso é tratado com bom-humor e os diálogos retratam bem a frustração de não poder fazer um filho apenas do amor de duas pessoas. E ao invés de cair na armadilha de dessexualizar mães lésbicas [muito comum e frustrante], o filme mostra de maneira super saudável a vida sexual delas e como é afetada por essa empreitada.

Aliás, esse é um ponto forte do filme como um todo, tem várias cenas de sexo bem feitas. Tudo bem, eu admito que sou suspeita pra falar, já que eu adoro a Michelle Williams, a Chloë Sevigny, e AMO a Ellen DeGeneres... mas mesmo que não fosse fã delas eu ainda consideraria o filme muito bom.

If These Walls Could Talk 2, Desejo Proibido como foi chamado no Brasil, foi produzido pra HBO em 2000 e eu tive a sorte de comprar o DVD numa promoção do Submarino por R$9,90... ok, podem morrer de inveja.... Mas é fácil achar ele pela internet, e as legendas podem ser encontradas no opensubtitles.com

22 comentários:

lola aronovich disse...

Oi, Rê! Então, vc viu esse The Children's Hour? Acho que nunca tinha ouvido falar do filme antes de The Celluloid Closet.
Domingo passado vi Baby Mama, que foge de qualquer tema lésbico como o diabo foge da cruz. Fiquei pensando como não há filme mainstream sobre um casal de lésbicas querendo engravidar. Confere ou estou esquecendo de algum?
www.escrevalolaescreva.blogspot.com

Renata disse...

Eu ainda não vi The Children's Hour, mas to louca pra ver faz um tempão já... a única coisa me segura é que não gosto tanto desses filmes trágicos sobre gays... mas pra fins de pesquisa acho que dá pra suportar, já que ele tem uma grande importância histórica.
E também estou morrendo de vontade de assistir Baby Mamma, pelo que tenho lido não tem nada a ver com lesbianismo, mas tem bastante subtexto... "O nosso povo" adora essa coisa de subtexto... às vezes é a única coisa que salva né? Se bem que neste caso, a Tina Fey é desculpa suficiente pra ver o filme.
E mainstream sobre gravidez lésbica acho que não tem mesmo... até porque são raros os filmes mainstream sobre lésbicas anyway... ainda não tivemos o nosso Brokeback Mountain...
o que tem já bastante são histórias sobre gravidez lésbica nos seriados e em filmes para a televisão.

Um abraço Lola,
Renata.

Alice disse...

Eu tenho esse filme em DVD, e acho muito interessante a forma como foi mostrada a mudança na percepção da homossexualidade nas diversas gerações.
E antes mesmo de ela fazer sucesso, eu descobri a cantora Dido por causa da música que toca na cena de amor da Ellen com a Sharon.

Eu tenho uma videoteca gay considerável aqui em casa, já vi que serei freqüentadora assídua do seu blog.

Alice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Queer Girls disse...

Rê,
Eu amo esse filme!!!
E como vc adoro a Cloe e a Ellen. Acho a segunda história bem didática. A primeira é um medo que paira sobre todas nós, né? E a última é como um episódio das antigas séries da Ellen
É um dos meus preferidos pq apesar dos poucos clichês, é muito inteligente e sensível!!
bjos!
Mari

Renata disse...

Oi Alice,
eu também adoro essas percepção histórica da coisa, e o filme procura mostrar isso de forma bem positiva, mostrando os avanços em relação à essa aceitação.
ps: também não consegui achar as legendas pra Celluloid Closet, já tinha procurado antes e até agora nada... mas se eu achar te dou um toque, pode deixar! ;)

Mari,
eu também considero esse filme dos meus favoritos, mas não consigo decidir qual das hitórias gosto mais, se da segunda ou da terceira... as duas têm coisas que me chamam a atenção e ao mesmo tempo são tão diferentes... realmente não sei....
e que saudades da Ellen como atriz...

Um abraço meninas!

BF. disse...

Passando para retribuir o prazer e a honra de sua visita-e seu comentário-em meu espaço. Feliz momento, que me deu a oportunidade de conhecer um blog de conteúdo tão pertinente e atraente.

Parabéns pelo excelente trabalho.

Se me permitir, gostaria de fazer um post-chamada pra o seu espaço.

Aguardo o seu retorno.

Abraços.

Renata disse...

Muito obrigada pelos elogios Butch F.
Eu adoraria ser mencionada no seu espaço. Seria uma honra, já que acompanho seu blog há algum tempo!
Um abraço,
Renata.

Alice disse...

Renata, eu apaguei o comentário porque acabei encontrando a legenda em inglês. Adorei o documentário, achei muito interessante ver como muitas vezes as situações gays eram disfarçadas nos filmes.

Em tempo: só agora me dei conta de que vc é de Floripa. Estive aí no Carnaval e adorei, quero voltar em 2009.

Lac disse...

Muito bom o filme desejo proibido.
Adorei seu blog !!!

Renata disse...

Eu queria comentar Celluloid Closet aqui no blog, e outro da mesma linha só que um pouco mais atual, o Fabulous! The Story of Queer Cinema, mas nenhum dos dois tem legendas em português e estou tentando manter essa regra por enquanto.
E quanto vier a Florianópolis vamos combinar de sair e tomar uma cerveja! A Ilha fica gay no Carnaval....

Lac,
obrigada pela visita!

Um abraço,
Renata.

Anônimo disse...

Rêeee!!!
A Ilha não fica gay...
A Ilha É GAY!!!
Esqueceu?!
....rsrs....
BJo
Juh "Turtle"

Passageiro disse...

Oi Renata.
Seu blog é ótimo, vou recomendar aos meus amigos e amigas.
Gostaría que, quando você tiver um tempinho, fizesse uma listinha de uns 10 filmes que realmente lhe impressionaram com temática de relacionamentos lésbicos, não pela estética em sí, mas pela natureza dos relacionamentos, entende?
Tipo "Notas Sobre Um Escândalo" ou "As horas".
Pra eu poder assistír com meu nenezão, mostrar pra ele como são as coisas entre meninas...
Bj, parabéns pelo blog.

lola aronovich disse...

Oi, Rê! Coloquei um comentário no seu post sobre "But I'm a Cheerleader".
Agora, como a gente vive frequentando o blog uma da outra, que tal em incluir nos seus links? Eu só não te incluí ainda porque vc não atualiza o blog com tanta frequência, mas quem sabe eu colocando um link vc se sente na obrigação moral de fazer isso? Não sei se no seu blogroll (é assim que se chama?) vc só inclui blogs com temática lésbica. Anyway, vc sabe que sou feminista...

lola aronovich disse...

Rê, deixei um outro comentário no seu post sobre "But I'm a Cheerleader". E seu nome já tá no meu blogroll. Não tem nada a ver isso de me sentir na obrigação de te incluir. Se eu vejo um blog toda semana, e gosto, por que não incluí-lo?
Hoje pus um post no meu blog que fala bastante de lésbicas. Não de uma forma muito agradável, porque é de algum infeliz da direita cristã que começa o site dele dizendo "Beware of feminists, many are lesbians". Ha ha! Sou só eu que acha que esses extremistas AJUDAM a causa, tanto das lésbicas quanto das feministas?
www.escrevalolaescreva.blogspot.com

Huntress disse...

Nossa, eu ainda não vi, mas pelo o que você escreveu fiquei com muita vontade de ver esse filme... Eu até hoje nunca vi muitos filmes com temática homo, da até pra contar nos dedos quantos eu consegui ver.. XD
Assim que a internet daqui cooperar, eu vou dar uma pesquisada na internet...

Renata disse...

Passageiro,
vou pensar com carinho no seu pedido de lista... eu procuro não classificar tanto porque estou o tempo todo assistindo novos filmes e mudando de opinião sobre meus favoritos... mas pode ter certeza de que se escolhi fazer um post sobre um filme é porque realmente gostei dele.

Huntress,
eu e minha namorada éramos assim também... quase nunca víamos nada temático... mais por preguiça que outra coisa... pra ter uma noção até The L Word a gente estava desatualizada... mas com um pouco de paciência e [sim, é importante] uma internet que coopere a gente retificou isso em pouco tempo.

Um abraço!

mutante disse...

oi
adorei seu blog, iria ler tudo se não tivesse que trabalhar,rs
fiquei super interessada nesse filme e noutros que vi aqui, vou ver se acho, bom sería se tivesse no submarino ainda, mas aí é querer demais, rs
tb adorei a lista de desejos! Principalmente a parte de beijar a namorada na frente da parentada toda! rsrs
Beijos moça!
posso add vc em meus favoritos?

lola aronovich disse...

Rê, me envolvi numa polêmica com o Leo, do Do Armário, sobre o beijo gay no final da novela. Aparece lá e deixa a sua opinião? Please?

Renata disse...

Oi mutante!
que bom que gostou do blog! Os nossos filmes são difícies mesmo de encontrar, mas com um pouquinho de esforço a gente acha eles em algum canto da internet.
pode sim me adicionar, fico honrada!
um abraço,
Renata.

fran disse...

bom...adorei o blog..ótimo msm..
ja q AMO cinema e procuro sempre saber d td q diz à respeito...
mas comentei sobre esses post pq eu tbm comprei esse filme por R$9,90 e acho ele mto bacana!
^^
parabéns pelo Blog!
prometo aparecer mais vzs por aki!

Olimpia disse...

OIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Como eu faço para comprar Desejo Proibido (If These Walls Could Talk)
estou querendo comprar a um tempão.
Obj.......
oly_aragao@hotmail.com