10 maio 2008

"This Film Is Not Yet Rated": a "censura" do sistema de classificação de filmes

Um documentário pra variar um pouco. Este trabalho entra no intrincado sistema de classificação de filmes norte-americano, aquela complicada distinção entre os filmes classificados como:
G (General Audiences, para todo o público);
PG (Parental Guidance, sugere orientação dos pais);
PG-13 (Parental Caution, alguns materiais podem ser inapropriados para crianças menores de 13 anos);
R (Restricted, nenhuma criança de abaixo de 18 pode ir sem estar acompanhada de um pai);
NC-17 (No Children 17 or under, menores de 18 não podem ir, ponto).

O que isto tudo tem a ver com lésbicas eu já ouço minhas leitoras se perguntando... Simples, o sucesso comercial do filme e o tipo de distribuição que ele terá está muito ligado à como ele é classificado, e os filmes com temática homossexual sofrem discriminação por serem quase sempre taxados como NC-17, limitando em muito o público permitido nas salas de cinema e na maneira de promover o filme.

Pode parecer meio burocrático demais para ser um assunto interessante, mas o diretor Kirby Dick consegue mostrar tudo isso bem melhor do que eu. Ou seja, de uma maneira bem divertida e fácil de acompanhar, começando já pela animação inicial que explica o que é cada classificação.

Uma das primeiras entrevistadas é Kimberly Peirce, a diretora de Boys Don't Cry, que relata como foi a experiência de ter seu filme classificado como NC-17 e como um dos motivos para isso foi o orgasmo de Lana, a personagem de Chloë Sevigny, que os classificadores acharam que foi "muito longo".

Como feminista assumida preciso dizer que logo de cara já adorei o documentário só pela resposta de Peierce: ela fala que no orgasmo de Lana a câmera está focada somente no rosto dela, toda a experiência do sexo é retratada a partir do prazer dela ao receber sexo oral de Brandon, o personagem de Hilary Swank, e que isto visto do ponto de vista de uma indústria predominantemente masculina e predominantemente voltada à um público masculino é muito inquietante. A cena retrata somente o prazer feminino, que é em si só visto como ameaçador. Para Peirce, tudo o que é considerado ameaçador, ou não-familiar, acaba classificado como NC-17.

Há também uma discussão sobre o fato de violência ser muito mais tolerada pelos classificadores do que sexualidade. Isso fica claro em Boys Don't Cry: nenhum comentário foi feito sobre o fato de Brandon levar um tiro na cabeça, que é uma cena bem explícita e violenta, mas duas ressalvas foram feitas sobre a cena do orgasmo de Lana.

Basicamente é um sistema moralisma e puritano. Em teoria o sistema de classificação foi criado para "proteger as crianças", para orientar os pais sobre o que os seus filhos estão assistindo nos cinemas. Então um grupo de pais anônimos se reúne na Califórnia todos os dias para classificar quais filmes são nocivos ou não para as mentes das crianças e adolescentes do país. Não há um método claro, ou um conjunto de regras que ditem o que diferencia uma classificação da outra, isso fica inteiramente a critérios desses pais anônimos, que arbitrariamente decidem quais filmes são próprios em um processo altamente sigiloso.

É nesta falta de critério claro que os filmes com conteúdo homossexual são geralmente discriminados. O documentário compara vários filmes classificados como NC-17 que tinham cenas com conteúdo gay e outros com o mesmo conteúdo hétero, mas que receberam a classificação R ou até PG-13. Jamie Babbit, diretora de But I'm a Cheerleader, fala de como seu filme quase foi classificado como NC-17 por ter uma cena de uma garota se masturbando, completamente vestida, por cima da calcinha, vista de longe, e lembra que na mesma época American Pie estava sendo lançado e continha várias cenas bem mais explícitas de sexo e masturbação, vide a cena com a torta mostrada até no trailler, e foi classificado como R. Eis alguns outros exemplos deste tipo de diferença entre a classificação de filmes gays e héteros:










No entanto não só os filmes com temática homossexual são discriminados, a maioria dos filmes independentes acaba também sofrendo com essa classifcação arbitrária, já que é um sistema que favorece os grandes estúdios. E isso é um ponto bastante tratado no documentário, sobre como de início surgiu o Production Code nos Estados Unidos (uma lista de regras sobre o que se podia ou não fazer ou falar nos filmes que regeu as produções até meados dos anos 50) e depois o Sistema de Classificação o substituiu, mas com o mesmo intuito de proteger os grandes estúdios e assegurar o público de que o cinema americano continuava tão "limpo" quanto antes.

O contexto histórico e político dessas épocas foi muito importante, e o documentário considera este fator. De novo a pergunta: o que isto tudo tem a ver com lésbicas e gays? A maioria absoluta dos filmes que apresentam homossexualidade [de maneira positiva] vêm de produtoras independentes, que sofrem tremendamente com este monopólio institucionalizado dos grandes estúdios (controlador de cerca de 90 a 95% de toda produção de mídia nos Estados Unidos).

Na sua maior parte é um documentário bem envolvente e eu como fã incondicional de documentários gostei bastante, ainda mais pelo grande número de entrevistados do cinema queer e alternativo.
Só uma coisa não me agradou muito: o diretor Kirby Dick (esse aí embaixo) contratou uma dupla de sapas como investigadoras particulares para tentarem juntos descobrir a identidade secreta das pessoas responsáveis pela classificação dos filmes e essas partes do documentário acabam atrasando um pouco o andamento do filme. É uma meta-história na verdade, onde ele retrata o processo de classificação do próprio documentário, como recebeu um NC-17 e tentou inutilmente apelar junto à Comissão de Classificadores. Realmente não gostei muito desses trechos do filme, mas as outras partes compensam e no geral ele é bem informativo.


O documentário é bem atual (2006 ainda é considerado atual?) e fácil de ser achado pela internet. As legendas estão disponíveis no opensubtitles.

15 comentários:

Huntress disse...

É realmente triste essa história sobre a classificação.. Eu ja havia notado que eles tinha uma preferência pra permitir filmes violentos do que filmes gays.. Se já é difícil encontrar os filmes, vê-los, com essa censura fica mais difícil ainda =/

lola aronovich disse...

Esse filme é ótimo! Eu vi ano passado. Inclusive, escrevi uma notinha sobre ele no final de minha crítica a "Bússola de Ouro":
http://escrevalolaescreva.blogspot.
com/2007/12/crnica-de-cinema-bssola-
de-chumbo.html
(tem que colocar tudo junto).
Não me lembrava que a diretora que reclama da (falta de) censura à American Pie era a mesma de Cheerleader! Mas também, antes de ver o filme, eu nunca tinha ouvido falar nela (bom, só li que vc a chamou de celesbian). É um absurdo. Aquela cena de American Pie do menino transando com uma torta tava até no trailer! E, claro, todo mundo sabe que os americanos, puritanos como são, têm muito mais problemas com cenas de sexo que com as de violência. Aliás, não só "cenas de". Eles estão acostumados com violência na vida real tb.
O Adrian Lyne reclamou da falta de distribuição pro seu "Lolita", em 97. Ele disse que se tivesse feito um filme em que uma menina de 13 anos é comida por canibais, não teria problema. Como a história tem sexo, teve problemas com a censura.
Anyway, fiquei muito envolvida com o doc "This Film is not Yet Rated" (que teve polêmica com o poster e a capa do DVD, que objetificava a mulher). Gostei de tudo, inclusive das duas investigadoras. Acho um filme obrigatório pra todo mundo que gosta de cinema.
(e ótimas as fotos que vc colocou pra ilustrar a diferença entre censura pra filmes straight e gay. Onde encontrou essas fotos?).

Alice disse...

Estou lendo um livro muito interessante chamado "Bastidores de Hollywood" que fala justamente sobre a influência dos gays no cinema americano. Lá é citado o primeiro "código de conduta" para o que os estúdios poderiam ou não mostrar em seus filmes, e esse código foi motivado em boa parte por causa das cenas com insinuações gays nos filmes. Não é de se estranhar que isso ainda perdure, agora sob a forma das classificações.

Renata disse...

oi Huntress,
ainda bem que pelo menos pra nós do Brasil esse sistema não nos afeta tão diretamente... é pior pros diretores independentes que têm seu sucesso e criatividade limitados. Quem sabe se eles pudessem lançar seus filmes com mais liberdade, e fizessem mais sucesso comercial por lá, os mesmos fossem mostrados em salas de cinema por aqui... Ou quem sabe mais locadoras escolhesssem comprar os dvds... Mas isso é um sonho bem longinquo acho... Graças a Deus pela internet!

Oi Lola,
as fotos eu tiro do filme mesmo.... ou pego através do Printscreen, e colo no Photoshop, ou no programa do Zoomplayer que tem já uma função pra capturar um frame que manda como imagem direto pros Meus Documentos.
Eu acho necessário fazer isso, e dá um certo trabalho, porque eu quase nunca acho fotos boas dos filmes na internet. Ou eu quero mostrar um momento específico do filme que não tem nas imagens do Google. No caso do This Film Is Not Yet Rated acho que faz uma grande diferença poder mostrar exatamente o que (pelo menos pra mim) é o ponto alto do documentário...

Alice,
o tal do Production Code foi uma das coisas mais ridículas que já vi... tinha regra pra tudo... e foi por causa dele que os gays praticamente sumiram das telas durante algumas décadas... com a exceção dos chamados 'sissies' que eram permitidos, justamente por serem estereotipados, inofensivos, e dessexualizados... mas não foram só os gays e lésbicas que sofreram com essa censura explícita do Production Code, todas as minorias ficaram em segundo plano na chamada Era de Ouro do cinema...
Hoje em dia os diretores têm que enfrentar outras censuras menos explícitas...

Abraço meninas!
Renata.

Queer Girls disse...

Rê!
Tudo bem?
Ontem, depois de tempos procurando, consegui uma cópia do "Servindo em Silêncio" com a Glenn Close. Vc já viu??
É cópia de VHS. Nunca consegui encontrar esse filme em DVD nem em lojas, locadoras, saldão! De repente, uma amiga conseguiu! Peguei a cópia ontem. Depois que assistir, te digo o que achei!
bjão,
Mari

Ju disse...

Rê,

você acha que, no fim das contas, o problema de distribuição de um filme com classificação NC17 nos EUA e seu conseqüente impacto no sucesso comercial do filme lá acaba (ultimately)se refletindo na baixa distribuição desses filmes no Brasil? Você acha que é por isso que é tão difícil encontrar esses filmes em nossas locadoras ou mesmo encontrar legendas para filmes disponíveis na internet? Você falou sobre isso aqui nos comentários, mas no fundo dessa pergunta há uma preocupação relevante: será que nossos sistemas tácitos de censura não são os reais responsáveis por essa diminuta oferta frente a tanta procura? Que é pior, censura evidente ou oculta?

Um beijinho, lindinha!

Débora disse...

Que maravilha ter encontrado esse blog... ótimo trabalho!!!

Srtª.Ozbourne disse...

visto com frequencia o site uva na vulva, mas so hj eu descobri esse link e axei tri interessante...

gostaria de saber c vc ja viu um filem lesbico que passo a muito tempo na globo eu fikei loka...se nao me engano o filme cham de que vale aum avida ou algo assim...
Foi meu primeiro ssim dizer contato com esse mundo lesbico lindo rsrs...poko me recordo assiste baixinho com medo de meus avso ouvir... mas era historia de uma joven medica que conheceu um samulher no mercado bm mais madura que ela.ela tiveram um bb mas a mae do bb morreu e ai foi um abriga para ter u bb di volta ...algo assim.. c vc tiver ouvindo fala ou ja viu.plix em diz aonde baixar ou compra u dvd ou fita.. e muito importante para min.e um aliçao de determinçao linda e luta pelo assumir.

lindo seu blog... bjux

marina disse...

Olá !Descobri este blog e adoro!
Parabéns pelo trabalho !

Rebs disse...

Valeu a indicação. Vou procurar já!

E adorei o blog, parabéns!

Virei sempre por aqui!

Renata disse...

Oi Mari,
não ainda não vi Servindo em Silêncio, me avisa se for bom que eu tinha curiosidade sobre esse filme.

Ju,
bom... não sei exatamente como funciona a distribuição dos filmes no Brasil, mas sei que quanto menos sucesso ele tiver por lá, menos probabilidade vai ser de ser distribuído por aqui. Na verdade eu acho que muitos dos filmes LGBT não chegam aqui simplesmente por não estarem no radar de ninguém que tome essas decisões. Go Fish por exemplo fez bastante sucesso por lá, mas mesmo assim não veio pro Brasil.
Uma das coisas que nos afeta sobre o sucesso deles lá é que quanto mais gente souber que o filme existe, mais chance teremos de ter legendas em português pra esse filme.
Percebo que minha resposta ficou ambígua... mas realmente acho que é uma conjuntura de fatores contra os filmes LGBT.

Srta. Ozbourne
acho que o filme que você se refere se chama "What Makes a Family" com a Brooke Shields e Cherry Jones. É um filme feito pra tv, e eu vi num canal da tv a cabo faz tempo, mas pelo que li por aí tem disponível nas locadoras. Se você não achar nas locadoras tem no eMule já legendado em espanhol, infelizmente não achei nenhuma legenda em português...

Débora, Marina e rebs,
que bom que gostaram do blog! Espero que continuem aprovando daqui em diante!

Um abraço,
Renata.

Three Love's disse...

me indicaram e... realmente, esse blog é ótimo; e cumpre perfeitamente seu papel.

b.e.i.j.o.s.

Anônimo disse...

Oi! Em primeiro lugar queria dizer que adorei o blog, pena que você não atualize com mais freqüência :o)
Em segundo, vim agradecer a dica do Fun Home. Eu nunca havia lido uma história em quadrinhos para adultos, e fiquei encantada! Estou até pensando em encomendar da Amazon os livros da série DTWOF... Tem outras graphic novels legais assim?
Beijos

Renata disse...

Three love's,
que bom que gostou do blog! E adorei ouvir que estão indicando meu blog pra outras pessoas já!

Anônimo,
Juro que tentarei atualizar com mais frequência, só não o faço porque gosto de fazer com muita calma os posts, e isso me toma certo tempo. Adorei que você seguiu a dica do Fun Home e gostou do livro! A Alison Bechdel é realmente um gênio, e tenho boas notícias em relação à ela: está escrevendo outra graphic novel biográfica, sobre sua vida amorosa, que deve sair no final de 2009 nos EUA. Aqui não sei, mas acho que não demora tanto, já que a Conrad já viu o sucesso do primeiro livro dela.
DTWOF você pode ler online a maior parte do acervo através do link do lado do blog, isso se você souber ler em inglês, porque ainda não tem nenhum tradução pro português, infelizmente.
Outro quadrinho que eu adorei ler se chama Strangers in Paradise, ou Estranhos no Paraíso em português. Em inglês você pode baixar a coleção completa, em português dá pra comprar algumas edições pelo Submarino e quem sabe outras lojas especilizadas. É um quadrinho com um pouco de ação e muita tensão sexual entre os três personagens principais... o mais legal é a paixão platônica [às vezes platônica, às vezes nem tanto] que a personagem lésbica, Katchoo, sente pela hétero, Francine.
Eu adorei ler esse, vale a pena.
Um outro que li todo e gostei muito foi Y: The Last Man, mas só tem em inglês por enquanto.

Um abraço,
Renata.

Anônimo disse...

Pois é, eu já sabia sobre o próximo livro da AB, mas 2009 está tãaaoo longe... e pelo que li, ela levou 7 anos para terminar o Fun Home, então sei lá se vai conseguir cumprir o prazo...rs
Obrigada mais uma vez, e já estou indo atrás do Estranhos!
Beijos