Escolhi falar deste filme na verdade como um gancho para relatar minha experiência como delegada na Conferência Estadual GLBTT de Santa Catarina, mas vamos com calma, primeiro o filme.Better Than Chocolate é um clássico do cinema lésbico, uma comédia romântica um pouco previsível [como todas as comédias românticas conseguem ser] mas também bastante divertido e com personagens bem variados e interessantes. A produção canadense de 1999 conta a história de Maggie (Karyn Dwyer), uma lésbica assumida mas que ainda esconde sua sexualidade da mãe e irmão. A farsa fica mais difícil de manter uma vez que a mãe se separa do marido e resolve ir morar na casa da filha, que na verdade nem casa tem, está dormindo no sofá da livraria lésbica onde trabalha.
Maggie acaba arranjando um apê temporário, de uma mulher que dá aulas de educação sexual e
tem vibradores e dildos espalhados por todos os cômodos. Claro que isso acaba gerando várias situações cômicas, quando a mãe e o irmãos tropeçam pelos dildos na casa, ou abrem um armário com caixas etiquetadas "camisinhas" e "lubrificantes" e fingem que não vêem. Até achei meio engraçado da primeira vez que vi o filme, mas agora penso que é um pouco piada pronta demais.De qualquer forma, a melhor cena relacionada a essa situação é quando a mãe dela encontra por acaso uma caixa cheia de vibradores e dildos escondidos embaixo da cama e resolve experimentar um deles... impagável.
O romance fica por conta da relação de Maggie e Kim (Christina Cox, a melhor atriz no filme na minha opinião e uma favorita das lésbicas), que fiéis aos estereótipo se mudam juntas ainda no primeiro encontro. A química entre elas é fenomenal, e as cenas de sexo [sim, cenaS de sexo, porque o filme tem várias, uma verdadeira exceção, e muito bem vinda] são das melhores do meu acervo. Inclusive mencionei a cena de sexo onde elas usam tinta e fazem um quadro com seus corpos em outro post como sendo um dos meus oito desejos antes de morrer: unir sexo e arte. Outra memorável acontece no banheiro da boate... vamos lá meninas, admitam... familar, certo?Uma personagem interessante na história é a transgênero Judy [eu utilizo o termo transgêreno aqui, em vez de travesti ou transsexual, porque é como ela se declara] que é apaixonada pela dona da livraria, a butch Francis. Esse relacionamento é um que eu gostaria de ver mais explorado, porque realmente é uma coisa que não vemos muito no cinema queer. Já vi bastantes documentários a respeito, mas filmes poquíssimos.
Judy assume a identidade de gênero feminina e, enquanto mulher, se ve atraída por outra
mulher, uma lésbica: exatamente o tipo de situação que nos leva a refletir e desconstruir conceitos culturalmente enraizados, nos leva a separar identidade de gênero de sexualidade. O problema dentro do filme é que isso é feito de maneira um pouco didática demais pro meu gosto, quase que catequizando o espectador através de melodrama. Mas sendo este um assunto ainda tão delicado, talvez um pouco de didática demais não seja assim de todo mal. Destaque pra cena onde ela canta na boate a música "I'm not a fucking drag queen", uma das melhores do filme.
Um ponto forte de Better Than Chocholate pra mim é que consegue abranger várias expressões de sexualidade e identidade. Além dos pontos já citados, ele não deixa de lado nem a bissexualidade e tampouco a heterossexualidade. É claro que o foco principal é a relação homossexual entre Maggie e Kim, mas diferentemente de outros filmes com a mesma proposta ele não se limita a isso. Outra funcionária na livraria, Carla, é bi e acaba se envolvendo com o irmão de Maggie, Paul, que é heterossexual, e a cena de sexo entre eles é bem interessante também.Há ainda um sub-enredo sobre liberade de expressão, censura, obscenidade e arte, que se inicia quando os livros com temática lésbica são detidos na alfândega e confiscados por serem taxados como obscenos, uma história livremente baseada em fatos reais. Os protestos e recursos são até interessantes de acompanhar, mas esta parte da história também peca por ser didática em excesso.
Resumindo, o filme tem alguns probleminhas mas no fim das contas é um ótimo programa pra assistir com as amigas, namorada ou amigos e amigas hétero. As legendas em português estão disponíveis no opensubtitles e o filme é bem tranquilo de achar pela internet, por ser um favorito das lésbicas.
Conferência GLBTT de SC
Agora às notícias mais pessoais.... Semana passada participei como delegada na Conferência Estadual GLBTT daqui de Santa Catarina e foi um dos programas mais divertidos e interessantes dos últimos tempos pra mim [na foto embaixo sou eu e minhas amigas também representantes sapas de SC, eu sou a segunda da esq. pra dir.]. Aprendi muita coisa sobre sexualidade e identidade de gênero e isso me levou a refletir um pouco sobre como quando a gente se resolve às vezes dá o assunto por encerrado. Sim, sou lésbica e muito bem resolvida com isso, mas há todo um escopo de expressões de sexualidade por aí, e somando-se à isso identidade de gênero... muito o que pensar...
Aprendi bastante sobre políticas públicas e sobre como pela primeira vez na história um governo teve a iniciativa de convocar uma conferência GLBTT, para junto com a comunidade decidir essas políticas que entrarão em vigor nos próximos anos. Sem dúvida é um passo histórico e estou bastante otimista em relação a ele, acho difícil que todos os objetivos estabelecidos pela Conferência sejam alcançados na sua totalidade, mas acredito que daremos avanços importantes.
É claro que me diverti horrores também, porque ninguém é de ferro, e conheci muita gente interessante. Como descrever a experiência de ficar tomando cerveja e tocando violão até altas horas no meio de gays, lésbicas, bis, transsexuais, travestir e héteros? Coisa única. Quem sabe essa relação com a diversidade seja algo um pouco mais comum. E quando digo isso não falo só do mundo heterossexual não, eu vejo que nós lésbicas por exemplo também temos a tendência de ficarmos segregadas, só entre nós.
Talvez seja esse isolamento que nos leve a não sermos tão ativas na militância pelos direitos LGBT. Na reunião para escolher quem representaria SC na Conferência em Brasília [eu fui uma das contempladas!] ouvimos vários relatos de pessoas que foram à conferências em outros estados e disseram que a representatividade lésbica é pouquíssima. Meninas, precisamos participar mais da esfera política e militante, precisamos lutar pelos nossos direitos também. Afinal, todas nós sofremos com preconceito e por não ter os mesmos direitos. A discussão desses assuntos na nossa comunidade lésbica é muito grande, estamos sempre conversando e debatendo sobre igualdade e aceitação, então esta é a nossa chance de realmente fazer alguma diferença em relação a isso tudo.
Até então eu nunca tinha participado de nada do gênero, e preciso dizer que a experiência foi ótima. Então fica aí o meu recado meninas, vamos tentar participar mais ativamente desses encontros, vamos ver se aumentamos o número de lésbicas na militância. E podem deixar que eu escrevo como foi a Conferência em Brasília aqui no blog também.












