15 novembro 2009

Itty Bitty Titty Committee: feminismo longe dos dramas do armário

Resolvi fazer esse post sobre um filme que não lida nem com se assumir e nem com se assumir para os pais, o que é raro no universo de filmes LGBT. Às vezes parece que só esses dois momentos são importantes na nossa vida. Pensem bem, temos bastantes filmes e séries que lidam com se assumir ou com se assumir para os pais, ou com os dois. Mas quantos trabalhos que retratem lésbicas existem que não tratam nem de uma coisa nem de outra?

Claro que se assumir é um grande marco na vida de toda lésbica, mas nossa vida é mais rica do que sair do armário e quase não vemos esse tipo de representação.


The Itty Bitty Titty Committee (2007) passa longe disso, é um filme sobre feminismo e militância. A personagem principal é jovem, tímida e um pouco ingênua, mas já passou por todas essas crises de assumir. A família dela a apoia e inclusive convida a namorada dela para um casamento na família. O problema de Anna (Melonie Diaz) não está em ser ou não ser lésbica, ou de ser ou não ser lésbica abertamente. O problema dela é a solidão.

Ela começa o filme tendo recém levado um pé na bunda da namorada, que deixa mensagens horrorosas na secretária eletrônica pedindo os cds de volta e proibindo-a de ver as amigas que compartilhavam quando estavam juntas. O trabalho dela é um saco e ela não conseguiu entrar na universidade que queria. Em resumo, está na fossa total.

As coisas mudam quando ela conhece Sadie (Nicole Vicious), uma menina (sempre começa assim né?) que está pichando o lugar onde Anna trabalha, uma clínica de cirurgia plástica. Era tudo que ela precisava, uma bad girl pra apimentar as coisas um pouco. Claro que ajuda um monte a delinquente em questão ser super gostosinha e ter aquele charme que só as bad girls sabem ter (vocês sabem do que eu estou falando, não adianta negar). Não precisou convidar duas vezes para Anna ir para o mau caminho.

Ela se junta a um grupo de feministas radicais chamado "c(i)a", sigla que quer dizer "clits in action", ou "clitóris em ação" em português, que comete variados atos de vandalismo em nome da emancipação da mulher perante a sociedade misógina e opressora. Ela começa a ler textos feministas, pinta o cabelo, picha as paredes do quarto, e se rebela em geral contra o casamento da irmã e contra as práticas do chefe cirurgião plástico. Mas a vida de militante feminista radical é mais do que piquetes e demonstrações, Anna se envolve com a bad girl Sadie e bagunça toda a estrutura interna do grupo (ok, essa parte é bem previsível).


O filme foi dirigido por Jamie Babbit, que já teve outro filme comentado no Oráculo (But I'm a Cheerleader). Na verdade, já naquele post eu havia prometido falar de Itty Bitty Titty Committee (IBTC), então vejam como eu cumpro minhas promessas, ainda que com certa demora. Quem viu o outro filme vai notar a semelhança entre os dois. Como em But I'm a Cheerleader, IBTC não se propõe a ser um filme sério, é uma comédia, uma alegoria da luta feminista numa sociedade que exclui e oprime as mulheres. Como tal, apresenta personagens às vezes caricatos demais e algumas situações bem irreais, mas na minha opinião não perde por isso. É um roteiro não convencional executado de forma irreverente. Minha namorada por outro lado não curtiu tanto, ela achou que os personagens eram muito exagerados e não se relacionou muito com eles.

Eu vejo vários pontos positivos no filme e acho que no fim o saldo é bem satisfatório. Primeiro de todos é o fato ser um filme com lésbicas e para lésbicas, mas sem o drama de sair do armário, como frisei no começo do post. Segundo, acho que o filme consegue ser sobre e para lésbicas mas mesmo assim não se restringir somente a esse nicho. O casal principal é de lésbicas e certamente há várias delas na trama, mas o elenco em geral é bastante diversificado.

Há um transgênero masculino (FTM - Female to Male, ou seja, que nasceu mulher mas tem identidade de gênero masculina), que foi expulso de casa ao contar para os pais. Fora The L Word, esse é o único filme ou seriado que vi que trata de transgêneros masculinos, se alguém souber de outros por favor me fale porque de tudo que vi e li até agora quase não há referência. O personagem Aggie acaba tendo um pequeno affair com Anna no meio do filme, que também chama a atenção porque quase não vemos transgêneros femininos ou masculinos retratados de maneira sexualmente ativa.

Uma das militantes da c(i)a, interpretada pela linda Carly Pope (à direita), é heterossexual e questiona a rigidez das nossas categorias de sexualidade, ela acaba se envolvendo com outra mulher ao longo da trama (Daniela Sea, que faz o transsexual em The L Word). Não fica claro se ela se descobre bissexual, lésbica ou se continua se identificando como hétero mas tendo um caso com uma mulher, de qualquer modo é interessante ver esse tipo de experimentação retratada. A bissexualidade infelizmente ainda é considerada um tabu, mesmo nos filmes e séries que lidam com o assunto de sexualidades.

Também achei legal que a garota com quem ela se envolve tem um passado no exército americano. Ela serviu 18 meses no Iraque e depois foi dispensada do serviço deshonradamente, por ser lésbica. Não sei se vocês estão por dentro dessa questão, mas nos Estados Unidos existe uma política chamada "Don't Ask, Don't Tell", que quer dizer quer gays ou lésbicas podem servir, mas não podem ser abertos quanto à sua homossexualidade. Ou seja, podem dar suas vidas pelo país, mas só se ficarem no armário. O Obama já prometeu abolir essa política, mas ainda não estabeleceu um cronograma disso. É mais um dos absurdos do preconceito, mais uma das nossas lutas.

Por último, eu gostei da variedade de sapas, fora a inclusão de bissexualidade e transsexualidade, o filme ainda mostra lésbicas tantos femmes quanto butches. Apesar de eu, pessoalmente, ser mais parcial às femmes (pronto, disse), adoro quando há uma diversificação dessa estética lésbica nos filmes. Acho que qualquer um que conhece várias sapas e tem amigas de diferentes tipos sabe que o nosso mundo não é feito só de femmes, nem só de butches, nem só de extremos. Acho isso super legal e acredito que existe muito mais fluidez nesse espectro do que se imagina. Bom, eis alguns exemplos dessa variedade:
Eu por exemplo não sei direito onde me encaixo. Sou femme porque gosto de usar vestido e salto num baile, ou sou butch porque adoro usar bermuda e tenho cabelo curto? Sei lá, acho que sou um pouco dos dois e penso que muita gente também transita entre essas categorias. O filme mostra bem essa variadade e mostra como cada uma tem sua beleza. Cada uma pende para um certo lado, mas certamente não há uma rigidez. Nesse sentido achei uma boa evolução de But I'm a Cheerleader, onde cada personagem, homem ou mulher, se encaixava em um rótulo.


Bom, essa é minha sugestão do dia. Fora todas as razões que eu já apontei, ainda tem a trilha sonora, muito boa com bastante som riot grrrl (Bikini Kill, Le Tigre, Team Dresh) e cenas de clubes undergrounds. E, como não poderia deixar de ser, tem também a vantagem de ter várias cenas de nudez e de sexo, que sempre deixam o filme mais interessante... ou não? Vocês me digam.

Enfim, é mais um trabalho da Jamie Babbit, que com certeza é uma diretora pra ficar de olho. O filme foi realizado com apoio da Power Up!, uma produtora cinematográfica sem fins lucrativos que patrocina projetos que tenham lésbicas como tema. Essa mesma organização financiou outro favorito meu, D.E.B.S., da Angela Robinson, mais uma cineasta lésbica, que prometo (ai ai, mais uma promessa) falar um dia aqui no Oráculo. IBTC conta com a participação de Guinevere Turner, atriz que produziou e estreou Go Fish, e com a celesbian Jenny Shimizu, que é famosa por ter tido um caso com Angelina Jolie e com a Madonna.

Como sempre, o filme pode ser achado por aí tranquilamente e as legendas estão disponíveis aqui.

27 julho 2009

"I Can't Think Straight": comédia romântica com diversidade cultural

Eu sei, eu sei. Faz horas que não escrevo. O que eu posso dizer? As coisas nem sempre são como a gente quer... Minha vida está meio complicada. Estou estudando de novo e trabalhando muito, então acaba sobrando pouco tempo para tudo o resto. Por outro lado tenho boas notícias: estou morando com minha namorada numa casa super legal (seria a casa dos nossos sonhos se não fosse pelo aluguel e pelas vizinhas chatas que não gostam de cachorro). Fica no Sul da Ilha, pra quem conhece Floripa, bem pertinho do meu irmão e da mulher dele.

Bom, sinto muita saudade de escrever no blog e dos comentários de vocês, então hoje me empolguei pra compartilhar um filme visto recentemente: I Can't Think Straight (2007).

É um filme sobre uma mulher que está prestes a se casar e acaba conhecendo e se apaixonando por outra mulher. Hmmm, plot velho né? Alguém se lembra de Imagine You & Me? (Sei que ainda não falei desse filme no Oráculo, mas com certeza vocês já ouviram falar). Mas só o enredo é batido, a execução é bem legal e vale a pena conferir.

Primeiro de tudo pela diversidade das personagens. O filme se passa em Londres na sua maior parte, e uma das personagens (Leyla, à esquerda na imagem ao lado) é muçulmana de origem indiana, enquanto que a outra (Tala, à direita) é da Jordânia, de origem palestina e vinda de uma família cristã. Adoro quando a diversidade é realçada em filmes que lidam com questões de gênero e sexualidade. Acho que em muitas aspectos estamos presas ao universo hollywoodiano, e também à sua estética branca e ocidental.

Mas ainda bem que filmes sobre lésbicas ainda não viraram moda em Hollywood (fora raras exceções e os de mau gosto é claro) e têm seu nicho forte no cinema independente, que permite que a diversidade seja retratada com todas as suas cores. Vendo esses filmes eu me dou conta do quanto de beleza existe fora do padrão estético hollywoodiano. Alguém nega isso olhando para essas imagens?

Muito provavelmente o filme deve a sua diversidade à diretora, Shamim Sharif, que é de origem sul-asiática e sul-africana. Ela é responsável por outro filme sobre lésbicas chamado The World Unseen, que pretendo comentar futuramente no Oráculo. Os dois filmes surgiram de romances escritos pela por ela mesma, que ganharam vários prêmios literários e de cinema. Em resumo, ela é uma dessas pessoas que temos sempre que ficar de olho, tal como Angela Robinson e Alison Bechdel.

A trama, como já dei a entender não muito sutilmente, não traz muitas surpresas. Tala está prestes a se casar quando conhece Leyla. As duas começam a trocar olhares e quando percebem já estão na cama. Daí vem a parte da angústia em relação às famílias tradicionais e a invariável escolha entre ficar no armário ou se assumir.

Leyla lida melhor com a situação, e uma vez que descobre o porquê de todos aqueles livros da Sarah Waters e daqueles cds da K.D. Lang ela respira fundo e encara a família. Você pode ver pela foto ao lado o quanto a mãe dela curtiu a ideia (eventualmente, como na maior parte dos casos, ela melhora de postura, e é legal que o pai dela a apóia desde o começo).

Já Tala decide se afastar de Leyla e tenta seguir com o casamento até a véspera do mesmo... tsc tsc. Depois a dor de cotovelo bate forte... mas como toda comédia romântica (sobre e para lésbicas) as duas acabam voltando aos braços uma da outra. E como vale a pena esperar por esse momento...

Achei a química entre as duas muito legal, e não prejudica nada o fato das duas serem lindas de morrer e terem aquele quê de sapas que não é toda atriz que consegue reproduzir. Também gostei da maneira como os dilemas foram enfrentados pelas personagens, com drama mas sem muito drama, se é que isso faz sentido. Sei lá, não é sempre que você quer ver um dilema existencial de duas horas para chorar do começo ao fim... às vezes só quer ver uma história legal entre duas mulheres. Mas eu já assumi antes que adoro comédias românticas então não adianta ficar escondendo isso.

Uma das coisas que chamou a atenção foi a discussão sobre as diferenças religiosas e culturais entre as duas. Apesar das duas virem de famílias tradicionais e conservadoras em seus países de origem, as histórias são diferentes. É interessante ver como a família de origem palestina lida com assuntos referentes a Israel de maneira polêmica no jantar, ao mesmo tempo em que a família indiana discute a fé e dedicação à religião muçulmana. Quando essas duas discussões se encontram, há certo atrito, mas desenvolvido de maneira muito boa pelo roteiro e direção. Como eu já disse, um drama sem muito drama.

Bom, fica a dica então. Pra quem quiser ver o filme, é bem tranquilo de achar pelos caminhos usuais na internet. As legendas em português você pode baixar por aqui.

23 março 2009

"For the Bible Tells Me So": uma cruzada pela verdade na discussão entre homossexualidade e religião

Depois de tanto tempo sem postar (outra hora me explico, mas envolve uma namorada ocupadíssima, um trampo muito estressante, trabalho voluntário que exige horrores de tempo e aulas como caloura na UFSC, sim, de novo) queria me redimir com um post sobre um dos documentários mais marcantes que já vi. For the Bible Tells Me So fala de religião e homossexualidade, e dos inevitáveis (será?) conflitos que advém quando os dois se cruzam.

O filme começa com uma cena clássica da Anita Bryant, uma religiosa fanática que fez campanha contra homossexuais nos anos 70, levando uma tortada na cara (quem viu Milk vai lembrar dela). Isso já é em si só uma amostra de quanto os ânimos se acirram quando a questão religião e homossexualidade começa a ser discutida em qualquer lado da balança. Em seguida vemos e ouvimos vários trechos de sermões e discursos do naipe de "Estamos destruindo o alicerce da sociedade", "Este país está fazendo de tudo para fazer as pessoas acreditarem que é ok ser gay. Quando não é. Por isso Deus destruiu Sodoma e Gomorra e por isso Deus vai destruir este país", misturados com imagens de passeatas por direitos gays e paradas.

Em menos de cinco minutos se vocês forem como eu já estarão chocados com o discurso de ódio que é proferido contra a população LGBT. Eu digo chocado não no sentido de surpresa, porque todos sabemos do que se trata (muitos de nós já sentiram na pele), mas no sentido de não conseguir aceitar a simples existência desse discurso. Eu sempre me sinto assim, não consigo me acostumar ao fato de milhões de pessoas odiarem o que eu sou com tanta veemência. Estou mais do que ciente da existência desse ódio e preconceito, mas por mais que eu ouça e me informe e lute contra isso, a cada nova vez que eu escuto me vem a sensação de choque e incredulidade novamente.

Ok, mas continuando sobre o filme (estou revendo pela quarta vez pra escrever o post e já estou com lágrimas nos olhos). As histórias são contadas através das perpectivas de cinco famílias religiosas que tiveram que lidar com um filho gay ou uma filha lésbica. Aos poucos vamos nos familiarizando com esses personagens, com essas famílias que sofreram e ainda sofrem tentando aceitar a ideia de que um dos seus filhos queridos também é um dos que a Bíblia condena como uma abominação. Como fazer para conciliar seu amor por um membro estimado da família com a convicção de que a Bíblia classifica ela ou ela como não naturais?

Não quero entrar em nenhuma questão de religião específica, mas acho que existe sim uma razão ou um propósito para que nasça um filho ou filha homossexual dentro de uma família preconceituosa. Acredito que é uma das grandes ironias da vida (e, porque não dizer, divinas): é muito fácil julgar o outro, o diferente, ter preconceito e condenar aquilo que pra você é alheio. Quantas vezes não vemos a religião sendo usada para propagar justamente esse ódio ao diferente? Mas como fazer quando de repente a diferença chega até você? Quando não é mais o garoto efeminado da novela que é bixa, ou a menina de estilo moleque do seu bairro que é sapatão, ou qualquer outro estereótipo, o que fazer quando você descobre que o seu filho ou sua filha são aquilo que você sempre desprezou sem maiores considerações? O documentário lida com essas contradições. Cinco famílias religiosas que enfrentaram essa situação, algumas bem outras nem tanto.

Acho que o filme já começa desafiando essa questão de diferença. Os gays não são colocados como diferentes, e tampouco os religiosos. Ao invés de contar a história de um ponto de vista "nós" versus "eles", "homossexualidade" versus "Bíblia", "gays" versus "religiosos", como se fossem lados opostos em uma batalha, o filme nos conta as histórias de quando não há o diferente, nem de um lado nem de outro. Quando os dois lados fazem parte da mesma família. A ideia do filme é fugir dessa polarização e lidar com o assunto da melhor maneira, de uma maneira humana.

Então vamos aos casos individuais. A primeira família é a de Gene Robinson. Eu não sei se vocês já ouviram falar dele, mas se ainda não sabem quem é deveriam ir atrás. Ele foi o primeiro religioso abertamente gay a ser consagrado como Bispo na Igreja Episcopal. Um homem que quebrou barreiras e foi inclusive convidado a dar uma prece na inauguração das festividades da posse do Obama (no meio de uma polêmica entre Obama e o movimento LGBT pelo fato do primeiro ter convidado um religioso anti-gay, Rick Warren, para fazer a oração no dia da inauguração). Os pais já idosos dele falam de como Gene nasceu com problemas de saúde, e de como eles agradeciam a Deus pelo filho ter crescido normalmente apesar dos médicos terem falado que ele sofreria com problemas de desenvolvimento. Eles se emocionam ao contar a história. É muito claro que amam o filho genuinamente e tem orgulho dele.

A próxima família a ser apresentada é a dos Poteats (ao lado). A fala que mais me marcou nos relatos dessa família é a do pai quando fala que rezava a Deus para seus dois filhos, um menino e uma menina. Que o menino não virasse uma bixa, e que a menina não se transformasse numa vadia. A grande ironia de acordo com ele é que Deus ouviu as preces dele. Foi a filha que se revelou lésbica... (Sempre achei que foi exatamente o que aconteceu com meu pai...) Homossexualidade era uma coisa que ele nunca esperaria que acontecesse comigo, justo a filha menina (acho que as pessoas quando pensam em homossexualidade acabam lembrando só dos gays mesmo tsc tsc). Em seguida os Reitans, que tem um filho adolescente gay, são apresentados e logo depois os Gephardts, que tem uma filha lésbica.

Depois que as primeiras quatro famílias são brevemente apresentadas o documentário foca um bom tempo na palavra "abominação", que é como a Bíblia descreve atos homossexuais em algumas passagens tais como Levítico 20:13. As entrevistas com as pessoas na rua mostram o quanto de ignorância há por trás da ideia do que exatamente a Bíblia fala, já que muitos nunca leram as tais passagens que condenam a homossexualidade. Na passagem citada o que acontece é que ao mesmo tempo em que classifica um homem deitar com outro homem como abominação, um pouco antes também classifica a ingestão de frutos do mar como tal, e um pouco abaixo condena misturar mais de uma semente na mesma plantanção como abominação. A leitura literal de apenas um verso fora de contexto é o mal que aflige aqueles que usam a Bíblia para justificar seus preconceitos, conforme vários teólogos entrevistados.

O documentário relata um pouco de como foi para os filhos e filhas se assumirem para si mesmos e depois para os pais. O processo é mostrado através dos dois pontos de vista e não há como não se emocionar com alguns dos relatos. Me identifiquei com várias das histórias e acho que deve ser uma reação comum pra quem já viveu isso na pele. Acho que em toda a história de se assumir e de assumir para os pais há alguns elementos em comum: o medo de não ser aceito, medo de não ser mais amado, medo de ser motivo de vergonha para os pais, o medo de não se sentir parte de algo maior, entre outros por parte dos filhos; e por parte dos pais a sensação de não conhecer mais seu filho, o medo de que ele ou ela percam seu rumo na vida, o medo de um "estilo de vida" (não concordo com essa expressão) desconhecido, a sensação de ter todos os sonhos para aquela pessoa despedaçados de uma vez só... "Foi como uma morte" disse o pai de Jake, da família Reitan. Acho que é algo do gênero para os dois lados... Em compensação existe também a sensação de renascimento, você sai disso tudo uma nova pessoa, a pessoa que você verdadeiramente é, e acho que no final os pais entendem isso (na maior parte das vezes).


"Amor incondicional" fala Dick Gephardt (um político proeminente do partido democrata americano), pai de Chrissie (foto acima). Ele resume bem o sentimento que precisa ser redescoberto para que haja a aceitação. Chrissie teve muita sorte, seus pais a aceitaram imediatamente e a asseguraram que seu amor continuaria o mesmo e que a apoiariam sempre. Com certeza algo que muitos de nós ainda esperam ouvir. Já aviso que às vezes demora um pouco, como no meu caso e a dos outros no documentário.

Foi o caso de Jake, da família Reitan (na foto acima com os pais). Seus pais não sabiam como lidar com a situação e procuraram o apoio de um pastor parente deles que os aconselhou a não aceitar o filho como homossexual, que ele poderia mudar e que o faria com a ajuda da igreja e deles. Sugeriu que algumas pessoas passam por fases na vida onde sentem atração pelo mesmo sexo e que talvez fosse o caso com Jake, que ainda era adolescente. Eu pergunto a todos os pais com filhos gays ou quaisquer outras pessoas com essa ideia: será que é realmente plausível que alguém escolha voluntariamente passar por esse tipo de sofrimento por um sentimento passageiro? Eu pergunto pra quem acha que ser gay ou lésbica é questão de escolha, de "estilo de vida": quem escolheria sofrer preconceito diariamente? Se fosse uma escolha realmente, quem escolheria isso? Quem escolheria o medo de ser rejeitado pelos próprios pais? É claro que não temos escolha, nascemos assim e somos obrigados a enfrentar uma sociedade inteira para termos uma chance de ser felizes. Eu acho que cada um de nós deveria receber um prêmio, só pela coragem de assumir ser algo diferente do que a sociedade dita para você.


O que alguns programas religiosos ditam é que homossexualidade é uma escolha e que o que você deve fazer para "salvar" seu filho é não aceitá-lo. Isso é a pior coisa que se pode fazer numa hora dessas, diz uma psicóloga no documentário. É justamente o período mais frágil na vida de alguém e pode ser devastador ser rejeitado pelas pessoas que você mais depende. A história da quinta família no documentário mostra isso claramente. A mãe, Mary Wallner (ao lado com as duas filhas), conta como rejeitou sua filha (direita na foto), como usou as passagens da Bíblia para dizer as coisas muito pouco amáveis como "eu te amo, mas sempre vou odiar isso em você", na maneira que julgava correta pelas intruções da igreja.

Isso afastou Anna, a filha, cada vez mais até que ela cometeu suicídio. Infelizmente essa é uma realidade no nosso mundo, gays e lésbicas são três a sete vezes mais propensos a cometer suicídio, e essa taxa aumenta ainda mais quando se trata de adolescentes. Acho que as pessoas não conseguem entender inteiramente o que é sentir solidão por completo, o que é sentir-se o único no mundo. O que é sentir-se realmente só. Um dos entrevistados que trabalha numa ONG de prevenção ao suicídio do estilo do CVV diz que uma das cinco maiores razões para os jovens ligarem para pedir apoio é por razões religiosas. O que a Igreja faz é criar um mundo onde a pessoa se sente ainda mais só, como se nem Deus aprovasse da sua existência, como se não houvesse maneira de conciliar fé e homossexualidade. Um mundo onde a primeira resposta é o ódio a si mesmo, é a falta de aceitação de si mesmo. Um mundo onde há o medo de falar com os pais, com os professores, com os líderes religiosos, com os amigos, etc.

E o que acontece também é que se cria um mundo onde a violência contra gays e lésbicas é justificada pela Bíblia. Assim como a Bíblia foi erroneamente usada para validar escravidão, opressão contra as mulheres, apartheid, anti-semitismo, e asim por diante, hoje é usada para justificar preconceito com a população LGBT. Nós somos o novo "outro". O clima político é um em que a violência contra gays e lésbicas é tida como um ato divino, alguém fazendo a vontade do Senhor. A mensagem de amor e compaixão expressa na Bíblia fica perdida em meio à alienação do preconceito.

"Minha crença teológica é que todas as relações baseadas em amor são honradas por Deus" diz um dos entrevistados. Amor é um sentimento divino, como poderia ser condenado por Deus? Em que realidade seria plausível que Deus condenasse um amor tão puro quanto qualquer outro? "Jesus sempre abraçou os excluídos, como alguém usaria suas palavrar para excluir um grupo de pessoas e se proclamar cristão não faz sentido para mim" diz outra entrevistada. Amor, inclusão, compaixão: esses são os sentimentos ensinados por Jesus. Onde as pessoas encaixam preconceito dentro disso não entendo.

Um rabino entrevistado lembra que na Bíblia um homem adquiria sua mulher. Não fazemos mais isso, diz ele. O conceito de casamento mudou desde aquela época, completa. Então porque será que as pessoas tem tanto medo de redefinir o que é o casamento? Dizem que a legalização das uniões gays irá redefinir o que significa casamento. E daí? É o que se faz com o passar do tempo, se redefinem as coisas. O conceito de casamento vem mudando há séculos, justamente agora significará o fim da sociedade? Não era o que diziam do casamento interracial? Do divórcio? Pelo que me consta essas foram redefinições do que é casamento e ainda continuamos aqui, o mundo ainda não acabou.

"Eu não consigo imaginar, por mais que tente que Deus puna as pessoas dessa maneira. Eu vou te punir porque você é negro, você deveria ter sido branco. Eu vou te punir porque você é mulher, você deveria ter sido homem. Vou te punir porque você é homossexual, você deveria ter nascido heterossexual. Não consigo realmente imaginar que seja assim que Deus veja essas coisas." Desmond Tutu, arcebispo e nobel da paz pela sua luta contra o Apartheid.

Pronto, estou eu aqui novamente chorando ao terminar de assistir esse documentário. Acho que é o tipo de filme que tinha que ser mostrado nas salas de aula. As legendas em português demoraram um tanto, mas estão disponíveis nesse link. O filme em inglês está disponível na íntegra no Youtube, mas também é bem fácil de conseguir para baixar nos caminhos usuais. Acho que ficou claro pelo meu post imenso que eu mais do que recomendo. É dos meus filmes favoritos de todos os tempos e programa obrigatório para vocês minhas leitoras e leitores.