15 novembro 2009

Itty Bitty Titty Committee: feminismo longe dos dramas do armário

Resolvi fazer esse post sobre um filme que não lida nem com se assumir e nem com se assumir para os pais, o que é raro no universo de filmes LGBT. Às vezes parece que só esses dois momentos são importantes na nossa vida. Pensem bem, temos bastantes filmes e séries que lidam com se assumir ou com se assumir para os pais, ou com os dois. Mas quantos trabalhos que retratem lésbicas existem que não tratam nem de uma coisa nem de outra?

Claro que se assumir é um grande marco na vida de toda lésbica, mas nossa vida é mais rica do que sair do armário e quase não vemos esse tipo de representação.


The Itty Bitty Titty Committee (2007) passa longe disso, é um filme sobre feminismo e militância. A personagem principal é jovem, tímida e um pouco ingênua, mas já passou por todas essas crises de assumir. A família dela a apoia e inclusive convida a namorada dela para um casamento na família. O problema de Anna (Melonie Diaz) não está em ser ou não ser lésbica, ou de ser ou não ser lésbica abertamente. O problema dela é a solidão.

Ela começa o filme tendo recém levado um pé na bunda da namorada, que deixa mensagens horrorosas na secretária eletrônica pedindo os cds de volta e proibindo-a de ver as amigas que compartilhavam quando estavam juntas. O trabalho dela é um saco e ela não conseguiu entrar na universidade que queria. Em resumo, está na fossa total.

As coisas mudam quando ela conhece Sadie (Nicole Vicious), uma menina (sempre começa assim né?) que está pichando o lugar onde Anna trabalha, uma clínica de cirurgia plástica. Era tudo que ela precisava, uma bad girl pra apimentar as coisas um pouco. Claro que ajuda um monte a delinquente em questão ser super gostosinha e ter aquele charme que só as bad girls sabem ter (vocês sabem do que eu estou falando, não adianta negar). Não precisou convidar duas vezes para Anna ir para o mau caminho.

Ela se junta a um grupo de feministas radicais chamado "c(i)a", sigla que quer dizer "clits in action", ou "clitóris em ação" em português, que comete variados atos de vandalismo em nome da emancipação da mulher perante a sociedade misógina e opressora. Ela começa a ler textos feministas, pinta o cabelo, picha as paredes do quarto, e se rebela em geral contra o casamento da irmã e contra as práticas do chefe cirurgião plástico. Mas a vida de militante feminista radical é mais do que piquetes e demonstrações, Anna se envolve com a bad girl Sadie e bagunça toda a estrutura interna do grupo (ok, essa parte é bem previsível).


O filme foi dirigido por Jamie Babbit, que já teve outro filme comentado no Oráculo (But I'm a Cheerleader). Na verdade, já naquele post eu havia prometido falar de Itty Bitty Titty Committee (IBTC), então vejam como eu cumpro minhas promessas, ainda que com certa demora. Quem viu o outro filme vai notar a semelhança entre os dois. Como em But I'm a Cheerleader, IBTC não se propõe a ser um filme sério, é uma comédia, uma alegoria da luta feminista numa sociedade que exclui e oprime as mulheres. Como tal, apresenta personagens às vezes caricatos demais e algumas situações bem irreais, mas na minha opinião não perde por isso. É um roteiro não convencional executado de forma irreverente. Minha namorada por outro lado não curtiu tanto, ela achou que os personagens eram muito exagerados e não se relacionou muito com eles.

Eu vejo vários pontos positivos no filme e acho que no fim o saldo é bem satisfatório. Primeiro de todos é o fato ser um filme com lésbicas e para lésbicas, mas sem o drama de sair do armário, como frisei no começo do post. Segundo, acho que o filme consegue ser sobre e para lésbicas mas mesmo assim não se restringir somente a esse nicho. O casal principal é de lésbicas e certamente há várias delas na trama, mas o elenco em geral é bastante diversificado.

Há um transgênero masculino (FTM - Female to Male, ou seja, que nasceu mulher mas tem identidade de gênero masculina), que foi expulso de casa ao contar para os pais. Fora The L Word, esse é o único filme ou seriado que vi que trata de transgêneros masculinos, se alguém souber de outros por favor me fale porque de tudo que vi e li até agora quase não há referência. O personagem Aggie acaba tendo um pequeno affair com Anna no meio do filme, que também chama a atenção porque quase não vemos transgêneros femininos ou masculinos retratados de maneira sexualmente ativa.

Uma das militantes da c(i)a, interpretada pela linda Carly Pope (à direita), é heterossexual e questiona a rigidez das nossas categorias de sexualidade, ela acaba se envolvendo com outra mulher ao longo da trama (Daniela Sea, que faz o transsexual em The L Word). Não fica claro se ela se descobre bissexual, lésbica ou se continua se identificando como hétero mas tendo um caso com uma mulher, de qualquer modo é interessante ver esse tipo de experimentação retratada. A bissexualidade infelizmente ainda é considerada um tabu, mesmo nos filmes e séries que lidam com o assunto de sexualidades.

Também achei legal que a garota com quem ela se envolve tem um passado no exército americano. Ela serviu 18 meses no Iraque e depois foi dispensada do serviço deshonradamente, por ser lésbica. Não sei se vocês estão por dentro dessa questão, mas nos Estados Unidos existe uma política chamada "Don't Ask, Don't Tell", que quer dizer quer gays ou lésbicas podem servir, mas não podem ser abertos quanto à sua homossexualidade. Ou seja, podem dar suas vidas pelo país, mas só se ficarem no armário. O Obama já prometeu abolir essa política, mas ainda não estabeleceu um cronograma disso. É mais um dos absurdos do preconceito, mais uma das nossas lutas.

Por último, eu gostei da variedade de sapas, fora a inclusão de bissexualidade e transsexualidade, o filme ainda mostra lésbicas tantos femmes quanto butches. Apesar de eu, pessoalmente, ser mais parcial às femmes (pronto, disse), adoro quando há uma diversificação dessa estética lésbica nos filmes. Acho que qualquer um que conhece várias sapas e tem amigas de diferentes tipos sabe que o nosso mundo não é feito só de femmes, nem só de butches, nem só de extremos. Acho isso super legal e acredito que existe muito mais fluidez nesse espectro do que se imagina. Bom, eis alguns exemplos dessa variedade:
Eu por exemplo não sei direito onde me encaixo. Sou femme porque gosto de usar vestido e salto num baile, ou sou butch porque adoro usar bermuda e tenho cabelo curto? Sei lá, acho que sou um pouco dos dois e penso que muita gente também transita entre essas categorias. O filme mostra bem essa variadade e mostra como cada uma tem sua beleza. Cada uma pende para um certo lado, mas certamente não há uma rigidez. Nesse sentido achei uma boa evolução de But I'm a Cheerleader, onde cada personagem, homem ou mulher, se encaixava em um rótulo.


Bom, essa é minha sugestão do dia. Fora todas as razões que eu já apontei, ainda tem a trilha sonora, muito boa com bastante som riot grrrl (Bikini Kill, Le Tigre, Team Dresh) e cenas de clubes undergrounds. E, como não poderia deixar de ser, tem também a vantagem de ter várias cenas de nudez e de sexo, que sempre deixam o filme mais interessante... ou não? Vocês me digam.

Enfim, é mais um trabalho da Jamie Babbit, que com certeza é uma diretora pra ficar de olho. O filme foi realizado com apoio da Power Up!, uma produtora cinematográfica sem fins lucrativos que patrocina projetos que tenham lésbicas como tema. Essa mesma organização financiou outro favorito meu, D.E.B.S., da Angela Robinson, mais uma cineasta lésbica, que prometo (ai ai, mais uma promessa) falar um dia aqui no Oráculo. IBTC conta com a participação de Guinevere Turner, atriz que produziou e estreou Go Fish, e com a celesbian Jenny Shimizu, que é famosa por ter tido um caso com Angelina Jolie e com a Madonna.

Como sempre, o filme pode ser achado por aí tranquilamente e as legendas estão disponíveis aqui.